Democracia e Sociedade

O 25 de Abril Foi Uma Brisa fresca Que o Vento Levou

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BOX DE FACTOS

  • O 25 de Abril de 1974 pôs fim ao Estado Novo, à censura, à polícia política e à guerra colonial, abrindo caminho à democracia constitucional.
  • A Comissão Comemorativa dos 50 anos do 25 de Abril recorda o peso da repressão política, das prisões da ditadura e da ausência de liberdades fundamentais antes da revolução.
  • A Pordata e a RTP assinalaram, no balanço dos 50 anos de democracia, mudanças profundas em Portugal, mas também persistências estruturais, nomeadamente em matéria de rendimento, trabalho e condições de vida.
  • A Freedom House classifica Portugal como país livre, mas assinala preocupações persistentes com corrupção, limitações legais ao jornalismo, condições prisionais e discriminação.
  • O relatório V-Dem 2025 enquadra o mundo num ciclo prolongado de autocratização e erosão democrática, lembrando que a democracia formal pode existir enquanto a sua substância se degrada.

O 25 de Abril Foi Uma Brisa Que o Vento Levou
Portugal conquistou a liberdade política, mas perdeu-se no caminho da liberdade moral

O 25 de Abril chegou como manhã limpa depois de uma longa noite. Mas a liberdade, essa criatura delicada, não vive apenas de datas, cravos, hinos e cerimónias. Vive de justiça, dignidade, mérito, coragem e futuro. E talvez seja aí que Portugal ainda esteja por cumprir.

O 25 de Abril chegou. Chegou mesmo. Chegou com cravos, canções, tanques parados no coração de Lisboa, soldados jovens, povo nas ruas, medo a recuar pelas esquinas e uma esperança quase física, como se o ar tivesse sido lavado por dentro.

Seria indigno negar a sua grandeza. O 25 de Abril derrubou uma ditadura envelhecida, cinzenta, repressiva, colonial, censória e policial. Abriu as portas das prisões políticas, devolveu a palavra ao jornalismo, legalizou partidos, trouxe eleições livres, acabou com a guerra colonial e devolveu ao cidadão português uma coisa que durante demasiado tempo lhe fora roubada: o direito de respirar em público.

Mas há datas que libertam a superfície e deixam intactas as caves. O 25 de Abril abriu janelas. O problema é que muitas casas portuguesas continuaram fechadas por dentro.

A liberdade formal e a liberdade profunda

A liberdade formal existe. Vota-se. Fala-se. Protesta-se. Escreve-se. Publica-se. Critica-se o Governo, os partidos, o Presidente, os ministros, as câmaras, os tribunais e até os comentadores televisivos, essa nova aristocracia de sofá e microfone. Ninguém sério pode dizer que Portugal vive numa ditadura.

Mas a liberdade profunda é outra matéria. Não se mede apenas por boletins de voto. Mede-se pela capacidade de um cidadão viver sem medo da arbitrariedade, sem depender da cunha, sem ser esmagado pela burocracia, sem ver o mérito sacrificado às clientelas, sem assistir à promoção da mediocridade obediente, sem esperar anos por justiça, sem sentir que a vida pública é uma sala ocupada pelos mesmos de sempre.

Há uma liberdade de votar. E há uma liberdade de existir com dignidade.

Portugal conquistou a primeira. A segunda continua em disputa.

A revolução política que não chegou a ser revolução moral

A grande tragédia portuguesa talvez esteja aqui: fizemos uma revolução política, mas não fizemos uma revolução moral. Mudaram-se os símbolos, as bandeiras, os discursos, os partidos, as liturgias, os nomes das avenidas e os retratos nas paredes. Mas ficou demasiada coisa antiga debaixo da pele nova.

Ficou o medo da diferença. Ficou a inveja perante o talento. Ficou o culto da obediência. Ficou a reverência perante o chefe. Ficou o compadrio local. Ficou a pequena corte municipal. Ficou a administração pública tratada como território de poder. Ficou a universidade tantas vezes fechada em castas. Ficou a empresa portuguesa onde a competência incomoda mais do que a incompetência.

O velho país de antes não desapareceu. Adaptou-se. Mudou de roupa. Aprendeu a falar democracia. Aprendeu a usar palavras como transparência, inclusão, modernização, igualdade, inovação, participação e sustentabilidade. Mas, em demasiados casos, usou-as como verniz sobre a mesma madeira carunchosa.

O autoritarismo explícito caiu. Mas sobreviveram pequenos autoritarismos quotidianos: nas chefias medíocres, nos serviços arrogantes, nos aparelhos partidários fechados, nas capelinhas profissionais, nos corredores onde se decide antes de fingir que se consulta.

O país das cerimónias e o país da espera

Todos os anos se celebra Abril. Discursos. Cravos. Sessões solenes. Memórias oficiais. Fotografias a preto e branco. Canções. Deputados em fila. Presidentes a falar da liberdade com a voz treinada para a posteridade.

E, no entanto, fora da cerimónia, o país espera.

Espera por consultas. Espera por justiça. Espera por salários dignos. Espera por casas acessíveis. Espera por tribunais que decidam em tempo humano. Espera por escolas que não dependam do heroísmo dos professores. Espera por serviços públicos que funcionem sem humilhar. Espera por empresas que reconheçam mérito. Espera por uma administração que não trate cada cidadão como um suspeito com formulário incompleto.

A liberdade, quando se transforma apenas em cerimónia, começa a cheirar a museu.

E Abril não deveria ser museu. Abril deveria ser ferramenta. Martelo. Chave. Semente. Fogo controlado contra a podridão.

A democracia dos direitos e a democracia dos bloqueios

A democracia portuguesa trouxe direitos fundamentais. Isso é imenso. Mas também criou uma máquina política que, com o tempo, se tornou pesada, profissionalizada, previsível e defensiva. Os partidos transformaram-se em carreiras. A política tornou-se emprego. A militância tornou-se degrau. O Parlamento, tantas vezes, parece menos a casa da nação do que uma agência de recrutamento de futuros administradores, consultores e comentadores.

A liberdade existe, mas a mobilidade real é curta. O cidadão pode falar, mas raramente consegue atravessar os muros da decisão. Pode indignar-se, mas a máquina absorve a indignação como uma parede velha absorve humidade. Pode votar, mas vota quase sempre dentro de um menu preparado pelos mesmos aparelhos.

A democracia formal vive. Mas a democracia criadora, exigente, meritocrática e profundamente participativa continua fraca.

E quando a democracia deixa de inspirar, começam a crescer as sombras. Cresce o cinismo. Cresce a abstenção interior. Cresce a raiva. Cresce a tentação dos discursos fáceis, dos salvadores de megafone, dos comerciantes da fúria.

Uma democracia sem esperança torna-se campo aberto para todos os predadores.

O cravo e a factura

O cravo foi belíssimo. Mas a factura chegou depois.

Chegou sob a forma de um país que modernizou sem se transformar completamente. Um país que construiu auto-estradas, universidades, hospitais, municípios, centros culturais, rotundas, estádios, centros comerciais, plataformas digitais e portais do Estado, mas não conseguiu construir, com a mesma eficácia, uma cultura de responsabilidade, exigência, honestidade, produtividade e respeito pelo mérito.

Portugal tornou-se mais livre, mais educado, mais europeu, mais aberto. Mas continuou muitas vezes pobre na sua estrutura mental. Continuou desconfiado da excelência. Continuou brando com o chico-espertismo. Continuou lento na justiça. Continuou dependente de fundos. Continuou incapaz de transformar conhecimento em riqueza suficiente para dar futuro aos seus jovens.

O 25 de Abril prometeu um país de cidadãos. Demasiadas vezes, recebemos um país de utentes, contribuintes, clientes, eleitores cansados e espectadores de escândalos.

A liberdade que ainda não passou por aqui

Há uma liberdade que ainda não passou inteiramente por Portugal.

A liberdade de uma criança nascer no interior e não estar condenada à fuga. A liberdade de um jovem estudar e poder construir vida sem emigrar. A liberdade de uma família comprar casa sem vender a alma ao banco. A liberdade de um trabalhador competente não ser perseguido por incomodar medíocres. A liberdade de um cidadão enfrentar o Estado e ser tratado com respeito. A liberdade de um velho envelhecer sem medo. A liberdade de uma mulher denunciar abuso sem ser destruída por sistemas de poder. A liberdade de uma pessoa honesta não se sentir ingénua.

Essa liberdade não cabe num cartaz. Não se resolve com uma sessão solene. Não se canta apenas com uma guitarra ao fim da tarde. Essa liberdade exige reforma moral. Exige instituições limpas. Exige justiça rápida. Exige salários dignos. Exige escola exigente. Exige cultura científica. Exige empresas decentes. Exige políticos que sirvam em vez de se servirem.

O 25 de Abril libertou-nos do medo político. Falta libertar-nos do medo social, económico, burocrático e mental.

Abril não morreu; foi domesticado

Talvez Abril não tenha morrido. Talvez tenha sido domesticado.

Puseram-lhe gravata. Sentaram-no numa cerimónia. Deram-lhe lugar cativo no calendário. Cobriram-no de discursos. Transformaram-no em consenso confortável. E uma revolução transformada em consenso pode perder a sua lâmina.

Abril nasceu como ruptura. Hoje é muitas vezes invocado como ornamento. Abril nasceu contra o medo. Hoje é por vezes usado por gente que tem medo de mudar verdadeiramente o país. Abril nasceu contra o poder fechado. Hoje é celebrado por muitos que vivem dentro de poderes fechados.

Há uma ironia profunda nisto: a revolução que abriu portas é hoje comemorada, demasiadas vezes, por instituições que continuam especialistas em fechá-las.

Epílogo: devolver Abril ao futuro

O 25 de Abril não deve ser destruído pela amargura nem embalsamado pela nostalgia. Deve ser recuperado como energia. Como exigência. Como pergunta incómoda.

O que fizemos da liberdade?

Que país construímos com ela?

Porque continuam tantos jovens a partir?

Porque continua o mérito tantas vezes sufocado?

Porque continua a justiça a caminhar como se tivesse chumbo nos sapatos?

Porque continua a corrupção a aparecer como erva daninha no jardim da República?

Porque continuamos a celebrar Abril se tantas vezes vivemos como se a liberdade fosse apenas uma licença administrativa concedida pelo poder?

Abril foi uma manhã. Mas uma manhã não chega para iluminar cinquenta anos se, entretanto, fecharmos as janelas.

O 25 de Abril foi uma brisa que abriu o país. Mas talvez o vento a tenha levado depressa demais, deixando-nos com os símbolos, as canções e a memória — mas ainda sem a liberdade inteira.

A tarefa, portanto, não é abandonar Abril. É acabá-lo. Cumpri-lo. Retirá-lo das tribunas e devolvê-lo às ruas, às escolas, aos tribunais, às empresas, às aldeias, aos jovens, aos velhos, aos que trabalham, aos que pensam, aos que não aceitam viver ajoelhados perante a mediocridade.

Porque Abril não foi apenas o fim de uma ditadura.

Abril deveria ter sido o princípio de um povo vertical.

E esse povo, talvez, ainda esteja por nascer.

Referências e fontes consultadas

Comissão Comemorativa 50 anos 25 de Abril — Os presos políticos em Portugal:
https://50anos25abril.pt/historia/prisoes-da-ditadura/os-presos-politicos-em-portugal/

Pordata — Base de dados estatísticos sobre Portugal:
https://www.pordata.pt/

RTP / Pordata — Pordata mostra mudanças em 50 anos de democracia:
https://www.rtp.pt/noticias/pais/pordata-mostra-mudancas-em-50-anos-de-democracia_v1568405

Freedom House — Portugal: Freedom in the World 2025:
https://freedomhouse.org/country/portugal/freedom-world/2025

V-Dem Institute — Democracy Report 2025:
https://www.v-dem.net/publications/democracy-reports/

Crónica de Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos — pensamento livre, crítica cívica e inquietação luminosa.

Com a colaboração editorial com Augustus Veritas.


O 25 de Abril chegou, mas foi uma brisa que o vento levou.

“Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. / Senhor, falta cumprir-se Portugal!”

[Fernando Pessoa ‘in’ a Mensagem]

Abril abriu a porta.
Mas, como diria Pessoa — e como Agostinho da Silva prolongaria em sonho e inquietação — ainda falta cumprir-se Portugal.

Hoje fomos buscar Abril ao altar das cerimónias e devolvemo-lo à rua, ao povo, à ferida e à esperança. Talvez seja aí que ele ainda pertença: não apenas ao calendário, mas à inquietação de quem recusa viver num país por cumprir.

. Francisco Gonçalves

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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