As Tribos Partidárias, a Pobreza Administrada e o Apelo à Cidadania
BOX DE FACTOS
- A Reuters noticiou que, nas legislativas portuguesas de 2025, o Chega obteve uma votação recorde e se afirmou como força central da oposição parlamentar.
- O Guardian e o El País também assinalaram a subida da direita radical portuguesa e a quebra do antigo domínio alternado entre os partidos tradicionais.
- A Transparency International atribui a Portugal 56 pontos em 100 no Índice de Percepção da Corrupção, colocando o país na 46.ª posição entre 182 países.
- Dados do Eurostat mostram que a pobreza e a exclusão social continuam a afectar uma parte significativa da população portuguesa.
- O Eurobarómetro sobre corrupção mostra uma percepção alargada, na União Europeia, de corrupção nas instituições públicas e nos partidos políticos.
As Tribos Partidárias, a Pobreza Administrada e o Apelo à Cidadania
Há momentos em que a política portuguesa parece uma comédia de má qualidade representada por actores que esqueceram o texto, mas continuam convencidos de que estão em palco por direito divino. As tribos partidárias acusam-se, insultam-se, teatralizam a indignação, apontam dedos umas às outras e fingem espanto diante do estado do país, como se não tivessem passado décadas a governá-lo, alternadamente, com solenidade, incompetência e uma assinalável capacidade para sobreviver aos próprios desastres.
É doloroso observar este comportamento tribal entre partidos que se degladiam há décadas por ocupar o poder. Uns acusam os outros de irresponsabilidade. Os outros acusam os primeiros de falta de ética. Todos se apresentam como virgens ofendidas da República, esquecendo convenientemente que a República tem sido, demasiadas vezes, a sala comum onde se sentam, comem, distribuem lugares e fingem estranheza perante a pobreza que administraram.
Apresentam-se sempre como se não fossem os mesmos partidos, as mesmas famílias políticas, as mesmas redes de influência e os mesmos mecanismos de ocupação do Estado que, há mais de quarenta anos, governam em alternância “democrática” a pobreza persistente em Portugal.
O país real, entretanto, continua cá fora. Com salários baixos, serviços públicos frágeis, justiça lenta, habitação inacessível, jovens a emigrar, velhos abandonados, empresas esmagadas por burocracia e impostos, e cidadãos a assistir à eterna dança de salão das culpas trocadas. É bonito. Um bailado nacional de mediocridade, com música paga pelo contribuinte.
A alternância que administrou a decadência
A democracia portuguesa trouxe liberdade política, e isso deve ser defendido sem hesitação. Mas liberdade política não basta quando o sistema se transforma num condomínio fechado de interesses, carreiras partidárias, aparelhos, clientelas, consultorias, nomeações, favores e impunidades.
Durante décadas, Portugal viveu sob a promessa de modernização. Modernizaram-se discursos, fachadas, rotundas, logótipos, gabinetes e brochuras. Mas o essencial ficou demasiadas vezes por fazer: produtividade, justiça eficiente, educação exigente, indústria moderna, soberania tecnológica, instituições limpas, mérito real e cultura de responsabilidade.
O resultado está à vista. Portugal continua a ser um país onde demasiadas pessoas trabalham muito para viver mal, onde os jovens qualificados são frequentemente empurrados para fora, onde o elevador social avaria nos andares de baixo e onde os partidos falam em futuro com a mesma facilidade com que esquecem o passado.
O problema não é apenas económico. É moral, institucional e cultural.
Um país pode ser pobre durante algum tempo por falta de recursos. Mas quando permanece pobre apesar de décadas de fundos europeus, integração internacional, talento humano e oportunidades perdidas, então a pobreza deixa de ser destino e passa a ser sintoma de governação falhada.
A indignação que alimenta os extremos
Depois, naturalmente, os mesmos que administraram este cansaço mostram-se surpreendidos quando uma parte do povo se vira para forças de protesto, incluindo a ultra-direita. Ficam chocados, escandalizados, moralmente perturbados, quase ofendidos pela falta de gratidão dos cidadãos. É comovente. Quase tão comovente como um incendiário admirado com o cheiro a fumo.
A subida da direita radical em Portugal não caiu do céu. Não nasceu apenas de manipulação, redes sociais ou ressentimento abstracto. Nasceu sobretudo da sensação, justa ou injusta, de que o sistema tradicional se protege a si próprio, raramente presta contas, fala de ética enquanto convive com impunidade e pede paciência a quem já viveu pacientemente demais.
Quando o cidadão comum vê corrupção, favorecimentos, negócios mal explicados, nomeações partidárias, bancos resgatados, serviços públicos degradados e políticos a tratarem-se como adversários no parlamento mas como colegas de clube nos bastidores, a confiança apodrece.
E quando a confiança apodrece, crescem os discursos mais duros.
Isto não significa que a ultra-direita seja solução. Não é. Muitas vezes é apenas a doença com megafone, bandeira e simplificação moral. Mas o seu crescimento é um aviso. E os avisos ignorados tornam-se, mais tarde, crises.
A democracia não deve responder a esse aviso com arrogância. Deve responder com reforma, verdade, coragem e prestação de contas.
A falência do pensamento crítico
O que falta em Portugal não é apenas dinheiro. Falta bom-senso. Falta integridade. Falta pensamento crítico. Falta a coragem simples de olhar para a realidade sem pedir autorização ao partido, à tribo, à ideologia ou ao chefe de fila.
O tribalismo político é uma das grandes misérias da nossa democracia. O militante tribal não pensa: alinha. Não pergunta: repete. Não investiga: acredita. Não procura verdade: procura munições para atacar o adversário. É uma forma de religião menor, com cartazes, autocolantes e menos metafísica.
À esquerda, há quem veja sempre virtude na sua tribo e perversidade na tribo adversária. À direita, o mesmo espectáculo, apenas com outras cores, outros santos e outras liturgias. No centro, muita gente fala de responsabilidade enquanto gere a continuidade do mesmo pântano com sapatos limpos.
Mas a cidadania verdadeira começa quando deixamos de perguntar “o que diz o meu partido?” e começamos a perguntar “isto é justo, é sério, é competente, é verdadeiro, serve o país?”.
Esta pergunta, aparentemente simples, é revolucionária em Portugal. Talvez por isso seja tão pouco usada.
A impunidade como veneno democrático
Nenhuma democracia resiste indefinidamente à sensação de que há cidadãos comuns sujeitos à lei e elites habituadas à excepção. A impunidade é mais corrosiva do que a pobreza, porque a pobreza gera sofrimento, mas a impunidade gera desprezo.
Quando os portugueses sentem que há processos que se arrastam, responsabilidades que se evaporam, escândalos que desaparecem no nevoeiro, carreiras que sobrevivem a todos os fracassos e incompetentes que continuam a subir, o pacto democrático enfraquece.
Uma democracia não é apenas votar de quatro em quatro anos. Isso é o mínimo. Democracia é confiança nas instituições. É justiça funcional. É transparência. É mérito. É responsabilidade. É possibilidade real de mudar políticas, pessoas e práticas. É o cidadão sentir que a República não é propriedade de aparelhos partidários.
Quando esta confiança desaparece, os discursos autoritários tornam-se mais sedutores. Prometem ordem onde há caos, castigo onde houve impunidade, força onde houve cobardia. O perigo é que, muitas vezes, trazem também simplificação, perseguição, intolerância e novos abusos.
Por isso, o combate à corrupção, à impunidade e ao clientelismo não é apenas uma questão moral. É uma questão de sobrevivência democrática.
Um apelo à cidadania adulta
Portugal precisa urgentemente de uma cidadania adulta. Não de claques. Não de devotos partidários. Não de indignados sazonais. Não de consumidores de propaganda. Precisa de cidadãos que leiam, comparem, questionem, exijam, fiscalizem e recusem ser tratados como rebanho eleitoral.
Ser cidadão não é apenas votar. É acompanhar. É perguntar. É exigir contas. É desconfiar de discursos demasiado fáceis. É não aceitar que a corrupção seja “normal”. É não tolerar que a pobreza seja tratada como paisagem. É não permitir que a incompetência se esconda atrás de slogans. É não trocar liberdade por raiva, nem justiça por vingança.
O país não será salvo por uma tribo contra outra. Será salvo, se ainda for, por cidadãos que recusem todas as tribos quando elas mentem, falham, protegem os seus e insultam a inteligência do povo.
Não precisamos de messias partidários. Precisamos de instituições decentes, justiça rápida, escolas exigentes, serviços públicos competentes, economia produtiva, empresas criadoras de valor, políticas de longo prazo e uma cultura pública onde a vergonha ainda tenha alguma utilidade.
Sim, vergonha. Essa palavra antiga, hoje quase arqueológica. A vergonha de falhar. A vergonha de mentir. A vergonha de prometer o que não se cumpre. A vergonha de enriquecer à sombra do Estado. A vergonha de tratar o país como quinta privada. A vergonha de deixar gerações inteiras sem futuro e depois aparecer na televisão a falar em “responsabilidade”.
Portugal não precisa de mais tribos. Precisa de consciência.
O grande perigo do nosso tempo não é apenas a ascensão dos extremos. É a mediocridade do centro que os alimenta. É a corrupção que os legitima. É a impunidade que lhes dá combustível. É a pobreza administrada que lhes oferece audiência. É a ausência de pensamento crítico que lhes abre a porta.
As forças democráticas tradicionais não podem limitar-se a acusar o povo de votar mal. Devem perguntar por que razão tantos cidadãos deixaram de acreditar nelas. Devem olhar para dentro. Devem limpar a casa. Devem abandonar a soberba. Devem provar, por actos e não por sermões, que merecem confiança.
E os cidadãos, por sua vez, não podem entregar o futuro a quem apenas grita mais alto. A raiva pode ser compreensível. Mas a raiva não chega para governar. A raiva denuncia. Não constrói, por si só, escolas melhores, hospitais funcionais, justiça eficiente, empresas produtivas ou instituições decentes.
A cidadania madura deve ser mais exigente do que a propaganda. Deve ser mais inteligente do que a tribo. Deve ser mais persistente do que o escândalo do dia. Deve ser livre o suficiente para criticar todos, incluindo aqueles de quem se gosta. Sobretudo esses.
Epílogo: a lucidez como dever patriótico
Portugal não está condenado. Mas também não será salvo por discursos, promessas, alternâncias gastas ou milagres eleitorais. Será salvo, se houver salvação, por uma ruptura cívica profunda: mais exigência, mais verdade, mais competência, mais integridade e menos servidão tribal.
É tempo de deixar de perguntar quem “ganhou” o debate partidário da semana. A pergunta séria é outra: quem está disposto a servir o país sem o capturar? Quem aceita prestar contas? Quem defende o mérito? Quem combate a corrupção sem olhar à cor partidária? Quem tem coragem de dizer a verdade mesmo quando ela prejudica a sua tribo?
Enquanto estas perguntas não forem centrais, continuaremos presos ao mesmo teatro: partidos a acusarem-se, comentadores a gritarem, cidadãos a empobrecerem, jovens a partir, serviços a falhar e o país a fingir que está apenas numa fase difícil.
Não está apenas numa fase difícil. Está há demasiado tempo numa fase conveniente para demasiada gente.
Por isso, este é um apelo simples: pensemos. Exijamos. Fiscalizemos. Recusemos a mentira confortável. Recusemos a corrupção normalizada. Recusemos a tribalização da inteligência. Recusemos a pobreza como destino.
Portugal precisa de cidadãos, não de claques.
Precisa de consciência, não de fanatismo.
Precisa de integridade, não de piropos partidários.
Precisa, acima de tudo, de pensamento crítico. Essa pequena luz perigosa que ainda pode impedir o país de continuar a caminhar, muito ordeiramente, para a sua própria irrelevância.
Referências internacionais
-
Reuters — Portugal’s far-right Chega surges as ruling party misses majority:
Reuters -
The Guardian — Far-right Chega party becomes main opposition in Portugal’s parliament:
The Guardian -
El País — El voto del exterior convierte a la ultraderecha en el segundo partido de Portugal:
El País -
Transparency International — Portugal, Corruption Perceptions Index:
Transparency International -
Eurostat — Persons at risk of poverty or social exclusion:
Eurostat -
European Commission / Eurobarometer — Citizens’ attitudes towards corruption in the EU:
Eurobarometer
Nota editorial: Este artigo não é um apelo contra a democracia representativa nem contra a existência de partidos. É precisamente o contrário: é um apelo para que a democracia deixe de ser capturada por tribos partidárias, redes de impunidade, carreiras fechadas e propaganda permanente. A democracia só sobrevive se os cidadãos forem mais exigentes do que os aparelhos que dizem representá-los.
Texto:
Francisco Gonçalves
Com apoio editorial de : Augustus Veritas.


