Porque Escrevemos: A Nau Ainda Range ao Vento
Porque escrevemos
Escrevemos porque há países que adormecem lentamente, embalados por discursos,
promessas e pequenas resignações diárias.
Escrevemos para acender uma lanterna no nevoeiro, mesmo sabendo que o nevoeiro
não gosta de luz.
Escrevemos porque a memória precisa de voz, a indignação precisa de forma
e a esperança precisa de não ser abandonada aos contabilistas do impossível.
Não escrevemos para agradar.
Escrevemos para pensar.
Para ferir a mentira com palavras limpas.
Para lembrar que uma nação sem dúvida, sem crítica e sem imaginação acaba sempre
em manutenção sem tempo.
Escrevemos porque ainda há madeira na nau.
E porque, enquanto ela ranger ao vento,
talvez Portugal ainda possa voltar ao mar.
Nós somos Fragmentos do Caos.
Escrevemos entre a ruína e a esperança,
entre o nevoeiro e a lanterna,
entre a ferida antiga de Portugal
e a teimosia luminosa de ainda acreditar no mar.


