O grande defeito dos intelectuais portugueses tem sido sempre o só lidarem com intelectuais.” — Agostinho da Silva
📷 “O grande defeito dos intelectuais portugueses tem sido sempre o só lidarem com intelectuais.” — Agostinho da Silva
A traição dos intelectuais: como o pensamento crítico foi capturado pelo regime
Ensaio sobre a intelectualidade portuguesa, a sua dependência confortável do poder e o divórcio fatal com o povo, na óptica de Agostinho da Silva
Há um vício de origem na nossa elite pensante que Agostinho da Silva diagnosticou com precisão cirúrgica e que continua mais actual do que nunca. O nosso pensamento crítico nasceu aleijado. Não por falta de inteligência ou de erudição, mas por uma profunda incapacidade de se ligar à vida real do país. Esta falha estrutural é uma das principais razões para o estado de letargia em que Portugal se encontra, onde a cidadania é uma palavra vazia e o povo, desamparado, refugia-se na indiferença.
Agostinho da Silva, ele próprio um intelectual livre e incómodo que viveu no exílio, apontou o dedo à ferida. O seu diagnóstico implacável revela que os nossos “pensadores” se tornaram, muitas vezes, meros decoradores do status quo, ou pior, cúmplices activos de um regime de cartel, onde o poder e o saber dançam uma promíscua valsa. O resultado é o que vemos: um povo que desistiu de acreditar e uma democracia que respira por aparelhos.
🎬 Pondé: a farsa do politicamente correcto é irmã gémea da farsa dos intelectuais que se limitam a dialogar entre si, alimentando o sistema em vez de o confrontar.
A captura do pensamento: intelectuais orgânicos do regime
🗣️ O diálogo surdo entre iguais
Agostinho da Silva, com a sua lucidez característica, alertou-nos: “O grande defeito dos intelectuais portugueses tem sido sempre o só lidarem com intelectuais.” Esta frase é um golpe de misericórdia na nossa pretensa “república das letras”. Significa que a nossa intelligentsia se fechou numa torre de marfim, entretida em discussões conceptuais estéreis, medindo forças em jogos de poder académico, definindo códigos de conduta que só a si mesma interessam.
Enquanto isso, no mundo real, o povo luta pela sobrevivência, a corrupção corrói as instituições e a esperança definha. Estes “pensadores” tornam-se, assim, os sacerdotes de uma religião vazia, onde o rito importa mais do que a salvação dos fiéis. São os arautos de um regime que precisa de intelectuais dóceis para validar a sua existência, em troca de lugares no panteão da fama efémera, das comissões de vencimentos chorudos ou da simples manutenção do seu lugar confortável à sombra do poder.
🏛️ A dança macabra com o poder
O sistema político, que tantas vezes descrevemos como um cartel fechado, percebeu a utilidade desta intelectualidade servil. Convidam-nos para as comissões de estudo, para os conselhos nacionais de tudo e de nada, para os painéis da televisão pública onde o contraditório é uma encenação. Em troca, estes “pensadores” oferecem um manto de legitimidade científica ou cultural para as decisões já tomadas nas cúpulas do poder. Raros são os que se mantêm livres. A maioria alinha-se com o partido da moda, recebe convites para conferências, aparece nos ecrãs, escreve artigos de encomenda. A oposição a este regime de cartel é residual e sistematicamente marginalizada.
• Abstenção eleitoral recorde: Mais de 40% dos portugueses não votam nas legislativas. Nas europeias, ultrapassa os 60%.
• Declínio da confiança nas instituições: Parlamento, governo, justiça, media — todas registam níveis de confiança abaixo dos 50%.
• Ascensão do populismo: A intelligentsia falhou na sua missão de explicar o mundo de forma acessível.
• Fuga de cérebros: Os melhores, que poderiam ser a nova geração de pensadores livres, são forçados a emigrar. Ficam os dependentes do sistema.
As consequências do vácuo: onde está a cidadania?
O resultado do divórcio entre os intelectuais e o povo não podia ser mais desastroso: uma cidadania anestesiada. Sem referências claras, sem um discurso mobilizador que ajude a decifrar a complexidade do mundo, os cidadãos refugiam-se na indiferença. A política, despida da sua aura nobre pelos próprios “especialistas” que a apresentam como um negócio sujo e imutável, deixa de ser um campo de luta e passa a ser um incómodo. E neste vazio, as tentações autoritárias ganham espaço.
A democracia, para Agostinho da Silva, não é um estado de espírito. É um exercício diário de participação, de escuta e de construção colectiva. “Uma democracia madura é uma democracia que escuta.” Mas como pode a democracia escutar se os seus arautos só falam para dentro? Se os intelectuais, que deveriam ser a sua voz crítica, se transformaram num coro de afiliados?
O caminho (se é que existe): regressar à essência e ao povo
Conclusão: a traição de uma classe e a esperança de um povo
Agostinho da Silva foi, ele próprio, a antítese deste modelo. Exilou-se, recusou os lugares cimeiros do poder quando os viu corrompidos, e colocou o seu saber ao serviço da comunidade. A sua vida e obra são um libelo contra os intelectuais de engate, os comentadores de serviço, os pensadores de araújo. A sua crítica é um convite permanente à rebeldia, à desobediência e ao amor pela verdade — que ele sabia ser uma busca infinita e não uma posse.
Portugal precisa, com urgência, de uma nova geração de pensadores livres que encarnem este espírito. Que não tenham medo de perder o lugar na televisão ou a amizade do poder. Enquanto a nossa intelectualidade permanecer acorrentada à sua torre de marfim, a servir de escudo ao sistema, o povo continuará anestesiado e a democracia, uma farsa. O despertar para uma cidadania plena e activa só será possível quando houver quem tenha a coragem de, nas palavras do mestre, “pensar todo o pensável” e, sobretudo, partilhá-lo e vivê-lo na praça pública.
O sistema político em Portugal é julgado pelo povo, mas só é condenado quando o povo deixa de aceitar ser testemunha intimidada da sua própria exploração.
Francisco Gonçalves
✍️ Ensaio publicado em Fragmentos do Caos — cidadania, Portugal e o mundo. Texto em português de Portugal (AO 1990). Partilha livre com citação da fonte e do autor.


