Quando o Incendiário Vai à ONU Queixar-se do Fumo
BOX DE FACTOS
- A Rússia pediu uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU após um ataque em Starobilsk, na região de Luhansk ocupada pela Rússia.
- Moscovo acusou a Ucrânia de atingir um dormitório e causar vítimas civis.
- A Ucrânia negou ter visado civis e afirmou que atingiu estruturas ligadas à máquina militar russa.
- Nos últimos dias, ataques ucranianos atingiram também infra-estruturas petrolíferas russas, incluindo na região de Krasnodar.
- A Rússia continua a ocupar território ucraniano e a conduzir ataques regulares contra cidades, infra-estruturas e civis ucranianos.
O Incendiário Vai à ONU Queixar-se do Fumo
Breve Manual da Comoção Selectiva dos Impérios
Se não fosse trágico, seria uma comédia escrita por um dramaturgo bêbedo, um diplomata cínico e um censor com sentido de humor involuntário. A Rússia, esse farol da delicadeza geopolítica, descobriu subitamente que ataques militares podem ser desagradáveis quando acontecem do lado de cá da fronteira que Moscovo considera confortável.
Durante anos, a Ucrânia tem sido bombardeada, invadida, ocupada, mutilada, minada e transformada em laboratório de resistência nacional. Mas eis que, quando a Ucrânia responde e atinge alvos ligados à máquina militar ou energética russa, Moscovo veste a toga da legalidade internacional, pega no lenço da indignação e corre para a ONU, ofendida como uma marquesa surpreendida por um camponês enlameado no salão.
É uma cena magnífica de hipocrisia diplomática. O agressor entra pela janela, parte a mobília, incendeia a cozinha, leva metade da casa e, quando o dono lhe atira uma panela à cabeça, grita: “Isto é uma violação intolerável das normas de convivência doméstica!”
A descoberta russa do Direito Internacional
Há descobertas tardias que comovem. Há quem descubra a poesia na velhice, há quem descubra o colesterol depois de quarenta anos de enchidos, e há quem descubra o Direito Internacional depois de invadir o país vizinho.
A Rússia descobriu agora, comovida, que os Estados têm território, soberania, população civil, infra-estruturas sensíveis e direito a não serem atacados. É uma revelação espiritual de grande profundidade, embora ligeiramente prejudicada por quatro anos de guerra de agressão, ocupação territorial e bombardeamentos diários sobre a Ucrânia.
Mas não sejamos injustos. Talvez Moscovo tenha apenas um calendário moral diferente. Primeiro invade-se. Depois anexa-se. Depois bombardeia-se. Depois acusa-se a vítima de falta de modos. E, finalmente, vai-se à ONU explicar que o mundo está a ficar perigoso.
O império tem destas subtilezas: quando avança, chama-lhe segurança; quando recua, chama-lhe provocação; quando bombardeia, chama-lhe operação especial; quando é atingido, chama-lhe terrorismo.
A guerra só é elegante quando fica longe do Kremlin
O problema da guerra, para certas potências, nunca foi a guerra em si. Foi a possibilidade de a guerra deixar de ser exportada em regime de exclusividade. Enquanto os mísseis caem sobre Kyiv, Kharkiv, Odesa, Dnipro ou zonas civis ucranianas, estamos perante a triste necessidade estratégica de uma potência preocupada com a sua segurança. Quando drones ucranianos atingem refinarias, depósitos, centros de comando ou infra-estruturas russas, a humanidade entra em perigo, os tratados choram e a ONU deve interromper o café.
É a velha doutrina imperial: a dor dos outros é geopolítica; a nossa dor é crime contra a civilização.
A Rússia quer uma guerra assimétrica até na moral. Quer poder atacar sem ser atacada, ocupar sem ser resistida, destruir sem ser perturbada, matar sem ser julgada e protestar quando o adversário mostra a desagradável tendência para não morrer em silêncio.
Há aqui uma espécie de aristocracia do cinismo. A guerra, segundo esta escola, deve obedecer a uma etiqueta rigorosa: o império dispara, a vítima sofre, os diplomatas falam, os analistas complicam, e no fim alguém recomenda moderação à Ucrânia, de preferência enquanto Moscovo recarrega os lançadores.
Starobilsk e o teatro da indignação
O caso de Starobilsk deve ser tratado com seriedade no que toca a vítimas civis. Toda a morte civil é tragédia. Toda a criança ferida é uma acusação contra a barbárie. Nenhum sarcasmo deve cair sobre os inocentes, porque os inocentes são sempre os primeiros a pagar a factura das ambições imperiais.
Mas precisamente por isso a indignação russa chega tarde, chega mal e chega com um cheiro incómodo a encenação. Moscovo invoca civis quando lhe convém, esquece civis quando bombardeia, e transforma a compaixão num instrumento diplomático de uso descartável.
A Ucrânia nega ter visado civis e afirma que atingiu estruturas militares. A Rússia acusa a Ucrânia de crime. Como em tantas outras situações desta guerra, a verdade concreta exigiria verificação independente, coisa que raramente floresce em território ocupado por quem tem alergia crónica à transparência.
O que não exige grande investigação é o contexto: Starobilsk situa-se em território ucraniano ocupado pela Rússia. Ou seja, Moscovo queixa-se na ONU de um ataque ocorrido num pedaço de Ucrânia que a própria Rússia ocupa. É como um ladrão apresentar queixa porque o proprietário fez barulho dentro da casa roubada.
A diplomacia do espelho partido
A diplomacia russa tornou-se uma escola avançada de teatro absurdo. Coloca-se diante de um espelho partido, escolhe o fragmento que mais a favorece e declara que aquilo é a realidade inteira.
A Rússia acusa. A Rússia exige. A Rússia denuncia. A Rússia convoca. A Rússia protesta. A Rússia lamenta. A Rússia ameaça retaliar. Falta apenas a Rússia descobrir quem começou a guerra. Talvez seja necessário criar uma comissão histórica em Moscovo, composta por três generais, dois apresentadores de televisão e um académico com medo do elevador.
O mais notável é o tom. Não há vergonha, hesitação ou pudor. Há apenas aquela solenidade própria dos regimes que já não precisam de convencer ninguém, apenas de produzir versões oficiais com a persistência mecânica de uma fábrica de parafusos.
Quando a realidade não serve, produz-se narrativa. Quando os factos incomodam, invoca-se provocação. Quando a vítima resiste, acusa-se a vítima de prolongar a guerra. Quando o agressor sofre consequências, apresenta-se como ofendido. E quando tudo falha, há sempre uma reunião urgente.
O império ofendido pela existência da vítima
No fundo, o que verdadeiramente ofende Moscovo não é apenas o ataque a esta ou aquela instalação. É a persistência da Ucrânia em existir.
A Ucrânia deveria, segundo o manual dos impérios cansados, ter cedido depressa. Deveria ter aceite a sua transformação em zona tampão, protectorado, província sentimental ou nota de rodapé numa conferência de segurança. Deveria ter percebido que certas nações grandes têm direito à História, enquanto as pequenas devem contentar-se com a geografia.
Mas a Ucrânia não aceitou. Lutou. Sofreu. Errou certamente também, porque nenhum povo em guerra é feito de anjos administrativos. Mas resistiu. E essa resistência tornou-se insuportável para uma Rússia habituada a confundir vizinhos com propriedade histórica.
Por isso, quando a guerra regressa sob a forma de drones, fogo, explosões em refinarias ou perturbação logística, o Kremlin não vê apenas uma resposta militar. Vê uma insolência ontológica: a vítima teve a ousadia de agir como sujeito da História.
A ONU como palco da comédia séria
O Conselho de Segurança da ONU é, nestes momentos, uma mistura de teatro grego, consultório psiquiátrico e reunião de condomínio depois de alguém ter estacionado um tanque na garagem.
Ali se senta a Rússia, membro permanente com direito de veto, a denunciar os perigos de uma guerra que ela própria iniciou em grande escala. O agressor usa a instituição criada para preservar a paz como palco para se apresentar como vítima da desordem que semeou.
É uma proeza que merece estudo. Não pela originalidade — os impérios sempre fizeram isto — mas pela serenidade facial com que é executada. Há mentiras que coram. A mentira imperial russa já nem isso. Comparece, discursa, protesta e sai com ar de quem cumpriu um dever moral.
A ONU, por sua vez, ouve. Porque a diplomacia tem essa grande virtude e essa grande tragédia: ouve até aquilo que faria uma pedra pedir a palavra para protestar.
A santidade instantânea dos agressores
Há um fenómeno curioso na política internacional: certos regimes descobrem os direitos humanos exactamente no instante em que podem usá-los contra os outros.
Não os descobriram em Bucha, em Mariupol, nas deportações, nas infra-estruturas civis destruídas, nos ataques nocturnos, nas cidades devastadas, nos refugiados, nas famílias separadas ou nos mortos enterrados à pressa. Descobrem-nos quando precisam de uma frase sonora para abrir o telejornal doméstico.
É uma santidade de ocasião, como aqueles guarda-chuvas comprados à porta do metro quando começa a chover. Enquanto faz sol imperial, ninguém se lembra deles. Quando a tempestade muda de direcção, aparecem todos muito preocupados com a meteorologia moral.
Não é que os princípios estejam errados. Pelo contrário: proteger civis é um princípio essencial. O problema é serem invocados por quem os tratou durante anos como inconvenientes tácticos.
O endereço do remetente
A guerra tem uma qualidade que os agressores detestam: por vezes regressa ao endereço do remetente.
Durante muito tempo, Moscovo tentou vender a ideia de uma guerra distante, limpa no centro do império, suja apenas nas periferias. A televisão mostraria mapas, generais, hinos, discursos, conquistas, sacrifícios patrióticos e uma ficção confortável de invulnerabilidade doméstica.
Mas uma guerra moderna não respeita esse luxo. Drones atravessam distâncias. Infra-estruturas energéticas tornam-se alvos. Logística torna-se campo de batalha. Refinarias, depósitos, linhas férreas, centros de comando e sistemas de defesa entram no mapa da resposta.
A Rússia semeou uma guerra total na vida ucraniana e agora descobre, com a surpresa ofendida de um aristocrata roubado pelo próprio mordomo, que a guerra não aceita ficar eternamente do outro lado da fronteira.
Epílogo: o incendiário e a mangueira
A imagem é simples. Um homem chega a uma aldeia, incendeia casas, derruba portas, ocupa terrenos, prende vizinhos, espalha propaganda e declara que tudo aquilo é uma operação de saneamento urbanístico. Anos depois, quando alguém lhe aponta uma mangueira com pressão excessiva, ele corre para a praça central a exigir respeito pelas normas de protecção contra humidade.
É isto, em versão diplomática, que vimos acontecer na ONU.
A Rússia pode protestar. Tem esse direito formal, porque as instituições internacionais ainda fingem que todos entram na sala com o mesmo peso moral. Mas o mundo tem também o direito de recordar o óbvio: quem começa uma guerra não pode exigir monopólio sobre as suas consequências.
A Ucrânia deve respeitar o direito internacional humanitário. Sempre. Qualquer vítima civil deve ser investigada com seriedade. Mas a Rússia, antes de subir ao púlpito, talvez devesse reparar que ainda tem as botas dentro da casa alheia.
A Rússia descobriu o Direito Internacional no exacto momento em que a guerra deixou de ser apenas exportada e começou a regressar, em drones e fogo, ao endereço do remetente.
É uma frase dura. Mas há ironias que não precisam de ser inventadas. Basta transcrevê-las da realidade.
Nota final
E as narrativas são, muitas vezes, a última trincheira dos poderes que perderam a razão,
mas ainda conservam os microfones, os gabinetes e os profissionais da anestesia pública.
No caso russo, a narrativa atingiu uma forma quase artística: invadir como império, bombardear como potência,
ocupar como destino histórico e protestar como vítima. Se o cinismo pagasse direitos de autor, Moscovo já teria financiado a guerra por subscrição premium.
Referências consultadas
- Associated Press — Ukrainian drone attack triggers fire at a Russian oil terminal
- Reuters — Death toll in student dorm strike rises to 12, emergency ministry says
- GOV.UK — UK statement at the UN Security Council on Ukraine
- The Guardian — Ukraine war briefing, 23 May 2026
Crónica de Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos — onde a hipocrisia ainda é autorizada a entrar, mas só depois de passar pelo detector de ironia.
Em coautoria editorial com Augustus Veritas.
Quando o ditador e os predadores perdem o sentido de humor e até o riso cínico lhes morre na boca,
é porque a realidade começou finalmente a devolver-lhes o eco das suas próprias ruínas.
O tirano ainda discursa, ainda acusa, ainda protesta — mas já se ouve, por baixo da voz solene,
o ranger da máscara a partir.


