Democracia e Sociedade

Marcelo e a Política como Espectáculo

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BOX DE FACTOS

  • Marcelo Rebelo de Sousa iniciou em Abril de 2026 um ciclo de aulas-debate em escolas com o tema “Educação, vocação, futuro”.
  • A primeira sessão decorreu em Águeda, na Escola Secundária Adolfo Portela.
  • A iniciativa foi enquadrada pelo novo gabinete e novo site oficial do ex-Presidente.
  • O episódio foi marcado por recepção entusiástica, aplausos, selfies, autógrafos e forte exposição mediática.
  • O caso ilustra a transformação da política em liturgia afectiva e espectáculo de proximidade.

Marcelo e o Populismo dos Afectos

Há um populismo que grita, simplifica e agride. E há outro que sorri, abraça, distribui selfies e transforma a política numa catequese sentimental. Portugal conheceu bem essa segunda versão.

O episódio de Águeda não foi apenas uma visita escolar. Foi uma revelação, mais uma, da forma como a política portuguesa se foi deixando contaminar pela lógica da celebridade, da coreografia afectiva e da substituição da substância pelo encanto pessoal. Marcelo Rebelo de Sousa foi recebido como uma estrela. Não como um antigo magistrado da República em visita a uma escola para dialogar com alunos, mas como uma figura pop envolta em aplauso, excitação, autógrafos, fotografias e magnetismo emocional.

Nada disto seria especialmente grave se fosse apenas folclore de passagem. Mas não é. É uma linguagem política. É uma pedagogia pública. É um método. E esse método consiste em deslocar o centro de gravidade da vida cívica: em vez de instituições, foco na figura; em vez de pensamento, foco na empatia; em vez de elevação institucional, foco na proximidade performativa. O resultado é uma democracia mais leve, mais sentimental, mais mediática — e, por isso mesmo, mais vulnerável à banalização.

A escola como cenário, a política como encenação

Em teoria, falar com jovens sobre educação, vocação e futuro é uma tarefa nobre. E pode até ser útil. O problema começa quando a mensagem se torna secundária perante a encenação da presença. O que fica na memória colectiva já não é a arquitectura das ideias, mas o corredor de aplausos, os gritos em uníssono, os beijos, o aparato de familiaridade. A escola deixa de ser o lugar exigente da formação e passa a servir de palco para a continuação do personagem público.

Eis o ponto: a política-espectáculo não precisa de comícios inflamados para se tornar populista. Pode vestir tom professoral, paternal, acessível, sorridente. Pode falar baixo e parecer sensata. Pode até invocar a educação e o futuro. Mas, se a sua energia principal assenta na adoração da figura e no capital emocional da proximidade, então estamos perante uma forma de populismo suave — talvez mais elegante, mais portuguesa, mais televisiva, mas ainda assim populismo.

O populismo sem fúria

Durante anos, Marcelo cultivou esta fórmula com talento incomum. Foi o político do abraço, da presença omnipresente, da selfie redentora, da emoção como moeda de contacto com o País. Muitos elogiaram essa habilidade como sinal de humanidade. E, sem dúvida, havia nela um lado de calor pessoal que contrastava com a frieza burocrática de outras figuras. Mas a questão nunca foi apenas temperamental. A questão era institucional.

Quando um Presidente se transforma num animador afectivo da República, a função deixa subtilmente de representar apenas a permanência do Estado e passa a representar também uma espécie de intimidade nacional encenada. O País habitua-se então a medir a política pela simpatia, pela disponibilidade, pela fotogenia moral. E isso é perigoso, porque rebaixa a exigência. O cidadão deixa de perguntar: “Que visão tem esta figura para o País?” e passa a perguntar: “É próximo? É simpático? Faz-nos sentir bem?”

Da popularidade à banalização

O problema do populismo afectivo não é a violência verbal. É a erosão doce da seriedade. Em vez de brutalizar a democracia, adormece-a. Em vez de incendiar as instituições, amolece-as. Em vez de mobilizar através do medo, mobiliza através do encanto. E por isso mesmo pode ser ainda mais insidioso: parece inocente, parece caloroso, parece até benévolo. Mas vai retirando densidade à própria ideia de responsabilidade política.

Uma república não se fortalece quando transforma antigos chefes de Estado em celebridades itinerantes de pavilhão escolar. Fortalece-se quando consegue fazer da palavra pública um exercício de exigência, de lucidez e de elevação cívica. O contrário disto é a pedagogia da aura: o aluno aprende menos com o conteúdo do debate do que com a mensagem implícita de que a política é, afinal, carisma bem iluminado.

Portugal e a tentação da política sentimental

Talvez estejamos aqui perante um dos traços mais fundos da fragilidade política portuguesa: a dificuldade em separar representação institucional de teatralidade afectiva. O País gosta de figuras calorosas, de gestos simbólicos, de proximidade emocional. E isso, em si, não seria condenável. O problema surge quando essa inclinação se torna substituto da exigência crítica. Quando a opinião pública prefere comover-se a escrutinar. Quando confunde simpatia com grandeza. Quando troca densidade por ternura.

Nesse sentido, Marcelo não foi apenas um político popular. Foi também um sintoma. O sintoma de um regime que se deixou seduzir pela facilidade do afecto mediático. O sintoma de uma democracia que, em vez de cultivar cidadãos exigentes, corre o risco de formar plateias emocionais. O sintoma de uma cultura pública onde a política se torna muitas vezes mais próxima do entretenimento respeitável do que do pensamento de Estado.

Conclusão

A cena de Águeda não é irrelevante. É reveladora. Mostra como Portugal continua preso a uma visão infantilizada da política, em que o carisma pessoal vale mais do que a substância, a presença vale mais do que a arquitectura das ideias e o aplauso vale mais do que a reflexão. Marcelo pode já ter saído de Belém, mas a gramática que ajudou a consolidar permanece viva: a da política como afecto encenado.

E uma democracia que se habitua a isso empobrece sem dar por isso. Não cai. Não explode. Não entra em convulsão. Apenas vai trocando, devagarinho, o pensamento pelo encanto e a cidadania pela plateia.

Referências

— ECO, 13 de Abril de 2026, sobre o novo site de Marcelo Rebelo de Sousa e o arranque do ciclo “aulas-debate” em escolas.
— Gabinete MRS, agenda pública e enquadramento da iniciativa “Educação, vocação, futuro”.
— Lusa, 14 de Abril de 2026, relato da recepção entusiástica na Escola Secundária Adolfo Portela, em Águeda.

Frase a reter

Marcelo foi talvez a forma mais delicadamente portuguesa de populismo: não o da fúria, mas o da sedução; não o da ruptura, mas o da banalização simpática da política.

Francisco Gonçalves
Nota editorial para o Fragmentos do Caos.
Co-criação editorial com Augustus Veritas.

Nota editorial

Não é apenas a mediocridade de certos políticos. É também a disponibilidade quase comovente de parte do povo para os idolatrar, como se a proximidade cénica, o sorriso treinado e a liturgia dos afectos fossem sinais de grandeza pública. Não são. São muitas vezes apenas técnicas de sedução em regime democrático.

A política-espectáculo vive desta cumplicidade: de um lado, actores hábeis em representar intimidade; do outro, plateias treinadas para confundir familiaridade com mérito, emoção com visão, simpatia com estatura.

Dito de forma crua: um País não se afunda só por ter elites fracas. Afunda-se também quando aprende a aplaudi-las.
O populismo, seja ele qual for, é isso mesmo: não importa a qualidade, importa o aplauso; não importa a verdade, importa o efeito; não importa construir, importa conquistar e dominar.

Em Abril de 1974, acreditei que Portugal entraria numa democracia onde a excelência acabaria por derrotar a mediocridade. Foi um engano monumental e uma desilusão pessoal.

– Francisco Gonçalves (2026)

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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