Democracia e Sociedade

Se Jorge de Sena visse esta democracia capturada!

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Se Jorge de Sena visse esta democracia capturada

Portugal não era apenas governado por regimes; era muitas vezes governado por mentalidades. E as mentalidades, essas, sobrevivem a revoluções, constituições, partidos e discursos.

Nota de abertura:
Esta crónica não pretende imitar Jorge de Sena, porque transformar um escritor dessa grandeza num boneco de ventríloquo literário seria uma pequena indecência, muito ao gosto das épocas que dizem venerar os grandes mortos enquanto ignoram os vivos incómodos. O que aqui se procura é outra coisa: convocar, perante a democracia portuguesa capturada por interesses, clientelas e mediocridade organizada, o eco da sua severidade moral, da sua inteligência ferida e da sua relação amarga com Portugal.

Jorge de Sena percebeu cedo uma coisa terrível: Portugal não era apenas governado por regimes; era muitas vezes governado por mentalidades.

E essas sobrevivem a revoluções, constituições, partidos, bandeiras e discursos.

Sobrevivem como bolor em parede húmida.

A diferença é que, em Portugal, o bolor por vezes recebe medalhas, cargos, convites para conferências e direito a comentário televisivo.

Se Jorge de Sena estivesse vivo, talvez não se espantasse com esta democracia capturada.

Irritar-se-ia, certamente.

Indignar-se-ia, sem dúvida.

Escreveria com aquela mistura de erudição, cólera, lucidez e desgosto que só os homens verdadeiramente livres conseguem suportar sem se transformarem em pedra.

Mas não se espantaria.

Porque ele conhecia Portugal.

Não apenas o Portugal das cerimónias, das bandeiras cuidadosamente dobradas, das palavras graves pronunciadas por medíocres com voz de Estado.

Conhecia o outro: o Portugal subterrâneo, viscoso, prudente, rancoroso, provinciano, adulador do poder, perseguidor do mérito, inventor de desculpas e destruidor lento de tudo o que excede a sua medida.

Esse Portugal não desapareceu com a democracia.

Mudou de roupa.

Tirou a farda velha, vestiu fato civil, aprendeu a dizer “pluralismo”, “Europa”, “inclusão”, “Estado de Direito”, “responsabilidade democrática” e “modernização”.

Mas no fundo manteve intacto o velho instinto: proteger os seus, punir os livres, promover os úteis, cansar os competentes, domesticar os incómodos e transformar a pátria numa repartição de favores.

A democracia portuguesa não foi traída por falta de Constituição. Foi traída por excesso de portugueses disponíveis para a usar como biombo.

A liberdade ocupada pelos mesmos vícios

Depois de Abril, julgou-se que bastava mudar o regime para mudar o país.

Ingenuidade generosa.

Como se os povos mudassem de alma por decreto.

Como se a liberdade, por si só, curasse a inveja, a cobardia, o carreirismo, a mediocridade organizada, o compadrio, a esperteza saloia e a sagrada arte nacional de subir pela sombra enquanto se proclama amor à luz.

A liberdade abriu portas.

E por elas entraram também os oportunistas.

Entraram os puros de ocasião.

Entraram os democratas profissionais.

Entraram os moralistas de partido.

Entraram os administradores da promessa.

Entraram os que tinham estado calados e descobriram subitamente vocação para comandar.

Entraram os que confundiram povo com massa eleitoral.

Entraram os que confundiram Estado com propriedade transitória.

Entraram os que aprenderam depressa que a revolução podia dar lugar a carreiras muito estáveis.

O país mudou de regime, mas não destruiu o seu vício mais antigo: a submissão da competência à pertença.

Jorge de Sena, que viveu o exílio e conheceu a perseguição política, talvez reconhecesse nesta democracia um fenómeno ainda mais triste: a liberdade formal ocupada por hábitos morais antigos.

A censura oficial desapareceu.

Mas a censura social, partidária, económica e mediática aprendeu outros modos.

Já não proíbe.

Isola.

Já não manda calar.

Desvaloriza.

Já não prende.

Não convida.

Já não queima livros.

Esquece autores.

Muito moderno.

Muito elegante.

Muito democrático, dizem eles, com aquela voz untuosa de quem sempre encontra uma forma limpa de praticar a indecência.

Os “de bem”

Sena teria especial horror aos “de bem”.

Não aos verdadeiramente decentes, que esses existem e raramente fazem propaganda da própria decência.

Mas aos outros.

Aos que se anunciam como guardiões da civilização enquanto administram decadência.

Aos que defendem a democracia com ar de proprietários.

Aos que falam do povo com ternura abstracta e desprezo concreto.

Aos que citam princípios para proteger lugares.

Aos que transformam a moral num elevador social.

Os “de bem” portugueses são uma velha espécie.

Ontem defendiam a ordem.

Hoje defendem a democracia.

Amanhã defenderão qualquer coisa que lhes garanta mesa, microfone, gabinete e imunidade social.

São adaptáveis, esses répteis de salão.

Mudam de vocabulário.

Não mudam de instinto.

E o instinto é sempre o mesmo: mandar sem parecer mandar, influenciar sem responder, beneficiar sem se expor, distribuir culpas para baixo e méritos para cima.

A estes, talvez Sena chamasse funcionários da hipocrisia nacional.

A mediocridade como sistema

Portugal não sofre apenas de má gestão.

Sofre de uma coisa mais funda: a mediocridade tornou-se método de reprodução do poder.

O medíocre reconhece o medíocre.

Protege-o.

Promove-o.

Consola-o.

Chama-lhe prudente, moderado, sensato, institucional.

O competente, pelo contrário, incomoda.

Faz perguntas.

Exige critérios.

Quer dados.

Quer resultados.

Quer rigor.

Quer que as palavras correspondam a actos.

Um perigo público, portanto.

Num país capturado pela mediocridade, o mérito não é celebrado.

É tolerado enquanto for útil e esmagado quando se torna ameaça.

Por isso tantos portugueses capazes se vão embora, se calam, se cansam, se isolam ou acabam a trabalhar para que os incapazes possam aparecer na fotografia.

É uma engenharia moral muito nossa: os competentes seguram o edifício; os carreiristas inauguram a fachada.

Jorge de Sena, que recusou filiações cómodas, apadrinhamentos sociais e submissões de capela, sabia que a liberdade intelectual é sempre perigosa para os pequenos poderes.

Os pequenos poderes toleram inteligência decorativa.

Detestam inteligência livre.

A primeira abrilhanta salões.

A segunda abre janelas.

E Portugal, pobre país de tantas salas fechadas, sempre teve medo de correntes de ar.

A democracia como encenação

Se Sena olhasse para esta democracia capturada, talvez dissesse que ela sofre de excesso de representação e falta de verdade.

Há parlamentos.

Há debates.

Há comissões.

Há campanhas.

Há discursos.

Há entrevistas.

Há especialistas.

Há painéis televisivos.

Há indignações calibradas.

Há solenidades.

Há relatórios.

Há reformas anunciadas.

Mas a pergunta essencial fica sempre por responder:

Quem decide realmente, em nome de quem, com que interesses, e com que responsabilidade?

Porque uma democracia pode morrer sem tanques na rua.

Pode morrer por dentro.

Morre quando a justiça se arrasta até favorecer os fortes.

Morre quando os partidos fecham o Estado sobre si mesmos.

Morre quando a imprensa depende demasiado dos poderes que devia fiscalizar.

Morre quando os cidadãos votam, mas não conseguem controlar o que é feito depois.

Morre quando a competência perde para a lealdade.

Morre quando a verdade é substituída por narrativa.

Morre quando os medíocres aprendem a falar em nome da excelência.

Não é golpe de Estado.

É infiltração lenta.

Portugal, claro, prefere formas discretas de decadência.

Somos um povo com talento para o desastre educado.

O exílio dentro da pátria

Jorge de Sena conheceu o exílio físico.

Mas talvez hoje reconhecesse outro exílio: o exílio interior de quem vive num país onde já não acredita nas palavras oficiais.

Há muitos portugueses exilados dentro de Portugal.

Não partiram, mas deixaram de pertencer.

Pagam impostos, cumprem deveres, criam filhos, trabalham, envelhecem, esperam consultas, enfrentam burocracias, vêem os mesmos nomes circular no poder e percebem que a democracia lhes pede confiança, mas oferece-lhes demasiadas vezes humilhação.

São cidadãos tratados como utentes.

Utentes tratados como processos.

Processos tratados como atrasos.

Atrasos tratados como normalidade.

Normalidade tratada como destino.

E depois a elite pergunta, com grande perplexidade, porque cresce a revolta.

Cresce porque a paciência também tem biologia.

Morre.

E quando morre, nenhuma nota institucional a ressuscita.

O país que teme os homens livres

Sena era, acima de tudo, um homem livre.

E Portugal tem uma relação complicada com homens livres.

Gosta deles mortos, canonizados, citados em efemérides e domesticados por programas escolares.

Vivos, são um incómodo.

O homem livre não pede licença à tribo.

Não agradece migalhas.

Não se ajoelha perante o prestígio.

Não confunde consenso com verdade.

Não aceita que a pátria seja desculpa para a cobardia.

Não suporta que a mediocridade se vista de prudência.

Por isso Portugal castiga os livres com uma arma muito eficaz: o isolamento.

Não é preciso prendê-los.

Basta ignorá-los.

Basta não os convidar.

Basta chamá-los difíceis.

Basta dizer que exageram.

Basta insinuar que são amargos.

Basta esperar que se cansem.

É uma censura sem polícia.

Muito moderna.

Muito democrática.

Muito elegante.

Até dá para servir com vinho branco em conferências sobre liberdade.

O que escreveria ele?

Talvez escrevesse que Portugal não falhou por falta de inteligência, mas por falta de carácter público.

Talvez escrevesse que a democracia portuguesa foi colonizada por uma classe que aprendeu a falar a linguagem da liberdade enquanto mantinha os hábitos da dependência.

Talvez escrevesse que a pátria continua a devorar os seus melhores filhos e a alimentar os seus mais hábeis parasitas.

Talvez escrevesse que o país se especializou em homenagear mortos incómodos para melhor ignorar vivos incómodos.

Talvez escrevesse que a verdadeira tragédia portuguesa não é a pobreza material, mas a pobreza moral de um sistema que aceita a mediocridade desde que ela seja conveniente.

E talvez terminasse com uma frase que não pedisse aplauso, mas vergonha:

Portugal não precisa de mais homens que se digam de bem. Precisa de homens que não tenham medo de ser justos quando isso lhes custa alguma coisa.

BOX DE CONTEXTO SENIANO

  • O Reino da Estupidez reúne ensaios e crónicas publicados em 1978, em liberdade pós-censura, onde Jorge de Sena satiriza situações e problemas portugueses, brasileiros e americanos, denunciando contradições da vida pública e cultural.
  • Sinais de Fogo, romance póstumo, é apresentado pela RTP Ensina como um retrato de Portugal nos anos 30, em pleno Estado Novo, tendo a Guerra Civil de Espanha como pano de fundo e abordando também estética, política e sociedade.
  • Os Grão-Capitães reúne contos escritos no exílio brasileiro, entre 1961 e 1962, cobrindo ficcionalmente um período que vai de 1928 a 1953, com leitura amarga do Portugal ditatorial.
  • A Imprensa Nacional assinala que a experiência da Escola Naval, o endurecimento do Estado Novo e a Guerra Civil de Espanha marcaram profundamente Sena e foram transmutados em poemas e narrativas.
  • Estudos recentes sublinham a liberdade de pensamento de Jorge de Sena, a sua recusa de filiações políticas cómodas, apadrinhamentos e submissões literárias ou sociais.
  • A leitura crítica da sua poesia satírica destaca a denúncia dos vícios de Portugal e do ser humano, marcada por indignação, severidade moral e responsabilidade testemunhal.

Conclusão: a democracia e os homens livres

Se Jorge de Sena estivesse vivo, talvez olhasse para esta democracia capturada e visse nela não uma surpresa, mas uma confirmação amarga.

A confirmação de que a liberdade política, sem exigência moral, pode ser ocupada pelos mesmos vícios que antes serviam outros senhores.

A confirmação de que um país pode mudar de regime e manter intacta a sua arte de esmagar o mérito, proteger a mediocridade e transformar a inteligência crítica em inconveniência social.

A confirmação de que Portugal continua a precisar, desesperadamente, de cidadãos livres.

Não livres apenas para votar.

Livres para pensar.

Livres para dizer.

Livres para exigir.

Livres para não pertencer.

Livres para não obedecer ao coro.

Livres para amar Portugal sem aceitar a sua mentira oficial.

Porque amar um país não é desculpá-lo.

É obrigá-lo a ser melhor.

A democracia só vale o que valerem os homens livres que a impedem de se transformar numa repartição de interesses com bandeira à porta.

Essa talvez fosse a lição mais dura que Sena nos deixaria hoje.

Não a lição confortável dos escritores arrumados na estante.

Não a lição dos mortos domesticados por homenagens oficiais.

Mas a lição viva, incómoda, cortante: a liberdade não é uma cerimónia.

É uma exigência.

E Portugal, esse país que tanto gosta de falar da sua História, continua demasiadas vezes sem coragem para olhar de frente para a sua própria pequenez.

Nota Editorial

Esta crónica é uma leitura original e contemporânea da democracia portuguesa capturada, inspirada pela severidade moral, liberdade intelectual e relação crítica de Jorge de Sena com Portugal. Não pretende reproduzir literalmente a sua voz, mas dialogar com a tensão ética que atravessa parte da sua obra.

Jorge de Sena foi poeta, ficcionista, ensaísta, crítico, tradutor e professor universitário. Viveu o exílio no Brasil e nos Estados Unidos, depois de se ver envolvido em oposição à ditadura portuguesa, e manteve com Portugal uma relação intensa, amarga, lúcida e profundamente exigente.

Obras como O Reino da Estupidez, Sinais de Fogo e Os Grão-Capitães ajudam a compreender a dimensão crítica de Sena perante a mediocridade, a opressão, a hipocrisia social e os vícios portugueses que não desaparecem apenas porque muda o regime.

A democracia não se defende venerando palavras. Defende-se impedindo que elas sejam ocupadas por interesses, carreiras, medo, clientelas e respeitabilidades sem carácter.

Referências sobre Jorge de Sena e Portugal

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
FC-Chronic-News


🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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