Democracia e Sociedade

As ideologias que transformam a morte em instrumento político e a hunanidade em pó

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BOX DE FACTOS

  • Há ideologias que transformam a morte em instrumento político.
  • O martírio imposto ou fabricado é uma forma de abuso moral e psicológico.
  • Os povos raramente querem guerras eternas; querem vida, paz, trabalho e futuro.
  • Quando uma causa precisa de cadáveres inocentes para se justificar, perdeu a sua humanidade.

A Indústria do Martírio

Há ideologias que não nascem para melhorar a vida dos homens. Nascem para administrar a morte.

Há ideologias que semeiam o ódio e a morte, com a máscara de libertadores dos povos.

Vestem-se de bandeiras, de livros sagrados, de palavras antigas, de feridas reais e de humilhações históricas. Mas, por baixo do manto solene, há quase sempre a mesma maquinaria obscura: transformar seres humanos em combustível moral para uma causa que já deixou de ser humana.

Chamam-lhe resistência. Chamam-lhe libertação. Chamam-lhe honra. Chamam-lhe fé. Chamam-lhe destino. Chamam-lhe povo.

Mas o povo, quase sempre, está debaixo dos escombros.

O martírio, quando nasce da escolha íntima de alguém perante a opressão, pode ser uma tragédia nobre. Há homens e mulheres que morreram por liberdade, por dignidade, por não aceitarem ajoelhar perante tiranias. Esses não procuravam a morte; aceitavam-na como último preço da consciência.

Outra coisa, completamente diferente, é a ideologia do martírio organizada como fábrica. A fábrica que convence jovens de que morrer é mais glorioso do que viver. Que ensina crianças a admirar o suicídio antes de conhecerem a beleza de uma biblioteca, de uma praia, de uma conversa livre, de uma profissão, de um amor. Que transforma mães em produtoras de heróis mortos e pais em figurantes de funerais políticos.

Aí já não estamos perante coragem. Estamos perante abuso espiritual, moral e psicológico.

Quando a morte substitui a consciência

Nenhuma causa que precise de cadáveres inocentes para se justificar merece respeito. Nenhuma bandeira fica mais limpa quando é lavada em sangue civil. Nenhuma fé se torna mais verdadeira quando precisa de bombas, túneis, rockets, execuções, ameaças e crianças convertidas em escudos retóricos. Quando uma ideologia precisa que os seus próprios filhos morram para provar que tem razão, talvez seja tempo de suspeitar que não tem razão nenhuma.

Estas ideologias do martírio têm sempre uma característica comum: falam da vida como se a odiassem.

Prometem paraísos futuros, impérios redimidos, vitórias finais, libertações absolutas. Mas, no presente, só sabem oferecer luto. Não constroem escolas livres, constroem arsenais. Não educam cidadãos, treinam devotos. Não libertam consciências, aprisionam-nas numa narrativa única, fechada, imune à dúvida. Não querem pessoas a pensar; querem massas a obedecer.

O fanático nunca ama verdadeiramente o povo que diz defender. Ama a imagem abstracta desse povo. Ama-o como símbolo, como cartaz, como mártir colectivo. Mas despreza o povo real: o homem que quer abrir a sua loja, a mulher que quer paz, o velho que já perdeu filhos suficientes, a criança que só queria brincar sem aprender o som das sirenes.

O povo concreto é sempre incómodo para os grandes sacerdotes da morte. Porque o povo concreto quer coisas demasiado simples: pão, casa, segurança, futuro, escola, trabalho, electricidade, hospitais, riso. Coisas pequenas, burguesas, humanas — portanto insuportáveis para quem vive intoxicado por epopeias de sangue.

A generosidade cobarde com a morte dos outros

O líder fanático é quase sempre generoso com a morte dos outros. Fala em sacrifício, mas raramente sacrifica a própria pele. Fala em honra, mas esconde-se atrás dos corpos alheios. Fala em coragem, mas instala a sua estratégia entre civis. Fala em povo, mas transforma bairros em trincheiras e famílias em estatísticas.

Depois, quando a resposta militar chega, quando a destruição se espalha, quando os inocentes morrem, o mesmo líder aparece diante das câmaras com o rosto severo de quem colhe a tragédia que semeou. E chama a isso prova moral. É uma alquimia demoníaca: primeiro provoca-se o incêndio, depois usa-se a cinza como argumento.

É por isso que estas ideologias são criminosas não apenas pelo que fazem aos inimigos, mas pelo que fazem aos seus próprios povos. Roubam-lhes o direito à normalidade. Roubam-lhes o direito de não querer guerra. Roubam-lhes o direito de discordar. Roubam-lhes a pátria, ocupando-a por dentro com a retórica da salvação.

Nada há de mais perigoso do que um homem convencido de que Deus, a História ou a Pátria lhe passaram uma procuração ilimitada para matar.

A partir desse momento, tudo se torna justificável. A criança morta passa a ser “dano inevitável”. A aldeia destruída passa a ser “sacrifício necessário”. A mãe em lágrimas passa a ser “símbolo da resistência”. O jovem morto passa a ser “mártir”. E os velhos dirigentes continuam vivos, de dedo em riste, a prometer mais uma vitória final, sempre final, eternamente final, enquanto o cemitério cresce.

A linguagem como morgue com flores

A linguagem destas ideologias é uma morgue com flores.

Falam de honra para esconder a crueldade. Falam de fé para esconder a manipulação. Falam de justiça para esconder o ódio. Falam de povo para esconder o domínio. Falam de martírio para esconder o assassínio moral da juventude.

O verdadeiro acto revolucionário, nestas sociedades sequestradas pela morte, talvez seja simplesmente dizer: quero viver.

Quero viver sem ser instrumento de uma potência estrangeira. Quero viver sem que uma milícia decida por mim quando começa a guerra. Quero viver sem que os meus filhos sejam educados para odiar antes de saberem pensar. Quero viver sem que a minha casa seja transformada em argumento militar. Quero viver sem que a minha dor seja usada como cartaz.

Há uma coragem imensa nessa frase simples: quero viver.

Porque as ideologias do martírio odeiam precisamente isso: a vida vulgar, livre, imperfeita, quotidiana. Odeiam o homem que prefere uma oficina a uma trincheira. Odeiam a mulher que prefere uma escola a um funeral. Odeiam o jovem que prefere programar, estudar, amar, viajar, discutir ideias, criar uma empresa, escrever poesia, plantar uma árvore.

O fanatismo sabe que uma pessoa feliz é má matéria-prima para o martírio.

A paz como ameaça aos traficantes de morte

Por isso cultiva a humilhação, alimenta a ferida, impede a reconciliação, sabota a paz. A paz é mortal para os traficantes de martírio. A paz obriga-os a responder por estradas, hospitais, salários, corrupção, educação, liberdade, resultados. A guerra dá-lhes o álibi perfeito. Enquanto houver guerra, nunca têm culpa de nada. A culpa é sempre do inimigo, do estrangeiro, do traidor, do herege, do impuro.

E assim se mantém a grande burla moral: em nome dos mortos, produzem-se mais mortos.

Chega um tempo em que é preciso dizer, sem medo e sem vénias: uma causa que exige a destruição de inocentes deixou de ser causa; é patologia organizada. Uma ideologia que glorifica a morte de jovens é uma forma de vampirismo político. Um movimento que usa o sofrimento do seu próprio povo como munição perdeu o direito de falar em nome desse povo.

A humanidade não precisa de mais mártires fabricados.

Precisa de vivos lúcidos.
Precisa de crianças que não saibam distinguir rockets pelo som.
Precisa de mães que não tenham de escolher entre a pátria e os filhos.
Precisa de povos que possam mandar os profetas armados para o deserto e ficar, simplesmente, em paz.

Epílogo

Porque nenhuma bandeira vale uma criança morta.

Nenhum livro sagrado precisa de explosivos.

Nenhuma pátria se salva transformando os seus filhos em cinza.

Nenhuma causa é justa quando começa por assassinar a humanidade dentro dos próprios homens.

Os povos não querem ser mártires. Querem apenas ser livres.

Fragmentos do Caos
Crónica de Francisco Gonçalves
Com a colaboração editorial de Augustus Veritas

Nota final aos jovens activistas das causas perdidas

Esta crónica é também dirigida aos jovens activistas de causas perdidas que, sentados no conforto do seu bairro livre, no café aquecido onde podem falar sem medo, insultar sem prisão e protestar sem desaparecer durante a noite, romantizam ideologias que, nos lugares onde mandam, lhes retirariam precisamente essa liberdade.

Há uma ingenuidade perigosa — e por vezes uma vaidade moral insuportável — em transformar o fanatismo alheio em estética revolucionária. É fácil aplaudir a “resistência” quando se vive protegido por democracias liberais, universidades abertas, internet livre, tribunais independentes e polícia que não entra em casa de madrugada por causa de uma opinião.

O verdadeiro teste moral não é gritar palavras de ordem num café livre. É perguntar se a causa que se defende permitiria a esse mesmo jovem continuar livre para pensar, discordar, amar, escrever, rir, mudar de ideias e voltar para casa em paz.

Porque há causas que parecem nobres vistas de longe, mas cheiram a sangue quando vistas de perto.

– Francisco Gonçalves

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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