A Hipocrisia Confortável do Ocidente Perante Israel, o Irão e os Seus Incendiários por Procuração
BOX DE FACTOS
- O Hamas mantém, no seu documento político de 2017, a rejeição da legitimidade do Estado de Israel.
- O regime iraniano e a sua liderança têm usado linguagem política e religiosa que aponta para o desaparecimento do chamado “regime sionista”.
- O Irão construiu, ao longo de décadas, uma rede regional de aliados e organizações armadas, incluindo Hezbollah, Hamas, Houthis e milícias iraquianas.
- A União Europeia reconhece formalmente o direito de Israel se defender, mas condiciona esse direito ao cumprimento do direito internacional humanitário.
- A crítica humanitária a Israel em Gaza pode ser legítima; torna-se hipócrita quando silencia ou relativiza o projecto político de quem nega a existência de Israel.
A Hipocrisia Confortável do Ocidente Perante Israel, o Irão e os Seus Incendiários por Procuração
Há uma hipocrisia funda, quase perfumada, no modo como parte do Ocidente olha para Israel. Não falo aqui da crítica legítima às acções de qualquer governo israelita, nem da obrigação moral de lamentar e denunciar a morte de civis palestinianos. Essa obrigação existe. Toda a vida inocente esmagada pela guerra pesa sobre a consciência humana. Uma criança morta em Gaza não é uma estatística; é uma pequena eternidade interrompida.
Mas há uma diferença abissal entre criticar excessos militares, decisões políticas, bloqueios, operações mal conduzidas ou tragédias humanitárias, e fingir que Israel vive num bairro pacífico da Suíça, rodeado de vizinhos com flores nas varandas e assembleias de condomínio civilizadas. Israel vive numa região onde há regimes e organizações que não se limitam a discordar da sua política: recusam-lhe o direito de existir.
A palavra que o Ocidente evita: existência
O centro moral desta questão está numa palavra simples: existência. Israel não enfrenta apenas críticas diplomáticas, resoluções internacionais ou protestos de rua. Enfrenta também organizações armadas e regimes que transformaram a negação da sua existência numa doutrina, numa liturgia e numa estratégia.
O Hamas, no seu documento político de 2017, continua a rejeitar a legitimidade daquilo a que chama “entidade sionista” e afirma não aceitar alternativa à libertação completa da Palestina “do rio ao mar”. O regime iraniano, por seu lado, tem uma longa tradição de linguagem política contra o chamado “regime sionista”, frequentemente apresentada como profecia, dever revolucionário ou destino histórico.
Ora, nenhum Estado democrático pode ouvir durante décadas que deve desaparecer e, depois, quando responde à ameaça, ser tratado como se tivesse inventado sozinho o conflito. Isto não absolve Israel de erros, abusos ou excessos. Mas coloca a discussão no chão real da história, não no tapete fofo dos salões europeus.
O Irão descobriu a arte confortável da guerra por procuração
O Irão joga um jogo antigo com instrumentos modernos: financia, arma, inspira, orienta, nega, recua, reaparece. Não precisa de estar sempre no campo de batalha. Para isso existem os seus braços regionais: Hezbollah no Líbano, Hamas e Jihad Islâmica Palestiniana em Gaza, Houthis no Iémen, milícias no Iraque e na Síria.
É uma arquitectura de incêndio com seguro diplomático. Quando o fogo alastra, Teerão fala em resistência. Quando os mortos se acumulam, invoca a causa palestiniana. Quando os navios são atacados no Mar Vermelho, diz-se que é solidariedade. Quando Israel responde, o palco ocidental acende os projectores apenas sobre a resposta, não sobre a rede que preparou a combustão.
Eis a genialidade sombria da guerra por procuração: o incendiário raramente aparece com o fósforo na mão. Surge antes como comentador indignado junto às cinzas.
A Europa dos cafés, das universidades e das consciências selectivas
A Europa, confortável nas suas avenidas iluminadas, tornou-se especialista em indignação selectiva. Condena o Hamas, sim. Reconhece o direito de Israel se defender, sim. Fala em reféns, civis, corredores humanitários e direito internacional, sim. Nos documentos oficiais, a linguagem existe. O problema é o tom moral do espaço público, das televisões, das universidades, dos palcos culturais e das elites que gostam de parecer virtuosas sem pagar o preço da virtude.
Quando Israel é atacado, há condenação formal. Quando Israel responde, há condenação emocional. Quando o Hamas se esconde entre civis, a frase é sussurrada. Quando Israel bombardeia, a imagem é gritada. Quando o Irão arma os seus aliados, fala-se de geopolítica. Quando Israel mata civis, fala-se de barbárie. A vida civil palestiniana merece defesa absoluta; mas a honestidade exige perguntar por que motivo ela é tantas vezes instrumentalizada pelos mesmos que a dizem defender.
A hipocrisia ocidental não está em exigir limites a Israel. Está em exigir limites apenas a Israel, ou quase sempre a Israel, enquanto se trata o fanatismo armado como se fosse uma espécie de folclore anti-imperialista com turbante, foguetes e comunicados.
A tragédia palestiniana também é refém desta mentira
Importa dizê-lo com clareza: os palestinianos são também vítimas desta arquitectura de cinismo. São vítimas da ocupação, da guerra, da miséria, da corrupção política, da incompetência das lideranças, da instrumentalização regional e da crueldade de organizações que transformam bairros, escolas, túneis e hospitais em peças de xadrez.
Defender Israel contra a negação da sua existência não implica negar o sofrimento palestiniano. Pelo contrário: uma paz séria exigiria duas verdades ditas ao mesmo tempo. Israel tem direito a existir e a defender-se. Os palestinianos têm direito a viver com dignidade, segurança e autodeterminação. O Hamas deve ser desarmado e responsabilizado. Israel deve respeitar o direito humanitário e responder por abusos. O Irão deve deixar de exportar fogo. A Europa deve deixar de exportar sermões ocos.
Mas o mundo moderno detesta frases inteiras. Prefere slogans. Um slogan cabe num cartaz, numa rede social e numa consciência preguiçosa. A verdade, essa velha inconveniente, exige mais espaço.
O pacifismo que não enfrenta os assassinos é apenas decoração moral
Há um pacifismo nobre, corajoso, necessário. E há um pacifismo ornamental, feito de palavras suaves perante a violência dos fortes e de fúria teatral perante a resposta dos sitiados. O primeiro procura salvar vidas. O segundo procura salvar a auto-imagem de quem o pratica.
Pedir cessar-fogo é legítimo. Exigir ajuda humanitária é urgente. Denunciar mortes civis é obrigatório. Mas pedir tudo isto sem exigir simultaneamente a libertação dos reféns, o desarmamento do Hamas, o fim do financiamento iraniano a milícias e o reconhecimento claro do direito de Israel existir é moralmente incompleto. É como pedir silêncio ao alarme sem querer apagar o incêndio.
O Ocidente gosta de se ver como farol civilizacional. Mas um farol que só ilumina os erros dos aliados e deixa na sombra os crimes dos inimigos acaba por não guiar ninguém. Apenas encandeia.
A cómoda distância entre a guerra e o cappuccino
Nas ruas europeias, é fácil falar de proporcionalidade quando não se corre para abrigos. É fácil falar de resistência quando não se vive sob rockets. É fácil falar de libertação quando não se pergunta quem governaria no dia seguinte. É fácil falar de direitos humanos quando se esquece que há regimes que enforcam dissidentes, reprimem mulheres, perseguem minorias e, depois, posam como guardiões da justiça universal.
O cinismo é este: muitos que hoje berram contra Israel calam-se perante Teerão. Muitos que denunciam colonialismo ignoram o imperialismo regional iraniano. Muitos que choram Gaza não querem saber dos iranianos reprimidos, dos sírios esmagados, dos libaneses sequestrados politicamente pelo Hezbollah, dos iemenitas usados pelos Houthis, dos judeus ameaçados, dos árabes moderados silenciados, dos palestinianos que gostariam simplesmente de viver sem serem usados como munição simbólica.
O Ocidente confortável transformou a política internacional numa espécie de teatro moral. Escolhe vilões fáceis, vítimas fotogénicas, slogans portáteis e silêncios convenientes. E depois regressa ao café, satisfeito consigo próprio, como se tivesse salvado o mundo entre dois goles.
A verdade inteira é desconfortável — por isso quase ninguém a quer
A verdade inteira é esta: Israel não é santo, mas também não é o demónio único do Médio Oriente. O Hamas não é resistência romântica; é uma organização islamista armada que nunca abandonou verdadeiramente a negação de Israel. O Irão não é apenas um Estado soberano sob pressão ocidental; é também uma potência revolucionária que projecta influência através de milícias. A Europa não é apenas humanitária; é muitas vezes timorata, ambígua e oportunista.
E os civis — israelitas, palestinianos, libaneses, iranianos, iemenitas — continuam a pagar a factura sangrenta das grandes narrativas. As elites discursam. Os povos enterram.
A civilização começa quando conseguimos defender duas dores ao mesmo tempo. A dor de Israel ameaçado na sua existência. A dor palestiniana esmagada entre guerra, ocupação, bloqueio, fanatismo e abandono. Quem só vê uma dor não é justo: é adepto. E a política internacional já tem adeptos demais; faltam-lhe adultos.
Conclusão: menos teatro, mais coragem moral
O Ocidente precisa de uma coragem moral que já não cabe nas conferências de imprensa. Precisa de dizer ao mesmo tempo: Israel tem direito a existir; os palestinianos têm direito a viver; o Hamas deve libertar reféns e abandonar a via armada; o Irão deve parar de alimentar proxies; Israel deve cumprir o direito internacional; e a Europa deve deixar de confundir prudência diplomática com cobardia civilizacional.
Porque uma paz construída sobre mentiras não é paz. É apenas intervalo entre funerais.
E se o Ocidente quer mesmo ser consciência do mundo, talvez deva começar por fazer uma coisa muito simples, quase revolucionária: deixar de tomar o café da manhã em paz enquanto distribui culpas com a mão limpa de quem nunca teve de correr para um abrigo.
Referências internacionais
-
Reuters — “What is Iran’s ‘Axis of Resistance’?” —
análise sobre a rede regional apoiada pelo Irão. -
Chatham House — “The shape-shifting ‘axis of resistance’” —
estudo sobre a evolução do eixo liderado pelo Irão. -
Conselho Europeu — Conclusões sobre o Médio Oriente, 26 de Outubro de 2023 —
posição oficial da União Europeia sobre Hamas, Israel e civis. -
Hamas — “A Document of General Principles and Policies”, 2017 —
documento político onde mantém a rejeição da legitimidade de Israel. -
Site oficial de Ali Khamenei —
declarações sobre o desaparecimento do chamado “regime sionista”. -
Reuters — “UK, France and 23 other nations condemn Israel over ‘inhumane killing’ of civilians” —
notícia sobre críticas ocidentais à situação humanitária em Gaza. -
United Nations OCHA — Data on casualties —
dados e metodologia sobre vítimas no conflito israelo-palestiniano.
Crónica escrita por Francisco Gonçalves
Com coautoria editorial de Augustus Veritas, entre a lucidez crítica, a inquietação cívica e a recusa de confundir paz com sonambulismo moral.
As causas selectivas e as crianças esquecidas da Ucrânia
A hipocrisia ocidental não se revela apenas na forma como olha para Israel. Revela-se também na forma como escolhe, com precisão quase estética, quais as vítimas que merecem comoção pública prolongada e quais as vítimas que podem ser empurradas para o fundo do ecrã, para a margem dos jornais, para o silêncio confortável dos cafés.
As crianças da Ucrânia continuam a morrer, a ser feridas, deslocadas, traumatizadas, privadas de escola, de infância, de futuro e de céu sem sirenes. A guerra russa contra a Ucrânia já entrou no seu quinto ano desde a invasão em larga escala de Fevereiro de 2022. Mas a comoção europeia, que nos primeiros meses parecia uma torrente moral, foi sendo domesticada pela rotina. A tragédia tornou-se paisagem. A morte tornou-se ruído de fundo.
Segundo dados internacionais, milhares de crianças ucranianas foram mortas ou feridas desde 2022, e milhões continuam deslocadas dentro e fora do país. Em 2026, a UNICEF assinalou que mais de um terço das crianças ucranianas permanecia deslocado, o que significa que a guerra não lhes roubou apenas casas: roubou-lhes a geografia íntima da infância.
Mas essa causa tornou-se incómoda. Falar da Ucrânia exige enfrentar a Rússia, falar de imperialismo real, de invasão territorial, de crimes de guerra, de deportação de crianças, de cidades bombardeadas, de centrais eléctricas destruídas, de escolas atingidas, de hospitais atacados. E isso é perigoso. Obriga a tomar posição contra uma potência nuclear, contra redes de influência, contra propaganda organizada e contra a velha cobardia europeia que prefere seminários sobre paz a decisões sobre liberdade.
É por isso que algumas consciências públicas parecem preferir causas onde podem indignar-se sem grande risco estratégico. Gaza dá palco moral imediato. Israel é criticável sem grande perigo pessoal. A Ucrânia, pelo contrário, obriga a olhar para Moscovo, para o Kremlin, para o imperialismo russo, para a brutalidade de uma guerra de conquista em pleno século XXI. E aí muitos dos nossos humanistas de sofá descobrem subitamente a prudência.
A criança palestiniana merece toda a nossa compaixão. A criança israelita sequestrada ou morta merece toda a nossa compaixão. A criança ucraniana esmagada por mísseis russos merece toda a nossa compaixão. A criança síria, sudanesa, iemenita ou arménia também. A moral que selecciona crianças por utilidade política deixou de ser moral: tornou-se propaganda com lágrimas.
O problema não é haver indignação por Gaza. O problema é haver tanta indignação sem mapa, sem memória e sem coragem. O problema é haver comentadores que passam horas a dissecar cada operação israelita, mas tratam os bombardeamentos russos sobre cidades ucranianas como meteorologia distante. Choveu em Kharkiv. Trovejou em Dnipro. Caiu uma criança em Odessa. Seguimos para intervalo.
Esta é a grande doença moral do nosso tempo: a transformação da compaixão numa curadoria ideológica. Escolhem-se vítimas como se escolhem temas de exposição. Algumas iluminadas por projectores. Outras abandonadas no armazém das causas inconvenientes.
Mas uma criança morta não tem geopolítica. Tem nome. Tem rosto. Tem brinquedos que ficaram por arrumar. Tem uma cama vazia. Tem uma mãe destruída. Tem um pai envelhecido numa noite. Tem um futuro cancelado por adultos que falharam a humanidade.
Se o Ocidente quer falar de direitos humanos, então que fale deles por inteiro. Que fale de Gaza, sim. Que fale dos reféns israelitas, sim. Que fale da repressão iraniana, sim. Que fale da Ucrânia, todos os dias se necessário. Porque a verdade não é uma montra onde se expõem apenas as dores convenientes. A verdade é uma planície inteira, cheia de mortos que não cabem nos slogans.
Referências adicionais sobre a Ucrânia
-
Reuters — “UN chief calls Ukraine war ‘a stain on our collective conscience’” —
balanço da ONU no quarto aniversário da invasão russa em larga escala. -
UNICEF — “Child casualties in Ukraine increase by 65 per cent over the past month” —
dados sobre crianças mortas e feridas em Março de 2026. -
UNICEF — “More than a third of Ukraine’s children remain displaced four years into war” —
dados sobre crianças ucranianas deslocadas. -
UN Human Rights Monitoring Mission in Ukraine — “Protection of Civilians in Armed Conflict — April 2026” —
dados mensais sobre vítimas civis na Ucrânia.


