Democracia e Sociedade

RICHE 1989: Quando a Europa Já Sonhava com uma Saúde Digital Integrada

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BOX DE FACTOS

  • RICHE significava Réseau d’Information et de Communication Hospitalier Européen.
  • O projecto foi apresentado num artigo do ICL Technical Journal, em Novembro de 1990.
  • O objectivo era criar uma arquitectura europeia para sistemas de informação hospitalar.
  • A visão incluía integração clínica, administrativa, técnica e de gestão.
  • Mais de três décadas depois, muitos sistemas públicos de saúde continuam fragmentados, pesados e pouco interoperáveis.

RICHE 1990: Quando a Europa Já Sonhava com uma Saúde Digital Integrada

Em 1990, a tecnologia já apontava para uma saúde pública europeia integrada, interoperável e orientada para a informação. O problema, como tantas vezes, não esteve na falta de visão técnica. Esteve na incapacidade política, administrativa e cultural de transformar visão em realidade.

Há documentos antigos que não envelhecem. Ficam apenas à espera que o presente os alcance. Um desses documentos é um artigo técnico publicado no ICL Technical Journal, em Novembro de 1990, sobre o projecto RICHE — Réseau d’Information et de Communication Hospitalier Européen, apresentado em inglês como Healthcare Information and Communication Network for Europe.

Lido hoje, em plena era da inteligência artificial, da computação em nuvem, dos sistemas distribuídos, da telemedicina e dos dados clínicos digitais, o artigo parece quase uma mensagem enviada do futuro para um presente que ainda anda de pasta de cartão debaixo do braço. Ou, para sermos mais rigorosos, uma mensagem enviada de 1990 para um 2026 que continua, em demasiados aspectos, preso a ficheiros incompatíveis, plataformas opacas, formulários redundantes e sistemas que se ignoram uns aos outros com a solenidade de repartições públicas ofendidas.

A visão: uma rede europeia para a saúde

O projecto RICHE nasceu como resposta às necessidades do sector da saúde, procurando uma utilização mais eficaz das tecnologias de informação. Segundo o resumo do artigo, um grande consórcio europeu de empresas de tecnologias de informação e organizações de saúde formou-se em 1989 para definir e testar uma arquitectura aplicável aos sistemas de saúde em vários países europeus.

A ambição era notável: criar uma arquitectura global capaz de integrar funções de suporte clínico, administrativo, técnico e de gestão. Não se tratava apenas de informatizar hospitais. Tratava-se de pensar a saúde como uma rede de informação, comunicação e decisão. Uma rede em que os dados deixassem de ser ilhas, os sistemas deixassem de ser feudos e os profissionais deixassem de ser obrigados a servir máquinas mal concebidas.

Era, no fundo, uma tentativa de antecipar aquilo que hoje designaríamos por interoperabilidade, saúde digital, integração de dados clínicos, normalização de processos e governação tecnológica da saúde pública.

O paradoxo português: tanta tecnologia, tão pouca execução

Olhando para este documento de 1990, a pergunta torna-se inevitável: se há mais de trinta anos já existiam estes conceitos, esta visão e estes programas europeus, porque razão continuamos hoje a assistir a sistemas de saúde pública tão fragmentados?

Portugal tem talento técnico. Tem bons engenheiros, bons médicos, bons investigadores, bons programadores e profissionais de saúde que todos os dias seguram, com esforço quase heróico, estruturas que muitas vezes parecem desenhadas para falhar. O problema raramente é a ausência de inteligência individual. O problema é a ausência de inteligência institucional.

Criam-se plataformas. Compram-se sistemas. Anunciam-se reformas. Fazem-se conferências. Distribuem-se palavras como inovação, digitalização, modernização e transformação com a abundância de brindes numa feira tecnológica. Mas, no fim, o cidadão continua muitas vezes a ter de repetir a sua história clínica, carregar exames em papel, procurar respostas em balcões diferentes e assistir ao espectáculo triste de sistemas que não comunicam.

A tecnologia deveria libertar tempo clínico. Em muitos casos, aprisionou-o. Deveria aproximar o utente do sistema. Em muitos casos, transformou-o em operador informal da própria burocracia. Deveria apoiar a decisão médica. Em muitos casos, tornou-se mais uma camada de ruído administrativo.

O que RICHE já compreendia

O que torna o projecto RICHE tão interessante é que ele não olhava para a informática hospitalar como uma soma de computadores dentro de edifícios de saúde. Olhava para a saúde como um ecossistema de informação.

Essa diferença é decisiva. Um hospital não precisa apenas de software. Precisa de arquitectura. Um centro de saúde não precisa apenas de ecrãs. Precisa de continuidade informacional. Um médico não precisa apenas de credenciais de acesso. Precisa de dados fiáveis, disponíveis, bem estruturados e apresentados no momento certo.

A informação clínica não é papel digitalizado. Não é PDF perdido num portal. Não é uma base de dados isolada a que só alguns conseguem aceder mediante rituais informáticos próximos da alquimia medieval. Informação clínica é contexto, histórico, evolução, risco, prevenção, decisão e responsabilidade.

RICHE percebia isto em 1990. E, por isso mesmo, a sua leitura hoje incomoda. Incomoda porque mostra que muitos dos nossos atrasos não resultam de ignorância técnica, mas de falhas persistentes de governação, planeamento e execução.

A saúde pública não pode ser uma manta de retalhos digital

Um sistema nacional de saúde moderno não pode funcionar como uma colecção de aplicações compradas por impulso, instaladas por conveniência, geridas por departamentos fechados e mantidas por contratos que parecem mais pensados para proteger fornecedores do que para servir cidadãos.

A saúde pública do século XXI precisa de uma arquitectura nacional clara. Precisa de interoperabilidade real. Precisa de normas abertas. Precisa de APIs bem documentadas. Precisa de dados estruturados. Precisa de segurança informática séria. Precisa de auditoria. Precisa de responsabilização. Precisa, acima de tudo, de uma visão de longo prazo que sobreviva à espuma dos ciclos eleitorais.

Não basta anunciar plataformas. É necessário medir resultados. Não basta digitalizar formulários. É necessário eliminar redundâncias. Não basta criar portais. É necessário garantir que o cidadão não se perde neles como quem entra numa repartição virtual desenhada por um comité de fantasmas.

Prevenção, dados e inteligência clínica

A grande oportunidade da saúde digital não está apenas em acelerar processos administrativos. Está em mudar o centro de gravidade do sistema: sair de uma lógica reactiva, centrada na doença já instalada, para uma lógica preventiva, centrada no risco, no acompanhamento e na intervenção precoce.

Para isso, os dados são essenciais. Mas não quaisquer dados. Não dados espalhados, incompletos, duplicados ou prisioneiros de sistemas incompatíveis. São necessários dados clínicos bem organizados, historicamente consistentes e eticamente protegidos.

Um sistema inteligente de saúde pública deveria ser capaz de identificar padrões de risco, apoiar médicos de família, sinalizar doentes vulneráveis, acompanhar doenças crónicas, evitar exames repetidos, melhorar referenciações hospitalares e reduzir desperdício. Tudo isto com respeito absoluto pela privacidade, pela segurança e pela dignidade do utente.

A inteligência artificial poderá ajudar, mas não fará milagres sobre ruínas administrativas. Antes da inteligência artificial, é necessária inteligência organizacional. Antes dos algoritmos, é necessária arquitectura. Antes dos modelos preditivos, é necessária qualidade de dados. Caso contrário, teremos apenas máquinas sofisticadas a tentar interpretar o caos — uma espécie de oráculo digital instalado numa cave húmida do Estado.

O verdadeiro atraso não é tecnológico

O atraso português raramente é apenas tecnológico. Muitas vezes é cultural. É a incapacidade de decidir bem. É o medo de responsabilizar. É a promiscuidade entre política, consultoria, fornecedores e estruturas intermédias. É a velha arte nacional de transformar uma boa ideia num processo, um processo numa comissão, uma comissão num relatório, e um relatório num arquivo.

O país não sofre por falta de diagnósticos. Sofre por excesso de diagnósticos sem consequência. Não sofre por falta de projectos-piloto. Sofre por projectos-piloto que nunca escalam. Não sofre por falta de palavras modernas. Sofre por falta de coragem antiga: fazer, medir, corrigir, assumir, melhorar.

Em 1990, o projecto RICHE já apontava para uma rede europeia de informação e comunicação hospitalar. Hoje, a pergunta que devemos fazer é simples: quantas décadas mais serão necessárias para que o Estado português compreenda que a saúde pública não se reforma com remendos digitais, mas com arquitectura, método, competência e responsabilização?

Uma recomendação para o futuro

Portugal deveria recuperar o espírito conceptual de projectos como o RICHE e aplicá-lo com os instrumentos actuais. Não para copiar soluções antigas, mas para respeitar a sua lição principal: a saúde digital exige visão sistémica.

Essa visão deveria assentar em alguns princípios fundamentais: interoperabilidade obrigatória, normas abertas, soberania dos dados, segurança informática auditável, integração entre cuidados primários e hospitais, transparência contratual, avaliação permanente de resultados e participação activa dos profissionais de saúde no desenho dos sistemas.

A tecnologia deve servir o médico, o enfermeiro, o técnico, o gestor competente e, sobretudo, o cidadão. Quando a tecnologia serve apenas a máquina administrativa, deixa de ser progresso. Passa a ser burocracia com ecrã.

Epílogo: o futuro que ficou à espera

Há uma ironia quase amarga nesta página de 1990. Enquanto hoje se fala de inovação como se fosse uma descoberta acabada de cair do céu, havia já naquele tempo gente a pensar redes europeias de saúde, arquitecturas integradas e sistemas de informação ao serviço dos cuidados médicos.

O futuro não falhou por falta de imaginação. Falhou porque demasiadas instituições preferiram gerir o presente, proteger territórios, multiplicar plataformas, adiar decisões e confundir informatização com transformação.

RICHE foi uma visão. Talvez incompleta, talvez limitada pelas tecnologias do seu tempo, mas profundamente lúcida na sua intenção. O que nos deve inquietar não é o facto de em 1990 se sonhar com aquilo que ainda hoje perseguimos. O que nos deve inquietar é perceber que, durante décadas, o sonho esteve à vista — e nós continuámos a preencher impressos.

Nota final: este artigo parte da leitura de uma página do ICL Technical Journal, Novembro de 1990, dedicada ao projecto RICHE. Mais do que nostalgia tecnológica, o documento é um espelho incómodo: mostra que a visão existia, a capacidade técnica existia, a Europa já discutia integração, mas muitos Estados continuaram a preferir a fragmentação confortável à transformação exigente.

Artigo de Francisco Gonçalves, IT Consultant at ICL Computers UK, 1989, com apoio editorial de Augustus Veritas, para o projecto Fragmentos do Caos.

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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