A Tragédia Nacional em Modo de Comédia: Manual Prático Para Desgovernar Portugal
BOX DE FACTOS
- Portugal aperfeiçoou a nobre arte de transformar problemas graves em comissões, relatórios, promessas e conferências de imprensa.
- Quando uma instituição falha, raramente aparece um responsável; aparece antes uma “avaliação em curso”.
- Quando um sistema público não funciona, não se assume o fracasso: anuncia-se uma “nova fase de modernização”.
- Quando o cidadão sofre, espera ou paga, dizem-lhe que “o processo está a ser acompanhado”.
- Quando tudo corre mal, o país não entra em ruptura: entra em “fase de transição”.
- A tragicomédia portuguesa consiste em pagar caro por sistemas que prometem futuro, entregam constrangimentos e exigem nova verba para corrigir os constrangimentos anteriores.
A Tragédia Nacional em Modo de Comédia
Manual Prático Para Desgovernar Portugal
Há nações que se governam. Outras administram-se. Portugal, com a sua vocação lírica para o absurdo, descobriu uma terceira via: desgoverna-se com solenidade.
E fá-lo com método, persistência e um talento quase artístico. Não é qualquer país que consegue transformar cada problema estrutural numa peça de teatro em vários actos: primeiro o anúncio, depois o atraso, depois a falha, depois o inquérito, depois a comissão, depois o relatório, depois a verba adicional, depois a nova promessa, depois a nova falha. E, finalmente, a frase imortal: “é preciso tirar ilações”.
Portugal tira tantas ilações que, se as ilações fossem estradas, já teríamos uma auto-estrada directa até à Suíça, com área de serviço em Estocolmo.
Mas não. Temos antes filas no SNS, processos judiciais eternos, plataformas digitais que parecem desenhadas por funcionários castigados, escolas cansadas, reformas miseráveis, salários envergonhados, jovens a emigrar, idosos abandonados, sistemas críticos que falham e uma classe política que, perante tudo isto, surge em directo a explicar que “o Governo está atento”.
É reconfortante. O país pode estar a afundar, mas está a ser observado.
A arte superior de não ser responsável por nada
A primeira regra para desgovernar Portugal é simples: nunca ser responsável por aquilo que se decidiu.
Se o problema vem do governo anterior, herdou-se uma situação difícil. Se vem do actual, trata-se de uma complexidade inesperada. Se vem de uma empresa pública, é matéria de gestão. Se vem de uma administração, está em avaliação. Se vem de uma entidade reguladora, aguarda parecer. Se vem de um contrato, está protegido por cláusulas. Se vem de uma tragédia, exige serenidade.
E assim se constrói a magnífica roda da irresponsabilidade nacional: todos estiveram presentes, todos assinaram alguma coisa, todos discursaram muito, todos prometeram futuro, mas quando o resultado aparece no chão, ninguém reconhece a pegada.
Portugal não tem falta de responsáveis. Tem excesso de responsáveis que, por extraordinária coincidência, nunca são responsáveis pelo desastre.
É uma espécie rara de fauna política: o responsável irresponsável. Aparece nas inaugurações, desaparece nas auditorias.
O milagre português da modernização permanente
Portugal é um país sempre em modernização. Nunca está moderno, mas está sempre em modernização. É uma diferença subtil, mas essencial para a sobrevivência do regime.
Moderniza-se o SNS, moderniza-se a justiça, moderniza-se a administração pública, modernizam-se as escolas, modernizam-se os serviços, modernizam-se os portais, modernizam-se as redes, modernizam-se os sistemas, moderniza-se até a forma de anunciar que nada mudou.
A modernização portuguesa é como certas obras de casa: começa com entusiasmo, continua com pó, atrasa-se com explicações, encarece com surpresas e termina com uma tomada no sítio errado.
Quando uma plataforma pública não funciona, não se diz que está mal feita. Diz-se que está “em evolução”. Quando um sistema bloqueia, não se diz que é incompetente. Diz-se que “registou constrangimentos”. Quando o cidadão perde horas, dias ou meses, não se diz que foi maltratado. Diz-se que “o processo segue os seus trâmites”.
Os trâmites são, aliás, uma das grandes criações metafísicas da administração portuguesa. Ninguém os vê, ninguém os compreende, mas todos lhes obedecem.
O PowerPoint como instrumento de governação
Em Portugal, qualquer reforma começa com um PowerPoint. Sem PowerPoint não há visão. Sem visão não há anúncio. Sem anúncio não há notícia. Sem notícia não há sensação de governação.
A política portuguesa descobriu que o PowerPoint tem uma qualidade extraordinária: nele, tudo funciona. Os prazos cabem em rectângulos. Os problemas cabem em setas. As soluções aparecem em caixas coloridas. A realidade não interrompe. Os cidadãos não reclamam. Os sistemas não bloqueiam. As urgências não fecham. As antenas não caem. Os tribunais não atrasam. Os idosos não esperam.
O PowerPoint é o país idealizado pelo gabinete.
Depois vem a execução, essa criatura desagradável, e estraga tudo.
Mas não faz mal. Quando a execução falha, faz-se outro PowerPoint sobre a necessidade de reforçar a execução. É a circularidade perfeita da incompetência com grafismo elegante.
A comissão: esse bálsamo da alma nacional
Quando a coisa corre muito mal, Portugal cria uma comissão.
A comissão é uma espécie de aspirina institucional. Não cura a doença, mas baixa a febre mediática. Dá tempo, produz linguagem, convoca especialistas, recolhe contributos, apresenta recomendações e permite que todos pareçam ocupados com a resolução do problema.
Depois a comissão escreve um relatório. O relatório é apresentado com gravidade. Todos concordam que é um documento importante. O Governo agradece. O Parlamento debate. Os comentadores comentam. Os jornais resumem. O cidadão suspira.
Passados uns meses, ninguém sabe onde está o relatório.
Mas isso não é grave, porque se houver nova falha, cria-se nova comissão. Portugal é muito sustentável: recicla relatórios.
A “fase de transição”, esse lar doce lar da República
Portugal vive em fase de transição há décadas. Está sempre a transitar. Transita na saúde, transita na justiça, transita na educação, transita na economia, transita na administração pública, transita nas comunicações de emergência, transita nas ferrovias, transita nos aeroportos, transita nas reformas, transita nas promessas.
Somos um país em trânsito permanente, mas sem destino claro.
A fase de transição é muito útil. Permite explicar porque o sistema antigo já não serve, mas o novo ainda não chegou. Permite gastar no antigo enquanto se prepara o novo. Permite anunciar o novo enquanto se remenda o antigo. Permite descobrir, anos depois, que afinal o novo também já nasceu velho.
É uma maravilha conceptual. A transição nunca falha, porque nunca termina.
Portugal não é propriamente governado. É transitado.
A tragédia dos fracos e o conforto dos fortes
A parte menos cómica desta comédia é que quem paga a factura raramente está sentado nos conselhos de administração, nos gabinetes ministeriais ou nas mesas onde se distribuem lugares.
Quem paga é o cidadão comum. O doente que espera. O idoso que desespera. O trabalhador que ganha pouco. O jovem que emigra. A família que não encontra casa. O contribuinte que financia sistemas que não funcionam. O bombeiro que precisa de comunicação no terreno. O professor que tenta ensinar num país distraído. O funcionário sério que trabalha dentro de uma máquina absurda. O empresário honesto que compete contra a burocracia e contra redes bem instaladas.
O Estado falha, mas não falha por igual.
Para os fortes, há sempre contactos, atalhos, gabinetes, conhecimento interno, advogado certo, assessor conveniente, telefonema oportuno e solução discreta.
Para os fracos, há senha, fila, portal, prazo, indeferimento, nova senha e “aguarde, por favor”.
É aqui que a comédia deixa de ser divertida. Porque o riso, quando toca nos mais vulneráveis, transforma-se em acusação.
O cidadão como figurante da sua própria democracia
De quatro em quatro anos, o cidadão é convidado a participar na grande cerimónia democrática. Vota, regressa a casa, liga a televisão e descobre que o país continuará a ser administrado por estruturas que raramente lhe prestam contas de forma séria.
Durante a campanha, o cidadão é soberano. Depois da tomada de posse, passa a utente.
É uma descida social notável: de dono da República a número de processo.
A democracia portuguesa tem esta característica curiosa: fala muito do povo, mas raramente suporta cidadãos exigentes. O povo é útil enquanto conceito. Fica bem nos discursos. Serve para frases patrióticas, campanhas eleitorais, inaugurações e momentos de comoção nacional.
Mas o cidadão concreto — aquele que pergunta, exige, fiscaliza, reclama, lê documentos, desmonta propaganda e quer saber onde foi parar o dinheiro — esse já é mais aborrecido.
O regime gosta do povo em abstracto. O cidadão em concreto dá muito trabalho.
A grande indústria da desculpa
Portugal podia exportar desculpas. Temos variedade, tradição e qualidade artesanal.
Há a desculpa herdada: “vem de governos anteriores”. Há a desculpa climática: “foi uma situação excepcional”. Há a desculpa técnica: “houve uma anomalia”. Há a desculpa processual: “está em análise”. Há a desculpa europeia: “Bruxelas exige”. Há a desculpa financeira: “não há margem”. Há a desculpa temporal: “é preciso tempo”. Há a desculpa patriótica: “não devemos fazer aproveitamento político”.
Esta última é particularmente deliciosa. Sempre que o desastre é político, alguém aparece a dizer que não se deve fazer aproveitamento político. Ou seja: quando a política falha, convém não politizar a falha política. Um primor lógico digno de estudo em seminário avançado de malabarismo moral.
Em Portugal, a desculpa não é uma reacção. É uma instituição.
O país dos anúncios solenes e dos resultados tímidos
Nenhum país anuncia tanto futuro com tão pouco embaraço perante o passado.
Anuncia-se a reforma da saúde, mas o doente espera. Anuncia-se a reforma da justiça, mas o processo envelhece. Anuncia-se habitação acessível, mas a renda sobe. Anuncia-se valorização salarial, mas o trabalhador continua pobre. Anuncia-se desburocratização, mas o cidadão continua perdido entre portais. Anuncia-se modernização tecnológica, mas os sistemas continuam a pedir documentos que o próprio Estado já tem.
A política portuguesa vive de uma esperança fotogénica. O anúncio tem sempre boa luz. O resultado aparece em cave húmida.
E quando alguém pergunta pelo resultado, surge a resposta clássica: “estamos no caminho certo”.
Portugal está há tanto tempo no caminho certo que talvez fosse útil verificar se não entrámos numa rotunda.
A moralidade elástica dos instalados
Outra maravilha nacional é a moralidade elástica. Estica quando convém, encolhe quando incomoda.
Quando um cidadão falha um prazo, o Estado é implacável. Quando uma instituição falha durante anos, o Estado é compreensivo. Quando um trabalhador se engana, paga. Quando um sistema público consome milhões e não entrega o prometido, cria-se contexto.
O contexto é primo da desculpa. Vive em gabinetes, alimenta-se de complexidade e reproduz-se em relatórios.
Os instalados raramente erram. São vítimas de circunstâncias, ciclos, constrangimentos, heranças, enquadramentos, limitações, conjunturas e desafios. O cidadão comum, esse, simplesmente incumpre.
É a justiça poética do regime: aos pequenos, a regra; aos grandes, a explicação.
A nação cansada de ouvir a mesma peça
O povo português tem sido paciente. Talvez demasiado paciente. Ou talvez já não seja paciência; talvez seja cansaço. Há uma diferença.
A paciência espera porque acredita. O cansaço espera porque já não tem energia para lutar.
É esse cansaço que o sistema explora. O cidadão trabalha, paga, trata da família, enfrenta burocracias, ouve notícias, encolhe os ombros, indigna-se cinco minutos e depois volta à sobrevivência. O regime sabe disso. Conta com isso. Vive disso.
A tragédia nacional não é apenas haver maus governantes, más decisões ou más instituições. A tragédia é uma sociedade inteira ter sido treinada para achar normal aquilo que devia provocar vergonha pública.
O país habituou-se ao inaceitável. E quando o inaceitável se torna rotina, a decadência já não precisa de pedir licença.
Conclusão: rir para não entregar a alma ao desespero
Há quem diga que não se deve brincar com coisas sérias. Talvez. Mas há coisas tão absurdamente sérias que só o humor consegue revelar a sua nudez moral.
O riso, quando é lúcido, não diminui a tragédia. Expõe-na. Arranca-lhe o verniz. Mostra o ridículo dos poderosos, a pompa dos incompetentes, a solenidade dos vazios, a coreografia dos irresponsáveis e a extraordinária persistência nacional em repetir os mesmos erros com nova decoração gráfica.
Portugal não é uma anedota. Mas certos modos de o governar são.
E a anedota torna-se trágica quando o preço é pago por doentes, idosos, trabalhadores, jovens, bombeiros, professores, famílias e cidadãos que já não têm paciência para ouvir mais uma promessa embrulhada em “visão estratégica”.
A nação portuguesa merece melhor do que esta comédia sem vergonha. Merece Estado sério, instituições dignas, políticos responsáveis, serviços que funcionem, verdade pública, competência, mérito, coragem e cidadãos que já não aceitem ser tratados como plateia muda de uma peça repetida.
Porque um país pode sobreviver a crises.
Pode sobreviver a pobreza.
Pode sobreviver a erros.
Mas dificilmente sobreviverá, inteiro e digno, se continuar a ser governado por gente que confunde a República com palco, o cidadão com figurante e o futuro com diapositivo.
Nota Final
Esta crónica é humorística apenas na forma. No fundo, é um retrato amargo de uma nação que se habituou a ser governada por anúncios, remendos, desculpas, transições, comissões e irresponsabilidade organizada.
O riso aqui não absolve. Acusa. Ri-se da pompa, da linguagem oca, do teatro institucional e da moralidade elástica de quem passa a vida a pedir sacrifícios ao país enquanto protege os seus próprios círculos de conforto.
Portugal não precisa de mais actores de Estado. Precisa de servidores públicos. Não precisa de mais encenação. Precisa de verdade. Não precisa de mais promessas. Precisa de consequências.
Até lá, resta-nos rir com lucidez — não porque a tragédia seja pequena, mas porque a vergonha já é grande demais para caber numa cara séria.
Aletheia Veritas
Fragmentos do Caos
Crónica escrita em co-autoria com Augustus Veritas, ao serviço da
verdade contra narrativa, lucidez contra teatro, riso contra a podridão solene.
Nota Editorial
A nação já vive numa encenação permanente, porque a realidade foi ultrapassada pelo ridículo da própria representação política. Já não se governa: representa-se. Já não se reformam instituições: anunciam-se intenções. Já não se assumem responsabilidades: encenam-se explicações. Já não se presta contas ao povo: administra-se a paciência quase imortal do povo.
Portugal tornou-se um palco onde a tragédia social, económica e institucional é todos os dias embrulhada em discursos de serenidade, PowerPoints de esperança, conferências de imprensa, comissões, pactos, transições, promessas e “soluções estruturais” que raramente chegam à estrutura de coisa nenhuma.
O ridículo tornou-se método. A desculpa tornou-se instituição. A propaganda tornou-se rotina. A incompetência ganhou vocabulário técnico. A irresponsabilidade aprendeu a vestir fato escuro. E o cidadão, transformado em espectador da sua própria democracia, continua sentado na plateia, pagando bilhete para assistir à repetição da mesma peça.
Esta crónica usa o humor porque, perante certo grau de absurdo, a seriedade pura já não chega. Há momentos em que a ironia se torna instrumento de higiene pública: não para diminuir a tragédia, mas para expor a nudez moral de quem a transformou em espectáculo administrativo.
A realidade portuguesa já seria bastante dura. O problema é que o regime conseguiu acrescentar-lhe o ridículo. E quando uma nação combina sofrimento real com encenação permanente, a comédia deixa de fazer rir e passa a acusar.
A tragédia portuguesa tornou-se uma peça repetida. E o humor, neste caso, não é fuga. É acusação com inteligência.
– Francisco Gonçalves


