Portugal com Futuro: a revolução simples de pôr os competentes a governar
Portugal com Futuro: a revolução simples de pôr os competentes a governar
Portugal ainda pode ter futuro. Mas não será por milagre, nem por decreto, nem por mais um plano estratégico adormecido numa gaveta. Será quando o país retirar poder a quem falha e o entregar a quem sabe produzir resultados.
Nota de abertura:
O futuro de Portugal não depende de mais promessas. Depende de uma ruptura moral: retirar poder a quem falha, promover quem entrega resultados e transformar a competência numa regra de governação, gestão e liderança.
Portugal ainda pode ter futuro.
A frase parece quase uma provocação, porque durante demasiadas décadas o país fez tudo para a desmentir com zelo administrativo. Falhou no ensino, na saúde, na justiça, na economia, na habitação, na floresta, na inovação, na gestão pública, na valorização do talento e na mais elementar arte de pedir desculpa aos cidadãos quando os resultados são miseráveis.
Mas Portugal ainda pode ter futuro.
Não por milagre. Não por decreto. Não por mais um plano estratégico com capa azul, prefácio ministerial e morte lenta numa gaveta. Portugal pode ter futuro se fizer uma coisa simples, brutal, quase ofensiva para a tradição nacional: retirar poder a quem falha e entregá-lo a quem sabe produzir resultados.
Parece evidente. Mas em Portugal o evidente é sempre tratado como radicalismo. Este país é capaz de discutir durante vinte anos se a água molha, criar uma comissão para estudar a humidade, encomendar um relatório internacional, abrir uma consulta pública e, no fim, concluir que “o assunto carece de maior reflexão”. A realidade, coitada, continua encharcada.
O país dos lugares garantidos
Portugal habituou-se a proteger demasiadas lideranças falhadas.
Nos governos, nas empresas públicas, nas administrações hospitalares, nas direcções-gerais, nas câmaras municipais, nos institutos, nas fundações, nas universidades, nas empresas privadas encostadas ao Estado, nas entidades reguladoras e até em certas chefias intermédias que parecem ter sido escolhidas por concurso de resistência à lucidez.
Quem falha raramente desaparece. Muitas vezes é transferido.
Sai de um gabinete, entra noutro.
Sai de uma administração, entra num conselho consultivo.
Sai de um ministério, aterra numa empresa pública.
Sai de uma empresa pública, reaparece numa fundação.
Sai de uma fundação, regressa como comentador sobre os problemas que ajudou a criar.
É a circularidade perfeita da incompetência: nada se perde, tudo se recicla, excepto o tempo dos cidadãos, o dinheiro público e a esperança colectiva. Esses desaparecem com uma facilidade quase mágica.
O país precisa de romper com esta liturgia.
Um Portugal com futuro não pode continuar a tratar cargos como prémios de carreira, favores partidários, compensações políticas ou lugares de repouso para talentos medianos mas socialmente bem relacionados.
Um cargo de liderança não é uma decoração. É uma responsabilidade.
E uma responsabilidade sem consequência é apenas teatro com salário.
A cultura do resultado
Portugal precisa de uma nova cultura: a cultura do resultado.
Não basta ser simpático.
Não basta ser leal.
Não basta ser “institucional”.
Não basta saber falar em painéis.
Não basta usar expressões como “visão integrada”, “abordagem transversal” ou “ecossistema colaborativo”, esse incenso verbal com que se perfuma a ausência de obra.
A pergunta deve ser outra:
O que fez?
Que problema resolveu?
Que equipa construiu?
Que custos reduziu?
Que serviço melhorou?
Que prazos cumpriu?
Que cidadãos beneficiou?
Que valor criou?
Que desperdício eliminou?
Que inovação implementou?
Isto devia ser o alfabeto da governação e da gestão. Em Portugal, muitas vezes, ainda parece uma exigência revolucionária. O que diz bastante sobre o estado da casa e sobre quem anda há décadas a fingir que a mobília está bem alinhada enquanto o tecto cai.
Um país com futuro mede. Avalia. Compara. Corrige. Substitui. Aprende.
Um país sem futuro anuncia. Promete. Adia. Justifica. Reorganiza. Muda o nome. Recomeça.
Portugal tem feito demasiado da segunda escola.
O talento não pode continuar a emigrar da decisão
Há talento em Portugal. Muito.
Há bons professores, bons médicos, bons engenheiros, bons investigadores, bons empresários, bons técnicos, bons gestores, bons autarcas, bons funcionários públicos, bons programadores, bons cientistas, bons agricultores, bons industriais, bons arquitectos, bons enfermeiros, bons operários especializados, bons jovens com vontade de fazer.
O problema é que o talento português muitas vezes trabalha abaixo de estruturas medíocres.
O talento executa. A mediocridade decide.
O talento resolve. A mediocridade assina.
O talento aguenta. A mediocridade aparece na fotografia.
Isto é uma das grandes tragédias nacionais.
Portugal não sofre apenas de fuga de cérebros para o estrangeiro. Sofre também de uma fuga interna de competência: os melhores cansam-se, afastam-se, calam-se, adaptam-se ou sobrevivem em silêncio enquanto a máquina continua entregue aos que sabem circular nos corredores certos.
Um Portugal com futuro tem de fazer o contrário: trazer os competentes para o centro da decisão.
Não para os usar como ornamento em “task forces” de ocasião. Não para os pôr a escrever relatórios que ninguém aplicará. Não para os convidar para conferências sobre “transformação” enquanto as chefias reais continuam nas mesmas mãos.
Tem de lhes entregar poder efectivo.
Poder para mudar processos.
Poder para eliminar desperdício.
Poder para avaliar equipas.
Poder para contratar bem.
Poder para afastar quem bloqueia.
Poder para executar.
Poder para ser responsabilizado também.
Porque competência sem autoridade é apenas consultoria decorativa.
Governar é entregar, não discursar
Portugal precisa de reaprender uma ideia antiga: governar não é discursar. Governar é entregar.
Entregar escolas que funcionam.
Entregar hospitais que respondem.
Entregar tribunais em tempo útil.
Entregar habitação possível.
Entregar transportes decentes.
Entregar administração simples.
Entregar economia produtiva.
Entregar salários compatíveis com vida digna.
Entregar segurança.
Entregar futuro.
O cidadão não vive de intenções. Vive de serviços, prazos, rendimentos, oportunidades e confiança.
Quando um jovem não consegue pagar uma renda, não lhe serve de muito saber que existe uma estratégia nacional para a habitação.
Quando um doente espera meses por uma consulta, não lhe aquece a alma ouvir que o Governo está a “reforçar respostas”.
Quando um professor se sente exausto e desrespeitado, não basta uma homenagem no Dia Mundial do Professor.
Quando um empresário perde meses com licenças, plataformas e repartições, não resolve grande coisa saber que o Estado está em “transição digital”.
Quando o interior arde, envelhece e esvazia, não basta proclamar coesão territorial com ar grave e gravata nova.
Um Portugal com futuro tem de abandonar a religião do anúncio. O anúncio é apenas ruído. A execução é que é política.
A escola de um país sério
Num Portugal com futuro, o ensino seria tratado como a primeira infraestrutura nacional.
Mais importante do que uma autoestrada. Mais importante do que um aeroporto. Mais importante do que mais uma rotunda com arbustos deprimidos e placa comemorativa.
A escola seria o lugar onde o país constrói liberdade, pensamento, ciência, cidadania, criatividade e competência. Os professores seriam respeitados, avaliados com justiça, libertos de burocracia inútil e chamados para construir políticas educativas com continuidade.
Os alunos aprenderiam a pensar, a escrever, a calcular, a programar, a argumentar, a criar, a cooperar, a duvidar, a compreender o mundo e a não engolir slogans como se fossem sopa.
A formação profissional teria dignidade. A universidade teria exigência. A ciência teria ligação séria à economia. A investigação não seria apenas um ornamento para discursos sobre inovação.
Um país com futuro não forma jovens para os exportar. Forma jovens para os fazer ficar, criar, construir e liderar.
Exportar talento pode ser inevitável em parte. Transformá-lo em política económica involuntária é estupidez com diploma.
Uma saúde que respeita quem trata e quem espera
Num Portugal com futuro, a saúde deixaria de viver do heroísmo crónico dos profissionais.
Médicos, enfermeiros, técnicos, auxiliares e administrativos não podem continuar a ser o cimento humano que tapa todas as fissuras da má gestão. Um sistema que depende permanentemente do sacrifício dos seus profissionais não é resiliente. É abusivo.
O SNS precisa de gestão competente, planeamento sério, tecnologia interoperável, carreiras atractivas, avaliação transparente, redes de cuidados primários fortes, hospitais com autonomia responsável e uma relação inteligente com o sector social e privado, sem dogmas e sem negociatas.
O objectivo não deve ser salvar uma sigla. Deve ser salvar pessoas.
Um Portugal com futuro mede tempos de espera, resultados clínicos, satisfação dos utentes, eficiência dos recursos, qualidade da gestão e capacidade de resposta. E depois age.
Sim, “age”. Palavra exótica no vocabulário nacional, mas não intraduzível.
Economia de valor, não de desconto
Portugal não terá futuro se continuar a vender-se como país barato.
Barato para turistas.
Barato para investidores imobiliários.
Barato para serviços de baixo valor.
Barato para salários comprimidos.
Barato para vidas caras.
Um país barato pode parecer competitivo durante algum tempo, mas acaba por empobrecer quem nele vive. O preço baixo torna-se destino. Os salários ficam baixos, as empresas investem pouco, a produtividade cresce devagar, os jovens partem e o Estado fica preso entre receitas insuficientes e despesas crescentes.
Um Portugal com futuro precisa de escolher sectores de valor: tecnologia, inteligência artificial, semicondutores de nicho, cibersegurança, biotecnologia, saúde digital, energias limpas, mar, robótica, agroindústria avançada, indústria de precisão, software, defesa tecnológica, materiais, dados, cultura exportável, turismo de qualidade e não apenas quantidade.
Precisa de capitalizar empresas.
Precisa de escalar negócios.
Precisa de ligar ciência e indústria.
Precisa de reduzir burocracia.
Precisa de premiar produtividade.
Precisa de pagar melhor.
Precisa de atrair talento sem expulsar o talento nacional.
Precisa de deixar de confundir emprego com precariedade mascarada.
Não há salários europeus com modelos económicos paroquiais.
Não há futuro sofisticado com gestão de mercearia cansada.
O Estado como plataforma de confiança
Um Portugal com futuro precisa de um Estado diferente.
Não necessariamente maior. Não necessariamente menor. Melhor.
Um Estado que saiba proteger os vulneráveis, regular os poderosos, servir o cidadão, simplificar a vida económica, garantir justiça em tempo útil e criar confiança.
O Estado deve deixar de pedir ao cidadão documentos que o próprio Estado já tem. Deve deixar de transformar cada processo numa expedição arqueológica. Deve deixar de confundir digitalização com a simples passagem da papelada para portais que parecem desenhados por alguém que odeia humanos.
A administração pública deve funcionar como uma plataforma de confiança, não como uma muralha medieval com password expirada.
Um serviço público decente responde.
Um serviço público moderno comunica.
Um serviço público inteligente cruza dados com respeito pela privacidade.
Um serviço público responsável mede desempenho.
Um serviço público adulto corrige erros.
Um serviço público digno pede desculpa quando falha.
Este último ponto parece singelo. Em Portugal seria quase uma revolução constitucional.
Liderança com consequências
O centro de tudo é a liderança.
Portugal não precisa apenas de boas ideias. Já teve muitas. Precisa de lideranças que as executem.
Liderar não é aparecer.
Liderar não é ocupar.
Liderar não é distribuir lugares.
Liderar não é repetir fórmulas.
Liderar não é agradar a todos.
Liderar não é sobreviver ao noticiário.
Liderar é escolher.
É assumir custos.
É proteger os bons.
É afastar os maus.
É dizer não.
É medir resultados.
É corrigir rapidamente.
É prestar contas.
É deixar obra.
Um Portugal com futuro tem de aceitar uma regra simples: quem lidera sem resultados não pode continuar a liderar.
Isto vale para a política. Vale para as empresas. Vale para as universidades. Vale para a administração pública. Vale para as autarquias. Vale para reguladores. Vale para hospitais. Vale para escolas. Vale para fundações. Vale para toda a fauna institucional que vive de mandato em mandato como se o país fosse uma sala de espera.
A liderança tem de ser avaliada por resultados, não por lealdades.
A competência tem de ser promovida, não tolerada como excentricidade.
A incompetência tem de sair, não ser recolocada com novo cartão de visita.
O futuro como decisão moral
O futuro de Portugal não é apenas uma questão económica. É uma questão moral.
É moral decidir se os jovens têm direito a viver no país onde nasceram.
É moral decidir se os idosos merecem mais do que sobrevivência contabilística.
É moral decidir se os doentes devem esperar eternamente por respostas.
É moral decidir se os professores são construtores de futuro ou funcionários exaustos de uma burocracia sem alma.
É moral decidir se o interior é território nacional ou cenário para discursos de ocasião.
É moral decidir se o dinheiro público é sagrado ou apenas combustível para clientelas.
É moral decidir se a competência manda ou se continua a pedir licença.
Portugal com futuro começa quando o país deixa de considerar normal aquilo que é intolerável.
Normalizar maus serviços é decadência.
Normalizar baixos salários é resignação.
Normalizar listas de espera é crueldade.
Normalizar emigração qualificada é derrota.
Normalizar burocracia absurda é estupidez institucional.
Normalizar incompetência é suicídio lento.
E Portugal já suicidou oportunidades suficientes.
A esperança que trabalha
Mas esta crónica não é um funeral.
É um aviso.
Portugal ainda tem tempo, embora menos do que imagina. Ainda tem talento, embora o trate demasiadas vezes como incómodo. Ainda tem recursos, embora os use com uma generosidade criminosa para a mediocridade. Ainda tem gente séria, embora a obrigue a remar contra marés de papel, medo e compadrio.
Um Portugal com futuro não será perfeito. Nenhum país é. A perfeição é uma patologia de visionários perigosos e consultores com honorários altos.
Mas pode ser sério.
Pode ser exigente.
Pode ser justo.
Pode ser competente.
Pode ser moderno.
Pode ser livre da velha obsessão do “não vale a pena”.
Pode finalmente entender que esperança não é esperar. Esperança é trabalhar com direcção.
A esperança passiva é anestesia.
A esperança activa é construção.
E Portugal precisa de construção.
Conclusão: a única estrada
A estrada é estreita, mas é clara.
Retirar poder a quem falha.
Promover quem entrega resultados.
Medir o que se faz.
Responsabilizar quem decide.
Valorizar talento.
Simplificar o Estado.
Pagar melhor com produtividade real.
Ligar conhecimento à economia.
Tratar serviços públicos como compromissos com pessoas, não como slogans.
Fazer da competência uma regra e não uma sorte.
Esse é o Portugal com futuro.
Não o Portugal das promessas eternas, dos planos reciclados, das reformas adiadas, das desculpas elegantes e dos cargos distribuídos como doces em festa de freguesia.
O Portugal com futuro será aquele que tiver coragem de dizer: acabou.
Acabou a carreira da incompetência.
Acabou o prémio ao falhanço.
Acabou a promoção por proximidade.
Acabou o cargo sem prestação de contas.
Acabou a gestão por aparência.
Acabou a paciência com a mediocridade.
O futuro não será oferecido a Portugal. Terá de ser conquistado.
E só será conquistado quando o país perceber que a verdadeira revolução não é gritar mais alto.
É fazer melhor.
Todos os dias.
Com resultados.
Com decência.
Com coragem.
Com gente competente nos lugares onde o destino de todos se decide.
Porque Portugal não precisa de mais encantadores de promessas. Precisa de construtores de futuro.
Nota Editorial
Esta crónica não nasce de pessimismo, mas de exigência. Portugal não está condenado à mediocridade. Está, isso sim, condicionado por uma cultura política, administrativa e empresarial que demasiadas vezes protege quem falha e marginaliza quem exige resultados.
Um país com futuro não se constrói apenas com recursos, fundos europeus, boas intenções ou discursos sobre inovação. Constrói-se com liderança responsável, avaliação séria, competência promovida, desperdício combatido e consequências reais para quem não entrega.
A mudança essencial é simples de formular e difícil de executar: retirar poder à incompetência instalada e entregar responsabilidade a quem sabe construir, gerir, reformar e servir.
Portugal ainda pode ter futuro. Mas esse futuro não nascerá da paciência eterna dos cidadãos. Nascerá da coragem de substituir a cultura do cargo pela cultura da missão.
Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
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