Democracia e Sociedade

O País que Chicoteia o Burro em Vez de Construir Motores

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BOX DE FACTOS

  • Portugal continua preso a uma economia de baixa produtividade, baixos salários e fraca incorporação tecnológica.
  • A OCDE assinala que a produtividade laboral portuguesa permanece cerca de 17% abaixo da média da organização.
  • O Eurostat situa Portugal ainda entre os países 10% a 20% abaixo da média europeia em PIB per capita medido em paridades de poder de compra.
  • A economia portuguesa cresce, mas cresce pouco em valor acrescentado, demasiado apoiada em serviços, turismo, imobiliário, consumo e fundos europeus.
  • O problema português não é falta de trabalho: é falta de estratégia, escala, inovação, capital produtivo, boa gestão e visão tecnológica.

Portugal: O País Pobre que Não Sabe Sair do Beco

Portugal não é pobre por destino, geografia ou maldição bíblica. É pobre porque insiste,
década após década, em organizar a economia como se a modernidade fosse uma ameaça
e a mediocridade uma prudência nacional.

Há países pobres por ausência de recursos, por guerras, por catástrofes, por isolamento
geográfico ou por acidentes brutais da História. Portugal, infelizmente, pertence a uma
categoria mais triste: é um país pobre por organização deficiente, ambição curta,
elites extractivas, Estado lento, empresas pequenas, salários baixos e uma espantosa
capacidade de transformar oportunidades em papel timbrado.

O aviso europeu sobre o desfasamento da produtividade portuguesa não é uma novidade.
É apenas mais um capítulo de um diagnóstico antigo, repetido, confirmado e, como de
costume, cuidadosamente arquivado na gaveta nacional das evidências incómodas.
Portugal trabalha muito, mas produz pouco valor. Tem gente capaz, mas desperdiça talento.
Tem universidades, mas liga mal ciência e economia. Tem empresários honestos e competentes,
mas também demasiada gestão de sobrevivência, pouca escala e uma cultura empresarial
ainda presa ao salário baixo como se fosse estratégia.

O drama português não está na ausência de esforço. Está na pobreza da arquitectura.
Trabalha-se muito, sim. Mas muitas vezes trabalha-se em sectores de baixo valor,
em empresas descapitalizadas, em estruturas familiares mal profissionalizadas,
com pouca tecnologia, pouca inovação, pouca formação contínua e pouca capacidade
de competir pelo conhecimento. É a economia do suor sem motor.

1. O país que confunde crescimento com desenvolvimento

Portugal gosta de celebrar pequenas melhorias conjunturais como se fossem mudanças
estruturais. Cresce mais um ponto percentual, baixa ligeiramente a dívida, melhora
a execução orçamental, aumenta o turismo, sobem as exportações de alguns sectores,
e logo aparece a procissão dos optimistas oficiais a anunciar a chegada do comboio
da prosperidade.

O problema é que crescimento não é desenvolvimento. Uma economia pode crescer e
continuar frágil. Pode exportar mais e continuar pobre. Pode receber milhões de turistas
e continuar incapaz de pagar salários dignos. Pode ter contas públicas momentaneamente
equilibradas e continuar sem resolver a produtividade, a habitação, a justiça, a educação,
a saúde e a soberania tecnológica.

Crescer sobre serviços de baixo valor, turismo intensivo, imobiliário inflacionado,
fundos europeus e consumo interno é uma forma de caminhar — mas não é necessariamente
uma forma de avançar. É possível andar muito dentro de uma roda de hamster. O país
até se mexe. O problema é sair do sítio.

2. A produtividade como espelho cruel

A produtividade é um espelho cruel porque não se impressiona com discursos.
Mede a capacidade de uma economia transformar trabalho, conhecimento, capital,
tecnologia e organização em valor. E nesse espelho Portugal continua a ver uma
imagem desconfortável: trabalha, mas não multiplica suficientemente o valor do trabalho.

Segundo a OCDE, a produtividade laboral portuguesa permanece cerca de 17% abaixo
da média da organização. O mesmo diagnóstico sublinha que uma parte significativa
do emprego empresarial está concentrada em microempresas, muitas vezes com défices
de gestão profissional, fraco investimento tecnológico e pouca capacidade de inovação.

Isto não significa que o trabalhador português seja menos capaz. Essa é a mentira
conveniente que certas elites gostam de murmurar quando pretendem transformar
a vítima em culpada. O trabalhador português é frequentemente competente, adaptável,
resistente e até heroicamente paciente. O problema é que está inserido num sistema
produtivo que, muitas vezes, o coloca a trabalhar com ferramentas pobres, processos
maus, chefias fracas, capital insuficiente e estratégias dignas de uma mercearia
iluminada por uma vela administrativa.

A produtividade não nasce de chicotear trabalhadores. Nasce de máquinas melhores,
software melhor, processos melhores, gestão melhor, formação melhor, ciência aplicada,
justiça económica rápida, financiamento produtivo, dimensão empresarial, redes de
colaboração e capacidade de transformar conhecimento em produtos e serviços de alto valor.

3. A pobreza portuguesa não é apenas estatística: é cultural, institucional e estratégica

A pobreza portuguesa não se mede apenas pelo rendimento disponível, pelo risco de pobreza
ou pelo PIB per capita. Mede-se também pela qualidade das instituições, pela lentidão
da justiça, pela dependência dos fundos europeus, pela fragilidade dos serviços públicos,
pela pequenez estratégica das empresas, pela falta de capital paciente e pela incapacidade
de criar sectores tecnológicos fortes.

É uma pobreza material, mas também mental. Uma pobreza que aparece quando se aceita
que jovens qualificados emigrem como se fosse normal. Uma pobreza que se revela quando
licenciados recebem salários que mal pagam uma renda. Uma pobreza que se instala quando
a habitação se transforma em activo financeiro para poucos e exílio urbano para muitos.

É ainda uma pobreza de visão. Portugal fala muito de inovação, mas raramente constrói
ecossistemas suficientemente robustos para a sustentar. Fala de ciência, mas não consegue
transformar investigação em indústria com escala. Fala de digitalização, mas continua
dependente de plataformas, fornecedores, consultoras e soluções fechadas. Fala de
soberania, mas comporta-se como arrendatário tecnológico do futuro.

4. O Estado: entre a promessa e o pântano

O Estado português é, ao mesmo tempo, indispensável e frequentemente bloqueador.
É indispensável porque nenhum país pobre se transforma sem investimento público
inteligente em educação, saúde, ciência, infra-estruturas, justiça, administração
eficiente e transição tecnológica. Mas é bloqueador quando transforma cada processo
numa via-sacra burocrática, cada autorização num labirinto, cada projecto numa espera
e cada cidadão num requerente diante do balcão.

Um Estado moderno deveria ser uma plataforma de desenvolvimento. Em Portugal, demasiadas
vezes, continua a ser uma máquina de atrito. O país perde anos em licenciamentos,
autorizações, pareceres, regulamentos contraditórios, sistemas informáticos mal integrados
e organismos que parecem existir para provar que Kafka era um optimista.

Não há produtividade que sobreviva a uma administração pública lenta, a uma justiça
imprevisível e a uma regulação que frequentemente penaliza quem quer fazer bem e
protege quem sabe navegar o pântano. A burocracia é um imposto invisível sobre o futuro.
Em Portugal, esse imposto é pesado, regressivo e profundamente anti-inovação.

5. A armadilha dos baixos salários

Durante décadas, Portugal habituou-se a competir pelo custo. Salários baixos,
flexibilidade informal, fraca exigência tecnológica e sectores intensivos em mão-de-obra
foram tratados como uma espécie de vantagem competitiva. Mas uma vantagem competitiva
baseada em pobreza salarial é uma derrota disfarçada de prudência.

Quando os salários são baixos durante demasiado tempo, o país perde ambição produtiva.
As empresas adiam investimento, porque a mão-de-obra barata parece resolver tudo.
Os trabalhadores emigram, porque o talento procura oxigénio. A formação perde retorno.
A natalidade cai. A habitação torna-se sufocante. A sociedade envelhece. E, lentamente,
instala-se uma resignação venenosa: a ideia de que viver com pouco é uma fatalidade nacional.

Mas não é fatalidade. É modelo económico. E modelos económicos podem ser mudados.
O problema é que mudar este modelo exige coragem, inteligência e conflito com interesses
instalados. Exige abandonar a economia da extracção fácil: rendas, monopólios, imobiliário,
turismo massificado, contratos protegidos, consultoria circular e fundos europeus tratados
como rega automática sobre campos pouco férteis.

6. O falso remédio: atacar trabalhadores em nome da produtividade

Sempre que se fala de produtividade em Portugal, há uma tentação recorrente: olhar para
o trabalhador como problema principal. Então aparecem propostas para facilitar despedimentos,
flexibilizar horários, reduzir direitos, aumentar disponibilidade, baratear trabalho e
chamar a isso modernização.

É uma receita velha, pobre e intelectualmente preguiçosa. A produtividade não se resolve
tornando a vida do trabalhador mais insegura. Resolve-se dando-lhe melhores instrumentos,
melhor organização, melhor formação, melhor tecnologia, melhor gestão e empresas capazes
de vender produtos e serviços de maior valor.

Um país que responde à baixa produtividade com precariedade está apenas a confessar que
não sabe pensar. É como tentar curar anemia retirando mais sangue ao doente. Pode produzir
obediência temporária, mas não produz prosperidade sustentada.

7. O beco sem saída: elites pequenas para problemas grandes

Portugal vive num beco porque as suas elites políticas, económicas e administrativas
têm sido pequenas para o tamanho dos problemas. Pequenas na imaginação, pequenas na coragem,
pequenas na visão estratégica. Gerem o país por ciclos eleitorais, fundos comunitários,
anúncios, pactos de ocasião e fotografias de inauguração.

Falta pensamento de longo prazo. Falta uma política industrial séria. Falta soberania
tecnológica. Falta capacidade de criar cadeias de valor nacionais em áreas críticas:
inteligência artificial, software aberto, cibersegurança, semicondutores especializados,
energia, biotecnologia, robótica, saúde digital, agricultura inteligente, defesa tecnológica
e indústria de precisão.

Em vez disso, Portugal especializou-se em discutir reformas como quem muda cortinas numa
casa com fundações podres. Troca-se o ministro, muda-se o programa, renomeia-se o plano,
cria-se uma comissão, anuncia-se uma agenda, abre-se uma plataforma, encomenda-se um estudo
e, no fim, o cidadão continua pobre, a empresa continua pequena e o jovem continua a olhar
para o aeroporto como porta de saída.

8. O caminho que quase nunca se escolhe

Portugal não está condenado. Mas está encurralado enquanto insistir nas mesmas receitas.
Sair do beco exige uma estratégia clara e dura: aumentar produtividade pela tecnologia,
pela ciência aplicada, pela formação ao longo da vida, pela reindustrialização inteligente,
pela colaboração entre empresas, universidades e Estado, e pela criação de bens públicos
digitais abertos.

O país precisa de apostar em software, dados, automação, inteligência artificial,
sistemas industriais, redes de colaboração e open-source como instrumentos de soberania.
Precisa de transformar a administração pública numa infra-estrutura digital eficiente,
aberta e auditável. Precisa de apoiar pequenas empresas, sim, mas também de as ajudar
a ganhar escala, gestão, capital, processos e capacidade exportadora.

Precisa ainda de tratar a educação como investimento estratégico e não como despesa
contabilística. A formação profissional deve deixar de ser depósito de estatísticas
e passar a ser fábrica real de competências. A aprendizagem ao longo da vida deve ser
central numa sociedade envelhecida, tecnológica e em mutação permanente.

Sobretudo, Portugal precisa de substituir a cultura da dependência pela cultura da criação.
Menos rendas. Mais produto. Menos licenças eternas. Mais execução. Menos turismo como
destino único. Mais tecnologia. Menos submissão a monopólios. Mais ecossistemas abertos.
Menos política de palco. Mais arquitectura de futuro.

Conclusão: a pobreza como escolha repetida

Portugal é pobre não porque lhe falte inteligência, mas porque a distribui mal,
a aproveita mal e muitas vezes a expulsa. É pobre porque confunde prudência com medo,
estabilidade com imobilismo, turismo com desenvolvimento, baixos salários com competitividade,
burocracia com rigor e fundos europeus com estratégia.

O beco sem saída não é geográfico. É mental e institucional. Está na forma como o país
pensa pequeno, organiza mal, decide tarde e protege demasiadas vezes quem extrai em vez
de premiar quem cria. Está numa cultura que tolera a mediocridade desde que ela tenha
carimbo, cargo, gravata e orçamento.

Mas nenhum beco é eterno se houver coragem para partir paredes. Portugal ainda pode ser
outra coisa: um país de tecnologia aberta, indústria inteligente, ciência aplicada,
colaboração em rede, empresas melhores, Estado mais simples e cidadãos menos resignados.

A pergunta é se terá coragem para deixar de gerir a pobreza com cerimónia e começar,
finalmente, a construir riqueza com inteligência.

Porque um país que trabalha muito e continua pobre não precisa de mais sermões sobre esforço.
Precisa de uma revolução silenciosa na forma como produz valor. Precisa de deixar de chicotear
a carroça e aprender, de uma vez por todas, a construir motores.

Texto:

Francisco Gonçalves

Com a co-autoria Editorial de Augustus Veritas.

Uma reflexão crítica sobre produtividade, pobreza estrutural, elites pequenas e a necessidade de uma estratégia tecnológica para Portugal.

Nota Editorial

Quando aqui se fala no “país do burro”, não se pretende insultar o povo português.
Pelo contrário. A metáfora é cruel precisamente porque aponta para o absurdo de um país onde
há talento, esforço, inteligência, resistência e gente séria, mas onde o sistema continua a pôr
pessoas capazes a puxar carroças velhas, com rodas tortas, estradas esburacadas e cocheiros
convencidos de que conduzem locomotivas.

O problema português não está na falta de trabalhadores, nem na ausência de sacrifício.
Está numa arquitectura económica, política e institucional que, demasiadas vezes, recompensa
a esperteza curta, a renda fácil, o cargo obediente, a mediocridade bem vestida e a burocracia
transformada em religião oficial.

Um país que trata a tecnologia como acessório, a ciência como despesa, a inovação como ornamento,
os trabalhadores qualificados como custo e as empresas criadoras como excepção acaba, inevitavelmente,
preso ao mesmo beco: muito esforço, pouco valor; muita retórica, pouca execução; muitos diagnósticos,
pouca coragem.

Portugal não é pobre por falta de burros de carga; é pobre por excesso de carroceiros sem visão.

– Francisco Gonçalves

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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