Democracia e Sociedade

O Pinóquio da República e a Biblioteca do Milagre

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NOTA AO LEITOR

Este texto é uma sátira literária e humorística, inspirada em notícias públicas, episódios judiciais conhecidos e na longa tradição portuguesa de rir da pompa quando a pompa tropeça no próprio verniz. Não é uma sentença judicial: é apenas a liberdade crítica a fazer cócegas ao poder.

O Pinóquio da República e a Biblioteca do Milagre

“Neste país, até a mentira quer ter bibliografia.”

Era uma vez, num reino muito antigo chamado Aparência, um menino de fato escuro, verbo redondo e sorriso de televisão, que queria muito ser lembrado como sábio, estadista, filósofo e mártir da incompreensão nacional.

Chamavam-lhe, carinhosamente, o Engenheiro.

Não se sabia muito bem se era engenheiro de pontes, de estradas, de discursos ou de labirintos financeiros, mas uma coisa era certa: tinha uma rara capacidade para transformar perguntas simples em conferências de imprensa com nevoeiro.

Um dia, o Engenheiro acordou e disse:

— Quero escrever um livro.

E logo todo o reino estremeceu.

Os pássaros calaram-se.
As bibliotecas tossiram.
As livrarias olharam umas para as outras com aquele ar de quem pressente uma encomenda volumosa.

— Um livro? — perguntou o Grilo Falante, que naquele reino tinha sido substituído por um assessor de comunicação.
— Sim. Um livro profundo. Sobre confiança.
— Confiança em quê?
— No mundo.
— No mundo inteiro?
— De preferência.

E assim nasceu a grande obra filosófica: A Confiança no Mundo, título que, só por si, já parecia escrito por alguém que nunca tinha ido às Finanças, nunca tinha esperado por uma consulta no SNS e nunca tinha tentado cancelar um contrato de telecomunicações.

A página em branco, esse inimigo antigo

Mas o Engenheiro tinha um pequeno problema: os livros, esses objectos teimosos, costumam exigir uma coisa antiga e inconveniente chamada escrita.

Ora, escrever dá trabalho.

Implica pensar. Reescrever. Duvidar. Apagar. Corrigir. Suportar a solidão da página em branco.

E isso não era muito compatível com uma carreira dedicada à arte superior de parecer sempre ocupado sem nunca se deixar apanhar pelo detalhe.

Por isso, dizem as más-línguas do reino — essas criaturas desprezíveis que às vezes têm a desagradável mania de acertar — que apareceu uma fada universitária, ou talvez um académico de serviço, para ajudar a dar músculo filosófico à criatura.

Não se sabe se foi magia, tese, consultoria, inspiração ou outsourcing metafísico.

Mas consta que o livro começou a ganhar páginas como certos negócios ganham sociedades: por vias discretas, intermediários elegantes e explicações compridas.

Quando finalmente a obra saiu, o Engenheiro apresentou-se ao povo com ar grave.

— Eis o meu pensamento.

E o livro, coitado, ali estava: capa séria, título nobre, pose de biblioteca e aquele perfume de papel acabado de sair da máquina da respeitabilidade.

Só que o povo, que pode ser pobre mas não é parvo, olhou para aquilo e pensou:

— Quando a esmola é muita, o pobre desconfia.

O milagre editorial das compras devotas

Mas a história não acabou aí.

Porque, no reino da Aparência, não basta publicar um livro. É preciso que o livro pareça um sucesso. E para parecer sucesso, nada como comprar exemplares. Muitos exemplares. Exemplares suficientes para a literatura se sentir ligeiramente usada.

Então, segundo reza a crónica popular, houve quem dissesse:

— Toma. Vai lá comprar livros.

E lá iam os fiéis peregrinos da confiança, não à procura de sabedoria, mas de recibos.

Compravam um exemplar.
Depois outro.
Depois mais cem.
Depois tantos que as livrarias começaram a perguntar se o livro era para ler ou para construir uma parede falsa numa garagem.

O Engenheiro sorria.

O seu nariz, porém, crescia.

Não crescia de madeira, como o do Pinóquio original.

Crescia de papel couché, entrevistas televisivas, indignações selectivas e frases muito longas terminadas em:

— Isso é uma cabala.

A ponte nasal da presunção

Cada vez que dizia:

— Nunca soube.

O nariz avançava até Santarém.

Cada vez que acrescentava:

— Isso é falso.

O nariz chegava a Coimbra.

Cada vez que proclamava:

— Sou vítima.

O nariz fazia portagem na A1 e seguia para o Porto.

A certa altura, o nariz era tão grande que já servia de nova ponte sobre o Tejo. Houve até quem sugerisse baptizá-la de Ponte da Presunção de Inocência, com faixa BUS reservada a advogados, motoristas e amigos de infância.

A nova cadeira universitária

Entretanto, nas escolas do reino, os professores começaram a ensinar uma nova disciplina:

Literatura Assistida por Terceiros e Comprada por Multidões Contratadas.

O programa tinha três módulos:

  • Como escrever sem escrever.
  • Como vender sem vender.
  • Como parecer perseguido enquanto se vive rodeado de envelopes.

O exame final consistia em explicar, com ar ofendido, que tudo era normalíssimo.

O Grilo Falante, que já não aguentava tanto talento, perguntou um dia:

— Mas Engenheiro, não acha estranho que haja tantos livros comprados por tão poucos leitores?

O Engenheiro respondeu:

— Estranho é o preconceito contra o sucesso.

E o nariz derrubou uma estante.

A Fada Azul da Justiça

Veio então a Fada Azul da Justiça, muito lenta, muito cansada, com processos às costas e óculos embaciados.

— Meu menino — disse ela —, tens de dizer a verdade.

O Engenheiro levou a mão ao peito.

— A verdade? Mas qual delas?

A Fada suspirou.

Porque naquele reino havia muitas verdades: a verdade processual, a verdade televisiva, a verdade partidária, a verdade do comunicado, a verdade do advogado, a verdade do amigo, a verdade do motorista, a verdade do cofre, a verdade da casa de Paris e a verdade literária, que era talvez a mais magoada de todas.

A certa altura, o próprio livro começou a falar.

Sim, porque até os livros têm limites.

— Por favor — disse ele da prateleira —, eu queria apenas ser lido. Não queria ser usado como álibi cultural.

O povo ouviu aquilo e riu-se.

Riu-se com aquela gargalhada portuguesa, meio tristeza, meio fado, meio “já vimos isto antes”.

E alguém, lá no fundo da taberna democrática, resumiu tudo numa frase:

— Neste país, até a mentira quer ter bibliografia.

O segundo volume da incompreensão

O Engenheiro, ofendido, anunciou novo livro:

A Confiança no Mundo — Volume II: Como o Mundo Me Incompreendeu Antes de Me Ler.

Dizem que teve lançamento marcado numa livraria.

Mas, por precaução, reforçaram o stock, não fossem aparecer leitores a mais.

Ou compradores de missão.

Moral da fábula

E assim termina, por agora, a fábula do Pinóquio da República: um boneco de madeira política, esculpido pela vaidade, envernizado pela televisão, transportado por amigos prestáveis e acompanhado por uma biblioteca inteira de coincidências.

Moral da história?

Quando um homem precisa que outros lhe escrevam a sabedoria, lhe comprem a grandeza e lhe expliquem a inocência, talvez já não esteja a construir uma obra.

Está apenas a alongar o nariz.

Augustus Veritas

Sátira escrita entre o riso, a memória e a velha suspeita portuguesa de que, quando a esmola é muita, até a biblioteca desconfia.

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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