Democracia e Sociedade

Os Intelectuais de Aquário e o Espírito Crítico que Ficou à Porta

Spread the love











BOX DE FACTOS

  • A democracia necessita de espírito crítico como o corpo necessita de oxigénio.
  • Uma parte da intelectualidade portuguesa transformou-se em ornamento do regime.
  • Agostinho da Silva representa uma visão livre, criadora e profundamente heterodoxa do pensamento.
  • O verdadeiro intelectual não serve o poder: serve a liberdade.
  • Uma democracia sem imaginação corre o risco de se transformar numa repartição iluminada.

Os Intelectuais de Aquário e o Espírito Crítico que Ficou à Porta

Há países que produzem pensamento. Outros produzem comentadores. Portugal, com o seu antigo talento para transformar tragédia em protocolo e mediocridade em carreira, tem vindo a especializar-se numa espécie curiosa: o intelectual domesticado.

Não é exactamente o sábio, porque o sábio incomoda. Não é exactamente o pensador, porque o pensador abre janelas onde o poder prefere cortinas. Também não é propriamente o filósofo, porque a filosofia exige coragem, solidão e risco.

É antes uma figura híbrida, cuidadosamente cultivada nos jardins húmidos da democracia parlamentar, alimentada a subsídios, colunas de jornal, lugares em fundações, painéis televisivos e convites para conferências onde todos discordam moderadamente para que nada verdadeiramente mude.

É o intelectual de aquário.

Nada contra os aquários, note-se. Têm água, vidro, peixinhos coloridos e uma certa aparência de vida. Mas falta-lhes o mar.

E Agostinho da Silva, esse espírito que nunca coube bem nas gaiolas administrativas da inteligência nacional, teria talvez olhado para esta fauna com aquela mistura de ternura, ironia e desobediência espiritual que o caracterizava.

Para ele, pensar não era servir uma ordem estabelecida. Pensar era libertar. Era abrir caminho para que cada homem pudesse ser mais do que funcionário da sobrevivência, mais do que peça obediente da máquina económica, mais do que eleitor chamado de quatro em quatro anos a validar a continuidade do mesmo cansaço.

Na sua visão, o homem não nascia para rastejar dentro dos organigramas. Nascia para criar.

A intelectualidade como ornamento do regime

Uma democracia saudável precisa de espírito crítico como o corpo precisa de oxigénio. Sem ele, a liberdade transforma-se em decoração institucional. Há parlamentos, há eleições, há debates, há comentadores, há universidades, há comissões, há observatórios, há relatórios. Tudo existe. Tudo funciona. Tudo parece impecável visto de longe.

Mas, quando se olha de perto, percebe-se que muita desta actividade é apenas movimento sem deslocação. Um bailarico burocrático à volta da mesma fogueira apagada.

A intelectualidade que gravita em torno dos pilares desta democracia raramente questiona os alicerces. Questiona pormenores, estilos, protagonistas, episódios e escândalos passageiros. Mas evita a pergunta essencial: e se o próprio modelo estiver gasto, capturado, empobrecido e espiritualmente esgotado?

Essa pergunta é perigosa. Não dá lugares. Não dá prémios. Não dá convites para almoços institucionais. Não encaixa bem nos suplementos culturais nem nos seminários financiados por quem prefere a crítica desde que ela venha vacinada contra consequências.

Assim, criou-se uma classe de intelectuais com espinha dorsal flexível, pensamento elegante e prudência de funcionário. Falam de liberdade, mas dentro dos limites autorizados. Defendem a democracia, mas confundem-na com o actual regime de interesses. Falam do povo, mas raramente suportam o cheiro real da sua vida. Usam a palavra cidadania como quem usa ambientador numa sala onde há décadas não se abre uma janela.

Agostinho da Silva e a liberdade indomável

Agostinho da Silva não caberia facilmente nesta democracia de gabinetes, pareceres e reverências. Era demasiado livre. Demasiado imprevisível. Demasiado perigoso para a paz dos conformados.

A sua ideia de Portugal não era a de um país resignado, funcionário, pequeno na ambição e grande na papelada. Era a de uma possibilidade espiritual, cultural e criadora. Um país capaz de imaginar uma vida mais alta, não apenas uma estatística menos vergonhosa.

Para Agostinho, o verdadeiro intelectual não era o que explicava ao povo porque tinha de aceitar o mundo tal como ele é. Era o que ajudava o povo a descobrir que o mundo podia ser outro.

E aqui está a diferença entre o intelectual livre e o intelectual de regime.

O primeiro abre portas.
O segundo explica porque é que as portas devem continuar fechadas.

O primeiro inquieta.
O segundo anestesia.

O primeiro pergunta: que homem queremos criar?
O segundo pergunta: que ajustamento é possível dentro das circunstâncias?

O primeiro pensa em destino.
O segundo pensa em carreira.

O espírito crítico substituído pela opinião autorizada

Vivemos num tempo em que há excesso de opinião e escassez de pensamento. Todos opinam. Poucos pensam. A opinião é rápida, colorida, adaptável. O pensamento é lento, exigente, perigoso. A opinião serve para ocupar antena. O pensamento serve para desarrumar o mundo.

O espírito crítico, quando é verdadeiro, não se limita a criticar o adversário político. Isso é fácil. Qualquer papagaio ideológico o faz com treino suficiente e alpista televisivo.

O verdadeiro espírito crítico começa por desconfiar da própria tribo, do próprio conforto, da própria linguagem, dos próprios dogmas.

Mas a intelectualidade instalada raramente faz isso. Prefere a crítica previsível, tribal, higiénica. Uma crítica que parece incêndio, mas vem com seguro contra danos estruturais.

Critica-se o governo, mas não a dependência profunda do Estado.

Critica-se a corrupção, mas não a cultura de obediência que a permite.

Critica-se a pobreza, mas não o modelo económico que a recicla.

Critica-se a emigração jovem, mas não a mediocridade organizada que expulsa o talento.

Critica-se a falta de inovação, mas não o medo nacional da inteligência livre.

E assim vamos, entre conferências, painéis e editoriais, a fingir que pensamos enquanto o país se afunda numa espécie de sonolência respeitável.

A democracia sem imaginação

O maior crime de uma democracia não é apenas falhar na economia, na justiça ou na administração. O maior crime é perder a imaginação.

Uma democracia sem imaginação transforma cidadãos em utentes, escolas em fábricas de certificados, universidades em repartições de títulos, cultura em ornamento, política em gestão de clientelas e juventude em matéria-prima para exportação.

Foi isso que nos aconteceu em grande parte.

Portugal não morreu. Mas adormeceu em demasiados lugares. E muitos dos seus intelectuais, em vez de tocarem os sinos do despertar, especializaram-se em escrever belos textos sobre a qualidade do sono.

Agostinho da Silva talvez perguntasse: onde está o sonho? Onde está a ousadia? Onde está o homem livre? Onde está a criança que ainda pergunta porquê? Onde está o povo que não aceita ser apenas governado, mas deseja participar na criação do seu próprio destino?

Essas perguntas são hoje quase subversivas.

Não porque ataquem a democracia, mas porque revelam o quanto a democracia se tornou pequena perante aquilo que prometia ser.

O intelectual como servidor da liberdade

Um verdadeiro intelectual não deve ser capelão do poder, nem decorador moral do regime, nem gestor de consensos domesticados. Deve ser servidor da liberdade.

E servir a liberdade é, muitas vezes, recusar a comodidade. É dizer não quando todos sorriem. É perguntar quando todos aplaudem. É desmontar a mentira mesmo quando ela vem bem vestida, com gravata institucional e vocabulário progressista.

O intelectual digno desse nome não existe para ser agradável. Existe para ser necessário.

Não existe para confirmar o presente. Existe para o interrogar.

Não existe para seduzir o poder. Existe para impedir que o poder se transforme em religião.

Neste sentido, Agostinho da Silva continua a ser uma ameaça luminosa. Porque nos recorda que pensar é um acto espiritual de insubmissão. Que a cultura não é adorno, mas fermento. Que a educação não é domesticação, mas libertação. Que Portugal só será grande se deixar de confundir prudência com pequenez e realismo com resignação.

Faltam hereges do pensamento

O país não precisa de mais intelectuais de serviço. Já tem muitos. Estão bem distribuídos, bem acomodados e bem treinados na arte de parecerem inquietos sem nunca perturbarem verdadeiramente a ordem.

Portugal precisa de hereges do pensamento.

Precisa de homens e mulheres capazes de olhar para esta democracia cansada e dizer: isto não chega. Isto não basta. Isto não cumpre a promessa humana de liberdade, criação e dignidade.

Precisa de uma intelectualidade que não viva ajoelhada perante os pilares do regime, mas que pergunte se esses pilares ainda sustentam uma casa comum ou apenas seguram o telhado de uma velha máquina de conveniências.

Agostinho da Silva talvez dissesse que o futuro de Portugal não está nos prudentes, nos instalados, nos satisfeitos, nos administradores da decadência. Está nos que ainda ousam imaginar.

Porque um povo sem imaginação é apenas população. E uma democracia sem espírito crítico é apenas uma sala iluminada onde todos aprenderam a não ver.

Fragmentos do Caos

Texto de Francisco Gonçalves, com a colaboração editorial de Augustus Veritas.

Porque pensar ainda é uma forma de resistência. E imaginar continua a ser uma forma de liberdade.

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Contactos