Democracia e Sociedade

Portugal: Empreender no País das Teias

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BOX DE FACTOS

  • Portugal obteve 56 pontos no Índice de Percepção da Corrupção de 2025, ficando na 46.ª posição entre 182 países.
  • A OCDE tem sublinhado que Portugal precisa de um ambiente empresarial mais favorável, incluindo simplificação de processos administrativos.
  • As PME portuguesas continuam vulneráveis a atrasos nos pagamentos, pressão fiscal, burocracia e dificuldade de acesso a escala.
  • A inovação nacional é frequentemente celebrada em discursos, mas castigada na prática por lentidão institucional, legislação densa e captura por interesses instalados.
  • Empreender em Portugal continua demasiadas vezes a ser menos uma actividade económica normal e mais um acto de resistência civil.

Empreender no País das Teias

Em Portugal, criar uma empresa não é apenas abrir actividade. É entrar numa selva onde a coragem técnica tem de lutar contra a lama institucional, os interesses instalados e a burocracia que se alimenta do cansaço dos vivos.

Empreender num país capturado por interesses, onde demasiadas leis parecem servir uma teia invisível de grupos instalados, consultoras, grandes empresas, clientelas políticas, burocracias auto-protegidas e poderes de corredor, é quase um acto de resistência civil.

Portugal gosta de falar de empreendedorismo. Fala dele em conferências, em programas públicos, em relatórios, em incubadoras, em painéis com moderador sorridente e em discursos onde a palavra “inovação” aparece tantas vezes que acaba por perder oxigénio. Mas o país real, aquele que o pequeno empresário encontra quando tenta criar alguma coisa, é muito menos luminoso. É um país de formulários, taxas, atrasos, licenças, obrigações, interpretações, prazos, inspecções, portais erráticos e leis que mudam como se fossem feitas em papel vegetal.

O pequeno empreendedor português não começa apenas por enfrentar o mercado. Começa por enfrentar o Estado. E, muitas vezes, descobre rapidamente que o Estado não é uma plataforma de apoio à criação de valor, mas uma máquina de suspeição permanente. O cidadão produtivo é tratado como potencial infractor. A pequena empresa é tratada como fonte fiscal ambulante. O inovador independente é convidado a ser resiliente — essa palavra moderna que tantas vezes significa apenas “aguenta e cala-te”.

O labirinto antes do produto

Num país saudável, quem tem uma ideia devia poder testá-la rapidamente, falhar depressa, corrigir, vender, crescer, contratar e inovar. Em Portugal, antes do produto há o labirinto. Antes do cliente há o formulário. Antes da experiência há o enquadramento fiscal. Antes do protótipo há a dúvida sobre a actividade, o código, a licença, a declaração, o regime, a taxa, a factura, a comunicação, o portal, a senha, a assinatura, a submissão e o erro técnico inesperado às 23h58 do último dia do prazo.

A burocracia portuguesa tem uma característica quase poética, se não fosse trágica: raramente diz directamente “não”. Prefere cansar. Prefere empurrar. Prefere pedir mais um documento, mais uma validação, mais uma certidão, mais uma prova de que existimos, como se o cidadão tivesse de comparecer permanentemente perante um tribunal administrativo da sua própria legitimidade.

Esta cultura mata iniciativa. Não mata com tiro, mata com desgaste. Não proíbe, dificulta. Não prende, imobiliza. Não impede totalmente, mas torna tudo tão pesado que muitos desistem antes de chegar ao mercado. E depois o país lamenta a falta de escala, de produtividade, de inovação, de empresas tecnológicas, de indústria avançada. É como regar uma planta com vinagre e depois queixar-se de ela não dar flores.

As leis como arquitectura de interesses

O problema português não é apenas a existência de leis. Toda a sociedade precisa de regras. O problema é a sensação persistente de que muitas leis não nascem para proteger o bem comum, mas para organizar vantagens, reservar mercados, proteger incumbentes, criar barreiras de entrada e alimentar profissões, entidades, pareceres, certificações e intermediários que vivem da complexidade.

Há legislação que parece escrita não para ser compreendida, mas para exigir intérpretes. Há regimes que parecem desenhados não para simplificar, mas para obrigar o cidadão a depender de especialistas. Há sectores onde a concorrência é formalmente livre, mas materialmente cercada por exigências que só os grandes conseguem cumprir sem sufocar.

A corrupção moderna nem sempre aparece com envelope de dinheiro ou mala discreta. Muitas vezes aparece como desenho institucional. Como regra aparentemente neutra que favorece quem já está instalado. Como concurso público com alfaiate invisível. Como regulação que diz proteger o consumidor mas acaba por proteger o operador dominante. Como burocracia que castiga o pequeno e é navegável para quem tem gabinete jurídico.

A verdadeira teia não está apenas nos casos mediáticos. Está no modo como o país se organiza para tornar difícil aquilo que devia ser simples e para tornar simples aquilo que devia ser escrutinado.

O pequeno empresário como suspeito permanente

Em Portugal, o pequeno empresário vive numa espécie de liberdade condicional fiscal. Trabalha, factura, paga, declara, corrige, entrega, responde, justifica, conserva documentos, teme notificações e aprende rapidamente que qualquer lapso administrativo pode transformar-se numa pequena tragédia financeira.

O Estado que tarda em pagar é veloz a cobrar. O Estado que erra sem pedir desculpa pune o cidadão que se engana. O Estado que se perde em plataformas digitais exige submissões perfeitas. O Estado que demora meses a decidir impõe prazos curtos a quem produz. A assimetria é brutal: a Administração pode ser lenta; o contribuinte tem de ser exacto.

E depois há os atrasos nos pagamentos, essa praga silenciosa que sufoca muitas PME. Uma pequena empresa não morre apenas por falta de clientes; morre por falta de tesouraria. Morre quando trabalha, entrega, factura e espera. Morre quando os grandes pagadores atrasam e o Estado continua a exigir impostos como se o dinheiro já estivesse na conta. Morre quando a economia real é tratada como se fosse uma folha de cálculo sem pulsação humana.

O país que protege os incumbentes

Portugal fala de concorrência, mas gosta de incumbentes. Fala de mercado, mas respeita demasiado os poderes instalados. Fala de inovação, mas consulta sempre os mesmos. Fala de transformação, mas entrega a transformação a quem vive bem com o estado das coisas. Fala de disrupção, mas só tolera disrupção autorizada por despacho.

O pequeno inovador raramente tem acesso aos centros de decisão. Não frequenta os jantares certos, não pertence às redes certas, não tem a consultora certa, não sabe quem telefonar antes do concurso abrir, não tem ex-governantes no conselho consultivo, não tem o brilho institucional que transforma projectos medianos em prioridades nacionais.

E por isso o país cria uma economia de corredores. Quem está dentro sabe mover-se. Quem está fora bate à porta. O empreendedor independente, mesmo competente, mesmo criativo, mesmo experiente, sente muitas vezes que está a competir contra uma estrutura invisível onde o mérito chega sempre atrasado e de autocarro.

A falsa celebração da inovação

Portugal adora celebrar inovação desde que ela venha embrulhada em linguagem institucional. Inovação com palco, patrocinador, logótipo, ministério, fundo europeu, aceleradora, painel de especialistas e certificado de participação. Mas a inovação verdadeira, aquela que nasce em garagens, pequenas empresas, servidores próprios, noites de programação, risco pessoal e teimosia técnica, essa é frequentemente ignorada.

O país tem talento. Tem programadores, engenheiros, investigadores, técnicos, designers, cientistas, gestores competentes, pequenos empresários sérios e gente capaz de criar valor real. O problema é que demasiada energia se perde a atravessar o pântano institucional. O talento existe; o sistema é que o transforma em fadiga.

A inovação não nasce apenas de subsídios. Nasce de liberdade, confiança, rapidez, mercado, capital inteligente, regras estáveis, justiça célere, compras públicas abertas, interoperabilidade, ética, boa gestão e uma cultura que não trate cada iniciativa independente como ameaça à ordem instalada.

Mas em Portugal continua a haver uma diferença trágica entre o discurso oficial e a prática diária. O discurso diz: empreendam. A prática responde: tragam certidão.

A corrupção que rouba futuro

A corrupção não rouba apenas dinheiro. Rouba tempo, confiança, mérito, esperança, concorrência e futuro. Quando um país é percebido como permeável a interesses, clientelas e desigualdade de tratamento, o empreendedor honesto entra em campo com pesos nos tornozelos.

Quem não quer pagar favores, quem não quer viver de contactos, quem não quer alinhar com clientelas, quem não quer ajoelhar perante poderes locais ou centrais, descobre que a integridade também tem custo. Custa oportunidades. Custa acesso. Custa velocidade. Custa isolamento.

Esta é talvez a forma mais devastadora de corrupção: a que faz os cidadãos competentes desistirem. A que empurra talento para fora. A que convence os jovens de que o mérito é uma bela palavra para discursos de fim de curso, mas não uma regra efectiva do país. A que transforma energia criadora em amargura cívica.

Um país corrupto não é apenas um país onde alguns roubam. É um país onde muitos deixam de tentar porque percebem que o jogo está inclinado.

A dependência tecnológica como sintoma

A dificuldade de empreender também se revela na dependência tecnológica nacional. O Estado e muitas empresas continuam presos a fornecedores estrangeiros, plataformas proprietárias, clouds externas e ecossistemas fechados. Fala-se de soberania digital, mas pratica-se dependência operacional. Fala-se de inteligência artificial, mas continua-se a entregar os alicerces digitais a meia dúzia de gigantes.

Isto prejudica também os empreendedores nacionais. Se o Estado não cria normas abertas, se as compras públicas favorecem sempre os grandes fornecedores, se a Administração não valoriza soluções portuguesas, se a cloud soberana não existe de forma séria, se o software livre é visto como excentricidade e se a inovação nacional é tratada como folclore, então as pequenas empresas tecnológicas nunca passam da periferia.

Não há ecossistema empreendedor forte quando o maior comprador do país se comporta como cliente cativo dos mesmos fornecedores globais. O Estado devia ser alavanca de capacidade nacional. Muitas vezes é apenas distribuidor de dependência.

Empreender como resistência civil

Apesar de tudo, há quem continue. Há quem abra empresas, escreva código, monte oficinas, crie serviços, desenvolva produtos, apoie clientes, forme equipas, pague salários, invista em máquinas, tente exportar, responda a concursos, arrisque poupanças e acorde todos os dias com a teimosia luminosa de quem ainda não desistiu do país.

Essas pessoas são uma forma silenciosa de resistência. Não aparecem nas tribunas. Não vivem de subsídios permanentes. Não falam em nome do povo nos telejornais. Mas sustentam uma parte essencial da economia real. São elas que tentam criar valor enquanto o sistema cria obstáculos. São elas que transformam competência em serviço, ideia em produto, esforço em rendimento e conhecimento em possibilidade.

E talvez seja por isso que o país devia tratá-las com respeito. Porque uma sociedade que humilha quem produz e reverencia quem intermedeia está a escolher a decadência. Uma sociedade que sufoca quem cria e protege quem captura está a vender o futuro ao desbarato. Uma sociedade que confunde burocracia com Estado e clientela com desenvolvimento está condenada a repetir o mesmo atraso com palavras novas.

O que teria de mudar

Portugal não precisa de mais discursos sobre empreendedorismo. Precisa de remover pedras do caminho. Precisa de um Estado que simplifique sem desproteger, fiscalize sem perseguir, cobre sem humilhar, pague a tempo, compre com transparência e abra espaço aos pequenos inovadores.

Uma verdadeira política de empreendedorismo exigiria:

  • simplificação fiscal real para micro e pequenas empresas;
  • prazos de pagamento obrigatórios e cumpridos pelo Estado e pelos grandes grupos;
  • compras públicas abertas a PME e empresas tecnológicas nacionais;
  • justiça económica e administrativa mais célere;
  • redução de licenças e obrigações redundantes;
  • normas abertas e interoperabilidade nos sistemas públicos;
  • apoio técnico simples, não labirintos de candidatura;
  • combate efectivo a conflitos de interesse e concursos feitos à medida;
  • valorização de software nacional, cloud soberana e competências internas;
  • estabilidade legal para quem quer investir a longo prazo.

Isto não seria uma revolução ideológica. Seria apenas decência administrativa. Seria o mínimo que um país civilizado deve a quem tenta criar valor.

Conclusão: o país que cansa os seus melhores

O maior crime silencioso desta canalhocracia não é apenas roubar dinheiro público. É roubar energia aos que ainda querem construir. Rouba horas, paciência, entusiasmo, confiança e futuro. Rouba ao programador que podia criar um produto. Ao técnico que podia abrir uma empresa. Ao investigador que podia transferir conhecimento para a indústria. Ao pequeno empresário que podia contratar mais duas pessoas. Ao jovem que podia ficar em Portugal, mas escolhe partir.

Um país não morre apenas quando deixa de produzir. Morre quando torna heroico aquilo que devia ser normal. Quando abrir uma empresa se torna aventura. Quando pagar impostos se torna castigo. Quando cumprir a lei exige intérprete. Quando inovar exige autorização informal. Quando o mérito tem de pedir licença à rede de interesses.

Portugal precisa de empreendedores, sim. Mas precisa sobretudo de deixar de os tratar como intrusos num banquete reservado. Precisa de libertar os criadores, os técnicos, os pequenos empresários, os independentes e os inconformistas da teia pegajosa que protege os mesmos de sempre.

Porque empreender num país decente devia ser construir futuro. Em Portugal, demasiadas vezes, continua a ser sobreviver ao presente.

Nota editorial: Empreender em Portugal é, muitas vezes, uma forma de resistência contra a mediocridade organizada. O país fala de inovação, mas protege os incumbentes; fala de mérito, mas alimenta corredores; fala de modernização, mas conserva burocracias que tratam o cidadão produtivo como suspeito. Uma nação que cansa os seus criadores antes de os deixar criar está a desperdiçar a sua matéria-prima mais rara: a inteligência livre.

Referências e leituras recomendadas

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
Com a colaboração editorial de Augustus Veritas.

Nota final pessoal: Em 1994 criei uma empresa cujo objectivo era desenvolver software avançado de telecomunicações e aplicações distribuídas, numa altura em que Portugal ainda mal compreendia o alcance estratégico das redes, da integração de sistemas e da inteligência colocada ao serviço das empresas. Havia conhecimento, havia vontade, havia visão técnica e havia a convicção profunda de que o país podia deixar de ser apenas consumidor de tecnologia estrangeira para passar também a criar tecnologia própria.

Mas cedo compreendi que empreender em Portugal não era apenas enfrentar o mercado. Era enfrentar uma muralha invisível de burocracia, desconfiança, falta de capital inteligente, ausência de política industrial, clientelas instaladas e uma cultura empresarial demasiado habituada a comprar fora aquilo que podia — e devia — aprender a construir dentro.

O país que discursava sobre inovação não sabia reconhecer os seus inovadores. O país que dizia querer modernizar-se preferia contratar marcas estrangeiras, consultoras de prestígio e soluções importadas, mesmo quando havia competência nacional capaz de fazer melhor, mais adaptado e com maior independência tecnológica. A inteligência portuguesa ficava frequentemente à porta, enquanto o poder abria tapete vermelho à dependência.

Essa experiência deixou-me uma certeza amarga: em Portugal, muitas vezes, o maior obstáculo à criação de valor não é a falta de talento, nem a falta de trabalho, nem sequer a falta de ideias. É a existência de um sistema que não sabe distinguir entre quem cria futuro e quem apenas administra o atraso. E talvez por isso continue a acreditar que empreender, neste país, quando se faz com dignidade, visão e independência, é uma das formas mais nobres de resistência cívica.

Francisco Gonçalves

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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