Democracia e Sociedade

A Paz Como Anestesia: As Novas Gerações Europeias Perante o Regresso da História

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BOX DE FACTOS

  • A Europa ocidental viveu décadas de paz democrática que muitos jovens passaram a encarar como condição natural e não como conquista histórica.
  • A literacia histórica tornou-se frágil numa parte significativa das novas gerações, frequentemente mais familiarizadas com simulações digitais de violência do que com a realidade concreta da guerra.
  • A Estratégia da União Europeia para uma União da Preparação procura reforçar a prontidão civil e militar perante crises futuras.
  • Segundo o Conselho da União Europeia, a despesa de defesa dos Estados-membros atingiu 343 mil milhões de euros em 2024 e poderá chegar a 381 mil milhões em 2025.
  • A NATO identifica a Federação Russa como a ameaça mais significativa e directa à segurança dos aliados e à paz euro-atlântica no seu Conceito Estratégico de 2022.

A Paz Como Anestesia
As Novas Gerações Europeias Perante o Regresso da História

A Europa formou gerações inteiras dentro de democracias estáveis, direitos garantidos e paz prolongada. Mas talvez se tenha esquecido de lhes ensinar uma coisa essencial: a paz não é uma condição natural da História. É uma construção frágil, difícil, cara e sempre ameaçada.

Vivemos hoje, no mundo ocidental e nas democracias da União Europeia, uma contradição delicada. Nunca tantas gerações cresceram com tanto acesso à educação, tecnologia, mobilidade, direitos individuais e protecção institucional. E, no entanto, talvez nunca tenha sido tão visível a distância entre esse conforto civilizacional e a dureza real da geopolítica mundial.

Muitos jovens europeus cresceram em democracia e em paz. Isso é uma bênção. Mas uma bênção pode transformar-se em anestesia quando deixa de ser compreendida como resultado de sacrifício histórico, memória colectiva, instituições fortes, capacidade de defesa, diplomacia, cultura democrática e vigilância cívica.

Para muitos, a guerra tornou-se imagem. Tornou-se jogo. Tornou-se cenário digital. Tornou-se narrativa cinematográfica. Tornou-se notícia distante, consumida entre duas notificações. A violência foi deslocada para o ecrã, onde se morre e se recomeça, onde o sangue é gráfico, onde a destruição tem banda sonora e onde há sempre um botão para reiniciar a partida.

Mas a História não tem botão de reinício.

A geração que conheceu a guerra por simulação

Há uma diferença profunda entre conhecer a violência através de jogos de computador e compreender a realidade da guerra. O jogo pode desenvolver reflexos, estratégia, coordenação, imaginação táctica. Mas não ensina o cheiro da perda, o peso do medo, a destruição de uma cidade, o silêncio de uma família sem notícias, a disciplina do serviço, a vulnerabilidade de uma fronteira, a responsabilidade de defender uma comunidade.

A guerra real não é entretenimento. Não tem níveis. Não tem estatísticas limpas. Não tem medalhas digitais. Não tem reinício.

A guerra real é destruição física, psicológica, social, económica e moral. É a interrupção brutal da normalidade. É o hospital sem energia. É a escola transformada em abrigo. É a ponte destruída. É o pai chamado para a frente. É a mãe que foge com os filhos. É a cidade que aprende a dormir com sirenes. É a democracia posta à prova quando o medo entra pela porta.

Uma parte das novas gerações europeias cresceu sem contacto com fileiras militares, sem serviço cívico estruturado, sem cultura de defesa, sem memória familiar viva da guerra e, muitas vezes, com uma literacia histórica insuficiente para compreender o século XX. E quem não compreende o século XX dificilmente entenderá o século XXI.

A democracia como paisagem natural

A democracia liberal europeia passou a ser vista por muitos como uma espécie de paisagem natural: está ali, existe, funciona, garante direitos, organiza eleições, permite protestos, protege minorias, sustenta serviços públicos, financia universidades, regula mercados, distribui apoios e ainda pede desculpa quando incomoda.

Mas a democracia não é paisagem. É arquitectura.

E toda a arquitectura precisa de fundações, manutenção, vigilância e reparação. Uma ponte não continua de pé apenas porque se acredita poeticamente na sua existência. Uma democracia também não. Precisa de cidadãos informados, instituições competentes, cultura histórica, ética pública, imprensa livre, justiça eficaz, forças de segurança leais ao Estado de direito e capacidade colectiva para resistir à propaganda, à corrupção e ao autoritarismo.

O problema é que uma sociedade super-protectora pode criar cidadãos que confundem direitos com automatismos e responsabilidades com incómodos. A cidadania transforma-se então numa espécie de contrato de consumo: exige-se tudo ao Estado, mas esquece-se que a liberdade também obriga a deveres, disciplina cívica e defesa da comunidade.

Não se trata de militarizar a juventude. Trata-se de a tirar da infantilização política.

A Europa descobriu que a História ainda respira

Durante décadas, a Europa ocidental viveu como se a tragédia histórica tivesse sido arquivada. Auschwitz, Estalinegrado, o Holocausto, as ditaduras, os gulags, os totalitarismos, Sarajevo, os golpes militares, as limpezas étnicas e os imperialismos pareciam pertencer a capítulos encerrados, arrumados em manuais escolares que poucos liam com verdadeira profundidade.

Acreditou-se, por comodismo intelectual, que a democracia liberal, a integração europeia, o comércio global, a prosperidade e o direito internacional seriam suficientes para domesticar a velha brutalidade da História.

Mas a História não foi domesticada. Apenas estava a mudar de forma.

O regresso da guerra à Europa, a pressão autoritária, a manipulação informacional, a espionagem digital, a dependência energética, a fragilidade industrial, as cadeias de abastecimento vulneráveis e a competição entre grandes potências vieram recordar uma evidência antiga: a paz não sobrevive apenas com boas intenções.

A União Europeia começou, por isso, a falar cada vez mais de preparação, resiliência, autonomia estratégica, defesa, indústria militar, protecção civil e cultura de prontidão. A própria Estratégia da União Europeia para uma União da Preparação procura reforçar a capacidade civil e militar de resposta a crises futuras, envolvendo Estados, instituições, empresas e sociedade.

É como se Bruxelas tivesse finalmente descoberto que os discursos não interceptam drones, que os regulamentos não substituem munições e que uma cadeia logística não se reconstrói com comunicados de imprensa.

O pacifismo ingénuo e o belicismo infantil

Perante este mundo mais duro, há dois erros simétricos.

O primeiro é o pacifismo ingénuo. Acredita que a paz se mantém apenas porque a desejamos. Confunde moralidade com estratégia. Imagina que todos os conflitos se resolvem por diálogo, mesmo quando do outro lado está alguém que entende o diálogo apenas como tempo ganho para preparar a próxima agressão.

O segundo erro é o belicismo infantil. Confunde firmeza com excitação guerreira. Vê a guerra como espectáculo, como afirmação viril, como jogo de poder, como teatro de bandeiras e frases fortes. É tão perigoso como o pacifismo ingénuo, porque ambos se afastam da realidade concreta da guerra.

A maturidade democrática está no meio: defender a paz sem ingenuidade, defender a liberdade sem romantizar a guerra, defender a segurança sem entregar a alma ao militarismo.

Uma democracia adulta não deseja a guerra. Mas também não se organiza como se a guerra fosse impossível.

Literacia histórica: a vacina contra a ingenuidade

A literacia histórica é hoje uma forma de defesa civil.

Não basta saber datas soltas, nomes de reis, tratados, batalhas e revoluções decoradas para exame. Literacia histórica é compreender processos, causas, consequências, repetições, ressentimentos, impérios, nacionalismos, propaganda, medo colectivo, colapsos institucionais e fragilidade das sociedades.

Um jovem europeu que desconhece o modo como as democracias morreram no século XX fica vulnerável à sedução autoritária do século XXI. Um cidadão que não compreende propaganda torna-se matéria-prima para a manipulação digital. Um estudante que nunca estudou a sério os totalitarismos pode confundir radicalismo performativo com coragem moral.

A ignorância histórica não é neutra. É uma porta aberta.

E o problema agrava-se quando a escola e a universidade reduzem a História a conteúdo mínimo, quando a leitura profunda desaparece, quando a memória colectiva se dissolve em fragmentos de redes sociais, quando a complexidade é substituída por slogans e quando a educação deixa de formar cidadãos para passar a produzir utilizadores funcionais de plataformas.

Uma geração sem memória pode ser tecnologicamente avançada e politicamente ingénua. Pode dominar aplicações e desconhecer os mecanismos da servidão. Pode saber editar vídeos e não reconhecer a linguagem de um demagogo. Pode discutir direitos abstractos e não compreender o preço concreto da liberdade.

Serviço, disciplina e responsabilidade

Durante décadas, a experiência militar ou o serviço obrigatório deram a muitos jovens contacto directo com disciplina, hierarquia, esforço físico, limites, dever colectivo e noção de defesa nacional. Essa experiência tinha defeitos, abusos, rigidez e muitas vezes desperdício de tempo. Não deve ser romantizada.

Mas a sua ausência total também deixou um vazio.

Talvez a resposta contemporânea não tenha de ser o regresso simples ao velho serviço militar obrigatório. Talvez passe por um serviço cívico moderno, plural, exigente, com componentes de protecção civil, defesa, primeiros socorros, cibersegurança, logística, apoio comunitário, literacia democrática, gestão de crises e preparação para emergências.

Uma sociedade livre não precisa de transformar todos os jovens em soldados. Mas talvez precise de os ajudar a compreender que a liberdade colectiva exige preparação, solidariedade e capacidade de resposta.

Numa época de incêndios extremos, ataques informáticos, pandemias, guerra híbrida, desinformação, falhas energéticas e instabilidade geopolítica, a defesa de um país já não cabe apenas nos quartéis. Passa também por redes eléctricas, hospitais, telecomunicações, dados, abastecimento alimentar, escolas, autarquias, empresas, famílias e cidadãos informados.

A defesa moderna é também literacia sistémica.

A juventude não é culpada pela paz que herdou

Seria injusto culpar os jovens por terem crescido em paz. Nenhuma geração deve pedir desculpa por não ter conhecido guerra, fome ou ditadura. Pelo contrário: esse era precisamente o objectivo das gerações anteriores — construir uma Europa onde os filhos não tivessem de viver os horrores dos pais e dos avós.

O problema não está em terem herdado paz. Está em não lhes terem explicado suficientemente bem o seu custo.

Também não devemos cair no velho vício de acusar genericamente “os jovens”. Há jovens extraordinários, cultos, corajosos, atentos, solidários, empreendedores, investigadores, militares, voluntários, técnicos, programadores, médicos, enfermeiros, cientistas e cidadãos de enorme qualidade.

O problema é sistémico: uma sociedade que protege muito, exige pouco, lê pouco, explica mal a História e transforma a cidadania em consumo acabará inevitavelmente por produzir fragilidade cívica.

Não é a juventude que falhou sozinha. Foi a sociedade adulta que, em muitos casos, preferiu o conforto da anestesia à dureza da formação.

Portugal e a arte de dormir em cima da História

Portugal tem uma relação especial com a ilusão de distância. Como estamos na ponta ocidental da Europa, banhados pelo Atlântico e protegidos pela geografia, gostamos de acreditar que os grandes choques do mundo chegam sempre atrasados, amortecidos ou traduzidos em burocracia europeia.

É um erro antigo.

Num mundo interdependente, a distância geográfica já não protege como antes. Uma guerra no Leste afecta energia, inflação, segurança, migrações, cadeias logísticas, investimento, defesa e decisões políticas. Um ataque informático pode atingir hospitais e empresas portuguesas sem atravessar uma única fronteira física. Uma crise no Indo-Pacífico pode alterar preços, semicondutores, transporte marítimo e indústria europeia. Uma campanha de desinformação pode dividir sociedades sem disparar uma bala.

Portugal não pode continuar a formar cidadãos como se vivesse numa ilha metafísica, protegida por brandos costumes, futebol, turismo, subsídios europeus e a velha esperança de que alguém em Bruxelas pense por nós.

Um país pequeno precisa ainda mais de lucidez estratégica. Precisa de cultura histórica, ciência, tecnologia, defesa, diplomacia, indústria, energia, mar, cibersegurança, educação exigente e cidadãos que compreendam o mundo para lá da espuma noticiosa.

A ignorância geopolítica é um luxo que Portugal não pode pagar.

Conclusão: a paz precisa de memória armada de lucidez

A Europa não deve desejar tornar-se uma sociedade militarizada. Esse caminho seria uma derrota moral. Mas também não pode continuar a comportar-se como se a paz fosse um produto garantido, entregue regularmente por instituições abstractas, tratados solenes e discursos bem iluminados.

A paz precisa de memória. Precisa de educação. Precisa de defesa. Precisa de diplomacia. Precisa de indústria. Precisa de energia. Precisa de tecnologia. Precisa de cultura democrática. Precisa de cidadãos capazes de compreender que a liberdade é uma construção exigente, não uma aplicação instalada por defeito no sistema operativo da civilização.

As novas gerações europeias têm direito à paz. Mas também têm o dever de compreender a sua fragilidade.

Porque a História não acabou. Apenas mudou de máscara.

E quando uma civilização esquece como chegou à paz, começa lentamente a esquecer como a deve defender.

Nota Final

Esta crónica não é um apelo à guerra. É precisamente o contrário: é um apelo à maturidade necessária para defender a paz sem ingenuidade.

A paz não se protege apenas com sentimentos nobres, nem a democracia se conserva apenas com eleições periódicas. Ambas exigem memória, cultura, responsabilidade, preparação e cidadãos capazes de compreender que o mundo real não obedece aos guiões confortáveis das sociedades adormecidas.

A Europa formou gerações felizes por nunca terem conhecido a guerra. Mas terá agora de formar gerações suficientemente lúcidas para impedir que ela volte a ser destino.



Francisco Gonçalves


Fragmentos do Caos

Em coautoria com Augustus Veritas, ao serviço da lucidez, da memória crítica e da inquietação criadora.

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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