A política como profissão: começam nas juventudes partidárias, morrem no poder. O país real, esse, fica à porta
📷 A política como profissão: começam nas juventudes partidárias, morrem no poder. O país real, esse, fica à porta.
A casta que nunca saiu do regime: políticos profissionais, país amador
Ensaio sobre a profissionalização da política, o divórcio entre os governantes e a sociedade real, e o desastre que essa desconexão provocou em Portugal
Em Portugal, a política deixou de ser um serviço temporário à comunidade para se transformar numa profissão vitalícia, blindada e auto-reprodutível. O percurso é invariável: entram nas juventudes partidárias ainda na adolescência, sobem nas estruturas internas, conquistam um lugar na administração pública, elegem-se para o parlamento ou para uma câmara municipal, e ali ficam décadas. Não há experiência empresarial. Não há trabalho no terreno, na sociedade civil, na economia real. Nunca geriram uma folha de salários, nunca enfrentaram uma falência, nunca tiveram de cumprir um horário ou responder a um cliente. A única realidade que conhecem é a do partido, do Estado e da promiscuidade entre ambos. O resultado está à vista: um país desgovernado, divorciado das necessidades reais dos cidadãos, onde as reformas urgentes são adiadas e a mediocridade é a regra.
Esta casta política não é de direita ou de esquerda. É transversal. PS, PSD, CDS, PCP, BE, a que se juntou o Chega — todos praticam o mesmo modelo de recrutamento endogâmico, que privilegia a militância precoce e a obediência ao partido em detrimento da competência técnica ou da experiência de vida. O sistema partidário tornou-se uma fábrica de políticos de carreira, que se alimenta a si própria, que decide quem sobe e quem desce, que distribui benesses e lugares. E o cidadão, o eleitor, o contribuinte — esse, é apenas o financiador involuntário deste clube fechado.
🎬 Pondé: a farsa do politicamente correcto é irmã da farsa da classe política que só fala para dentro.
O recrutamento endogâmico: das juventudes ao parlamento sem passar pela vida real
👶 A creche dos políticos: as juventudes partidárias
O primeiro degrau da carreira política em Portugal é quase sempre o mesmo: as juventudes partidárias. Jovens de 16, 17, 18 anos são recrutados, formados, doutrinados. Aprendem a linguagem do partido, os seus rituais, as suas lealdades. Não aprendem a gerir uma empresa, a liderar uma equipa em situação de crise, a conciliar interesses contraditórios no terreno. Aprendem, isso sim, a obedecer e a fazer carreira. Quem se destaca é promovido. Quem questiona, fica para trás. O sistema auto-selecciona os conformistas, os obedientes, os que nunca terão uma ideia original ou uma coragem inesperada.
🏛️ A administração pública como quintal do partido
Assim que terminam os estudos — ou mesmo antes — os militantes promissores são colocados em cargos na administração pública. Assessorias, direcções de departamento, gabinetes ministeriais. Não precisam de concurso, não precisam de currículo, não precisam de mérito. Precisam apenas da cunha certa. E a cunha é o partido. O Estado torna-se, assim, uma máquina de empregar militantes, de os manter na folha de pagamentos enquanto aguardam a sua vez. A despesa pública dispara. A qualidade dos serviços definha. Mas o partido agradece.
• 68% dos deputados portugueses nunca tiveram uma profissão fora da política ou da função pública.
• 12 anos é a média de permanência de um deputado na Assembleia da República.
• 30% dos administradores públicos foram nomeados sem concurso público, por critérios partidários.
• 0% de verdadeira renovação geracional — os mesmos rostos, os mesmos nomes, há décadas.
As consequências do divórcio: um país gerido por amadores
Economia: Quem nunca geriu uma empresa não pode entender as dificuldades do sector privado. Os políticos profissionais legislam sobre impostos, burocracia, laboral, sem nunca terem sentido na pele o que é pagar um salário ou cumprir uma obrigação fiscal. O resultado são leis irrealistas, cargas fiscais sufocantes e uma hostilidade crónica ao empreendedorismo.
Saúde e Educação: Quem nunca trabalhou num hospital ou numa escola não pode saber o que realmente funciona. Os políticos profissionais, sentados nos seus gabinetes, desenham reformas abstractas, baseadas em ideologia, não em evidência. E o SNS agoniza. E a escola pública definha. E eles, confortáveis, renovam o mandato.
Justiça: Quem nunca enfrentou um processo judicial não pode entender a morosidade, o custo, a humilhação. Os políticos profissionais nomeiam juízes, aprovam códigos, mas blindam-se a si próprios com foros especiais. A justiça para o comum dos mortais é uma lotaria. Para eles, é um problema gerido entre pares.
Como quebrar o monopólio da casta (medidas concretas)
O papel do cidadão: exigir políticos com currículo, não com cunha
A mudança não virá de dentro da casta. Os seus membros não vão votar contra os seus privilégios. A mudança terá de vir da exigência popular:
• Votar em candidatos com experiência real fora da política — empresários, gestores, agricultores, médicos, professores, engenheiros. Pessoas que tenham vivido o país real.
• Exigir currículos públicos — todos os candidatos a cargos políticos devem publicar o seu percurso profissional antes do partido.
• Apoiar movimentos cívicos independentes que se apresentem a eleições com listas abertas e mandatos de curta duração.
• Boicotar partidos onde a renovação é nula e os mesmos rostos se perpetuam há décadas.
• Falar, partilhar, organizar — quebrar o conformismo que aceita a política como profissão.
Enquanto os eleitores continuarem a votar nos mesmos, nos que vivem do Estado, nos que nunca sujaram as mãos, o sistema manter-se-á. A casta política só será desmantelada quando o povo deixar de a legitimar. A mudança começa nas urnas — mas também na exigência diária, na indignação organizada, na recusa em aceitar o inaceitável.
✍️ Ensaio publicado em Fragmentos do Caos — cidadania, Portugal e o mundo. Texto em português de Portugal (AO 1990). Partilha livre com citação da fonte e do autor.


