Democracia e Sociedade

A Epopeia do Mal no Século XXI: Quando o Fanatismo Transforma a Violência em Virtude

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BOX DE FACTOS

  • A crítica aqui dirigida ao Irão refere-se ao regime teocrático e repressivo, não ao povo iraniano nem à civilização persa.
  • Organizações internacionais têm denunciado detenções arbitrárias, processos injustos, repressão de mulheres, dissidentes e minorias, e uso intenso da pena de morte no Irão.
  • O Irão tem apoiado, ao longo de décadas, uma rede regional de grupos armados, incluindo Hezbollah, Hamas, Houthis e milícias no Iraque e na Síria.
  • O fanatismo político-religioso torna-se especialmente perigoso quando transforma violência em dever moral, martírio em instrumento político e terror em linguagem de Estado.
  • A complacência ocidental perante estes regimes revela uma falência moral: exige perfeição às democracias e oferece contexto infinito às tiranias.

A Epopeia do Mal no Século XXI: Quando o Fanatismo Transforma a Violência em Virtude

O mal moderno raramente se apresenta de rosto descoberto. Vem vestido de doutrina, de causa, de resistência, de fé política, de pureza histórica. Traz comunicados, mártires, slogans e comentadores prontos a explicar que a barbárie, afinal, tem contexto.

Há qualquer coisa de profundamente assustador nos regimes que transformam a violência em virtude. Não falo da violência acidental, da violência que surge no colapso das instituições, da violência que uma sociedade tenta conter como quem segura uma barragem fissurada. Falo de outra coisa: da violência organizada, ritualizada, justificada, ensinada, exportada, benzida por palavras sagradas e administrada por burocratas do fanatismo.

O século XXI prometeu-nos redes globais, ciência, inteligência artificial, medicina avançada, exploração espacial e uma humanidade mais consciente da sua fragilidade comum. Mas, por baixo da superfície luminosa dos ecrãs, continuam vivos os velhos monstros: a tirania, o culto da morte, o esmagamento da mulher, a perseguição do dissidente, o ódio ao outro, a conversão da política numa teologia armada.

É aqui que regimes como o iraniano se tornam particularmente perturbadores. Não pelo povo iraniano, que é herdeiro de uma civilização antiga, sofisticada, poética e culturalmente riquíssima. Não pela Pérsia de Hafez, de Rumi, de Avicena, de jardins, matemática, astronomia, filosofia e beleza. O que assusta é outra coisa: a máquina político-religiosa que sequestrou esse povo e fez da repressão uma forma de governo, da intimidação uma pedagogia e da violência externa uma extensão da sua própria sobrevivência interna.

Quando o adversário deixa de ser humano

A fronteira mais perigosa da política é aquela em que o adversário deixa de ser adversário e passa a ser impuro, herege, inimigo de Deus, agente do mal, corpo descartável. A partir daí, já não se debate. Purifica-se. Já não se governa. Castiga-se. Já não se procura convencer. Procura-se esmagar.

O fanatismo religioso-político tem esta capacidade terrível: rouba humanidade à vítima antes de lhe roubar a vida. Primeiro muda-lhe o nome. Depois muda-lhe a natureza. Depois muda-lhe o destino. O outro deixa de ser pessoa e passa a ser obstáculo. E contra obstáculos, ensinam os engenheiros da crueldade, não há diálogo: há demolição.

É por isso que o terror praticado em nome de uma causa absoluta é mais perigoso do que a violência comum. Porque a violência comum ainda pode reconhecer a culpa. O fanatismo, pelo contrário, chama virtude ao crime. Chama martírio ao suicídio assassino. Chama resistência ao sequestro. Chama justiça à vingança. Chama fé à submissão. Chama moral à barbárie.

A fábrica teocrática do medo

No interior destes regimes, o medo não é um acidente: é uma infraestrutura. Está nas prisões, nos tribunais, nos serviços secretos, nas polícias morais, nos códigos de vestuário, nas confissões forçadas, nas câmaras de interrogatório, nas sentenças exemplares, nas execuções públicas ou discretas. O medo é a electricidade invisível que mantém a máquina ligada.

As mulheres tornam-se fronteira política. O cabelo torna-se campo de batalha. A canção torna-se ameaça. A dança torna-se crime. A palavra torna-se prova. A dúvida torna-se traição. O corpo feminino é vigiado como se dele dependesse a estabilidade do universo. E talvez dependa mesmo: não a estabilidade do universo, mas a estabilidade frágil dos homens que só conseguem governar quando controlam o corpo, a voz e a liberdade dos outros.

Um regime verdadeiramente seguro não tem medo de uma mulher sem véu, de um estudante numa praça, de um jornalista, de um poeta, de uma rapariga a cantar, de uma mãe a exigir justiça pelo filho morto. Quando um Estado treme perante estes gestos, não estamos perante força: estamos perante pânico institucional armado até aos dentes.

A exportação do incêndio

O fanatismo interno raramente fica fechado dentro das fronteiras. Precisa de inimigos externos para justificar a repressão interna. Precisa de uma guerra permanente, real ou simbólica, para manter o povo mobilizado, cansado, assustado e obediente. A tirania alimenta-se de cerco. Quando o cerco não existe, inventa-o. Quando existe, amplia-o. Quando convém, exporta-o.

O chamado “eixo de resistência” é precisamente essa arquitectura regional de influência, pressão e violência por procuração. Hezbollah no Líbano, Hamas e Jihad Islâmica Palestiniana em Gaza, Houthis no Iémen, milícias no Iraque e na Síria: uma constelação de forças armadas que permite ao regime iraniano projectar poder, incendiar vizinhanças, negar responsabilidades e apresentar-se depois como defensor dos oprimidos.

É uma estratégia velha como a perfídia: pôr outros a morrer, outros a disparar, outros a pagar o preço, enquanto o centro político mantém as mãos relativamente afastadas da chama. O regime acende fósforos com luvas. Depois aparece junto às ruínas a falar de justiça histórica.

O martírio como tecnologia política

O século XXI trouxe drones, mísseis, ciberataques, satélites, redes sociais e propaganda digital. Mas o fanatismo trouxe consigo uma tecnologia ainda mais antiga e mais difícil de neutralizar: a sacralização da morte.

Quando uma ideologia convence jovens de que morrer é vitória, matar é serviço, obedecer é pureza e odiar é fidelidade, estamos perante uma engenharia moral de destruição. Não é apenas guerra. É programação da alma. É malware espiritual instalado em sociedades inteiras, capaz de transformar sofrimento em combustível e cadáveres em argumento.

Esta é a verdadeira epopeia do mal contemporâneo: não a violência bruta de um momento, mas a criação de sistemas que dão sentido à crueldade. O mal torna-se narrativo. Passa a ter épica, hinos, mártires, vídeos, bandeiras, dias comemorativos, slogans, universidades cúmplices, comentadores complacentes e académicos de sofá prontos a descobrir profundidade sociológica onde há apenas a velha sedução do abismo.

A cumplicidade elegante do Ocidente confortável

O mais desconcertante é que parte do Ocidente, que deveria conhecer bem os sinais da tirania, se tornou perito em desculpá-la quando ela veste as cores ideológicas certas. Se uma democracia falha, exige-se-lhe pureza angelical. Se uma teocracia enforca opositores, esmaga mulheres, persegue minorias e financia grupos armados, oferecem-lhe contexto, notas de rodapé e uma cadeira confortável num seminário sobre pós-colonialismo.

É uma inversão moral grotesca. O Ocidente confortável, sentado nos seus cafés com Wi-Fi, aprendeu a admirar a violência distante desde que ela seja apresentada como resistência. Gosta de causas com estética revolucionária, mesmo quando por trás delas há prisões, véus obrigatórios, execuções, censura, culto da morte e ódio organizado.

A pergunta que se impõe é simples: que espécie de humanismo é este que relativiza regimes que esmagam seres humanos concretos em nome de abstracções sagradas? Que espécie de pensamento crítico é este que critica ferozmente as democracias, mas se torna macio, quase maternal, perante tiranias que fariam calar esses mesmos críticos em vinte e quatro horas?

Talvez seja apenas cobardia com vocabulário sofisticado. Talvez seja tribalismo ideológico com verniz académico. Talvez seja aquela velha doença dos salões: confundir ódio ao Ocidente com amor à justiça.

A religião sequestrada pela política

Nenhuma religião deve ser confundida automaticamente com os seus fanáticos. O problema não é a fé em si. O problema é a fé capturada pelo poder, armada pelo Estado, transformada em polícia, tribunal, milícia e máquina de propaganda. Quando Deus é usado como carimbo administrativo da violência, os homens deixam de responder pelos seus actos. Passam a dizer que apenas executam uma vontade superior.

É nessa passagem que mora o perigo. O tirano secular pode ser acusado de abuso. O fanático teocrático responde que cumpre uma missão. O primeiro ainda pode ser julgado por leis humanas. O segundo tenta esconder-se atrás do absoluto. E onde há absoluto político, raramente há misericórdia.

A civilização começa precisamente onde o poder deixa de poder invocar o céu para esmagar a terra. Começa quando o Estado já não pode decidir como uma mulher se veste, como um poeta escreve, como um jovem pensa, como uma minoria reza, como um cidadão duvida. Começa quando o humano volta a ser maior do que a doutrina.

A tragédia do povo iraniano

O povo iraniano é talvez uma das primeiras vítimas desta epopeia sombria. Há décadas que vive entre grandeza histórica e clausura política, entre memória civilizacional e repressão quotidiana, entre juventude cosmopolita e velhos guardiões da pureza, entre desejo de liberdade e medo de desaparecimento.

Nas ruas do Irão, muitas mulheres e homens já disseram ao mundo, com risco real para a própria vida, que não querem ser figurantes numa peça escrita por ayatollahs, polícias morais e tribunais revolucionários. Disseram-no com cabelos soltos, com cânticos, com silêncio, com lágrimas, com cartazes, com corpos expostos à violência do Estado. Muitos pagaram caro. Alguns pagaram tudo.

Por isso, criticar o regime iraniano não é atacar o Irão profundo. É, pelo contrário, recusar que uma civilização inteira seja reduzida ao seu carcereiro. É afirmar que há mais Irão nos jovens que querem viver do que nos velhos que mandam morrer.

A moral que selecciona os opressores aceitáveis

Há uma frase que deveria incomodar muita gente: alguns não estão verdadeiramente contra a opressão; estão apenas contra os opressores errados. Quando a opressão vem de regimes que cabem na sua narrativa ideológica, tornam-se prudentes, compreensivos, históricos, complexos. Quando vem de democracias ocidentais ou seus aliados, tornam-se implacáveis.

Esta selectividade não é inteligência. É falência ética. A mulher iraniana reprimida não vale menos do que qualquer outra mulher. O dissidente enforcado não vale menos do que qualquer outro perseguido. O israelita ameaçado por rockets não vale menos do que qualquer outro civil. O palestiniano usado como escudo ou abandonado entre ruínas não vale menos do que qualquer outro inocente. O ucraniano bombardeado não vale menos do que qualquer outra vítima da guerra.

A humanidade não é um buffet ideológico onde cada um escolhe as dores que confirmam a sua tribo.

Conclusão: reconhecer o mal sem perder a humanidade

Chamar mal ao mal não significa abandonar a razão. Pelo contrário: significa recusarmo-nos a anestesiar a razão com palavras bonitas. Há regimes, movimentos e ideologias que fazem da violência uma linguagem, da morte uma pedagogia e do terror uma política. Negá-lo é colaborar com a mentira.

Mas reconhecer o mal não deve levar-nos a odiar povos inteiros, religiões inteiras ou culturas inteiras. Essa seria a vitória final do fanatismo: obrigar-nos a pensar como ele pensa, por blocos, por essências, por condenações colectivas. A crítica justa separa o povo do regime, a fé do fanatismo, a cultura da máquina repressiva, a causa legítima da barbárie que a sequestra.

O século XXI será julgado não apenas pelas suas invenções, mas pela sua coragem moral. Saberemos distinguir vítimas de carrascos? Saberemos defender a liberdade mesmo quando isso incomoda a nossa tribo? Saberemos olhar para uma teocracia violenta e dizer, sem rodeios, que nenhuma causa justifica trituradores humanos, polícias morais, execuções políticas, milícias fanatizadas e crianças transformadas em combustível simbólico?

A civilização não morre apenas quando os bárbaros entram pelas portas. Morre também quando os civilizados começam a explicar a barbárie com excesso de simpatia, como se a lâmina fosse menos lâmina por vir embrulhada numa bandeira, numa oração ou numa tese universitária.

E talvez seja essa a grande batalha do nosso tempo: salvar a compaixão da propaganda, salvar a fé dos fanáticos, salvar a política dos carrascos e salvar a lucidez dos cafés confortáveis onde se comenta o horror com espuma de cappuccino nos lábios.

Referências internacionais

  1. Amnesty International — “Iran: Mass arbitrary arrests and political executions mark intensifying repression” —
    relatório sobre repressão, detenções arbitrárias e execuções políticas no Irão.
  2. Reuters — “What is Iran’s ‘Axis of Resistance’?” —
    análise sobre Hezbollah, Hamas, Houthis e outras forças apoiadas pelo Irão.
  3. OHCHR — “Iran: UN expert warns of escalating repression and record executions” —
    alerta de relatora da ONU sobre repressão e execuções no Irão.
  4. Amnesty International — “Iran: Authorities target women’s rights activists with arbitrary arrest, flogging and death penalty” —
    relatório sobre perseguição a activistas dos direitos das mulheres.
  5. U.S. Department of State — “State Sponsors of Terrorism” —
    lista oficial norte-americana de Estados patrocinadores do terrorismo.
  6. Reuters — “Iranian and Hezbollah commanders help direct Houthi attacks in Yemen, sources say” —
    investigação sobre ligação operacional entre Irão, Hezbollah e Houthis.

Crónica escrita por Francisco Gonçalves

Com coautoria editorial de Augustus Veritas, entre a lucidez crítica, a inquietação cívica e a recusa de confundir compaixão com cegueira moral.

As convicções em segunda mão

O grande problema do nosso tempo talvez não seja a falta de opinião. Pelo contrário: há opinião a mais, espalhada por todo o lado como poeira luminosa nos ecrãs. O que falta é pensamento. Pensamento próprio, lento, inquieto, desconfiado de si mesmo, capaz de atravessar a dúvida antes de chegar a uma conclusão.

Muitas convicções modernas não nascem da reflexão individual, mas do empréstimo tribal. São herdadas de grupos, comentadores, redes sociais, professores militantes, bolhas ideológicas, jornais de estimação e círculos onde todos repetem, com variações mínimas, a mesma música mental. A pessoa julga possuir uma ideia, quando afinal foi a ideia que a possuiu.

A opinião em segunda mão tem uma vantagem irresistível: poupa esforço. Vem já com vocabulário, indignações autorizadas, inimigos oficiais e absolvições convenientes. Não exige estudo sério, confronto com factos incómodos ou solidão intelectual. Basta pertencer. Basta repetir. Basta levantar a bandeira certa no momento certo.

O pensamento próprio, pelo contrário, é uma actividade perigosa. Pode afastar-nos da tribo. Pode obrigar-nos a discordar dos nossos. Pode revelar que o mundo é mais complexo do que o slogan. Pode, horror supremo, obrigar-nos a reconhecer alguma razão no adversário e alguma mentira no nosso próprio campo.

Por isso há tanta gente cheia de certezas e tão pouca gente verdadeiramente livre. A certeza herdada dá conforto; a dúvida conquistada dá liberdade. E a liberdade intelectual, como todas as liberdades, tem um preço: pensar sem pedir autorização à claque.

– Francisco Gonçalves

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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