PS e PSD: A Última Reserva de Confiança do Velho Regime Partidário
BOX DE FACTOS
- Nas legislativas de 2025, a AD/PSD-CDS obteve 31,21%, o PS 22,83% e o Chega 22,76%, segundo resultados divulgados pela Lusa com base na SGMAI-AE.
- A abstenção nas legislativas de 2025 foi de 41,77%, sinal persistente de afastamento de uma parte significativa dos cidadãos.
- Um estudo divulgado pela Pordata/RTP indicou que 62% dos cidadãos em Portugal exprimiam falta de confiança na Assembleia da República.
- O mesmo retrato político apontava que oito em cada dez inquiridos tendiam a não confiar nos partidos políticos.
- A Transparency International atribui a Portugal uma pontuação de 56/100 no Corruption Perceptions Index, colocando o país no lugar 46 entre 182 países.
- A OCDE identifica em Portugal desafios estruturais persistentes: produtividade, envelhecimento, habitação acessível, falta de mão-de-obra e necessidade de reformas administrativas.
PS e PSD: A Última Reserva de Confiança do Velho Regime Partidário
Portugal vive uma fase de cansaço político profundo. Não é apenas desilusão com um governo, uma legislatura, um primeiro-ministro ou uma maioria parlamentar. É algo mais fundo, mais antigo e mais perigoso: é o esgotamento da confiança no velho mecanismo de alternância entre PS e PSD, esse pêndulo gasto que durante quase cinco décadas prometeu mudança enquanto preservava demasiadas continuidades.
A democracia portuguesa nasceu com esperança, coragem e uma promessa de futuro. Mas, ao longo do tempo, a máquina partidária foi substituindo lentamente a energia fundadora por aparelhos fechados, carreiras internas, fidelidades tribais, juventudes partidárias transformadas em escolas de sobrevivência burocrática e uma cultura política onde demasiadas vezes conta mais a obediência do que a competência.
O PS e o PSD ainda não desapareceram porque continuam a ter estruturas autárquicas, redes locais, implantação institucional, memória histórica e capacidade de mobilização. Mas confundem demasiado frequentemente sobrevivência com vitalidade. Uma árvore pode continuar de pé muito depois de começar a apodrecer por dentro. Basta vir uma tempestade maior.
A alternância que se tornou anestesia
O grande problema do chamado bloco central não é apenas ter governado muito. É ter governado muito sem transformar o país na medida das suas promessas. PS e PSD alternaram no poder, mas Portugal continuou com produtividade baixa, salários modestos, justiça lenta, saúde pública em sofrimento, habitação inacessível, pobreza persistente, burocracia sufocante e uma relação promíscua entre cargos públicos, aparelhos partidários, empresas públicas, reguladores e interesses instalados.
A alternância democrática deveria ser uma forma de oxigenação. Em Portugal tornou-se, em muitos momentos, uma espécie de anestesia rotativa. Muda-se o ministro, muda-se a cor do cartaz, muda-se o slogan, muda-se o logótipo do programa. Mas a engrenagem profunda permanece. O cidadão sente isso. Talvez nem sempre consiga formular tecnicamente o diagnóstico, mas percebe o cheiro da sala fechada.
Durante demasiado tempo, os partidos tradicionais comportaram-se como se o povo fosse obrigado a escolher eternamente entre duas administrações possíveis da mesma mediocridade estrutural. Um prometia rigor, outro prometia justiça social. Um falava de contas certas, outro de direitos. Mas ambos foram falhando naquilo que verdadeiramente separa uma democracia madura de uma democracia cansada: execução, mérito, transparência, responsabilidade e futuro.
Os números já não escondem a fractura
As legislativas de 2025 mostraram uma paisagem política que já não cabe na velha fotografia do pós-25 de Abril. A AD/PSD-CDS venceu com pouco mais de 31% dos votos. O PS caiu para pouco mais de 22%. O Chega ficou praticamente colado ao PS em percentagem de votos e superou-o em número de deputados. A abstenção aproximou-se dos 42%.
Estes números não são apenas aritmética eleitoral. São sintomas de uma ruptura. O eleitorado deixou de aceitar passivamente a ideia de que a governação pertence naturalmente ao PS ou ao PSD, como se a República fosse uma herança alternada entre duas famílias políticas. A erosão já não é marginal. É central. E quando o centro perde densidade moral, os extremos, os protestos e as soluções simplistas crescem no vazio deixado pela incompetência dos moderados.
A confiança institucional confirma esse mal-estar. Segundo dados divulgados pela Pordata e noticiados pela RTP, 62% dos cidadãos exprimiam falta de confiança na Assembleia da República, e oito em cada dez inquiridos tendiam a não confiar nos partidos políticos. O problema não é, portanto, apenas eleitoral. É de legitimidade social. Quando os cidadãos votam sem confiar, a democracia continua formalmente viva, mas começa a respirar por aparelhos.
O povo não é antipolítico: está cansado da má política
Há uma tentação confortável entre os profissionais da política: dizer que a desconfiança dos cidadãos é populismo, ignorância, radicalização ou ingratidão democrática. É uma explicação fácil, preguiçosa e, sobretudo, conveniente. A verdade é mais incómoda: muitos cidadãos não se afastaram da política por desprezarem a democracia; afastaram-se porque sentem que a democracia foi capturada por aparelhos que já não os representam.
O português comum não acorda de manhã com vontade de destruir instituições. Acorda preocupado com a renda, com a prestação da casa, com o centro de saúde, com a escola dos filhos, com a reforma dos pais, com o salário que não chega, com a justiça que não decide, com os serviços públicos que parecem desenhados por alguém que nunca precisou deles.
Quando, perante isto, os partidos respondem com congressos, moções, guerras internas, lugares elegíveis, assessores, spin doctors e frases de laboratório comunicacional, o cidadão percebe a distância. E essa distância, em política, é uma fenda tectónica. Primeiro abre devagar. Depois engole governos.
O clientelismo como forma de governo invisível
O problema mais grave não está apenas nas políticas erradas. Está na cultura de poder que se instalou. Portugal desenvolveu uma forma discreta, mas persistente, de clientelismo democrático. Não é o velho caciquismo de aldeia com chapéu e bengala. É mais sofisticado. Vive em nomeações, gabinetes, entidades públicas, empresas municipais, fundações, institutos, consultorias, ajustes convenientes, circulações entre política e negócios, portas giratórias e dependências silenciosas.
Não é necessário imaginar uma conspiração. Basta observar o método. A política tornou-se, para alguns, uma carreira fechada sobre si própria. Entra-se cedo numa juventude partidária, aprende-se a falar sem dizer, a sorrir sem comprometer, a obedecer sem pensar demasiado, a subir sem incomodar, e um dia chega-se ao Estado como quem chega a uma propriedade herdada.
Esta cultura destrói o mérito, afasta os melhores, premeia os obedientes, alimenta a mediocridade e transforma a administração pública numa extensão indirecta da lógica partidária. O resultado é um país onde demasiadas pessoas competentes preferem ficar fora da política, enquanto demasiadas pessoas politicamente hábeis se instalam dentro dela.
Corrupção, opacidade e a lenta erosão da decência pública
A corrupção não precisa de estar sempre provada em tribunal para destruir confiança. A simples percepção de opacidade, favorecimento, impunidade ou proximidade excessiva entre poder político e interesses económicos basta para contaminar a relação entre cidadãos e Estado.
Portugal surge no Corruption Perceptions Index da Transparency International com uma pontuação de 56 em 100 e no lugar 46 entre 182 países. Não é uma fotografia de colapso, mas também não é o retrato de uma democracia exemplar em integridade pública. É uma zona cinzenta. E em política, as zonas cinzentas são perigosas porque permitem que todos digam estar limpos enquanto a confiança pública continua a escorrer pelo ralo.
O povo pode perdoar erros. Pode compreender dificuldades. Pode aceitar sacrifícios se vir seriedade. Mas dificilmente aceita continuar a apertar o cinto enquanto assiste à reprodução de privilégios, carreiras protegidas, nomeações inexplicáveis e sucessivas promessas de transparência que chegam sempre tarde, pequenas e embrulhadas em linguagem jurídica.
A reforma que PS e PSD teriam de fazer
A alternativa à decadência não é cosmética. PS e PSD não se salvam com novos slogans, novos rostos televisivos ou congressos coreografados. Precisam de uma reforma quase existencial. Uma reforma que comece por admitir uma verdade simples: os partidos já não são donos da confiança dos portugueses. São apenas candidatos a merecê-la outra vez.
Essa reforma teria de passar por uma ruptura profunda com as carreiras fechadas de aparelho. Os partidos deveriam abrir-se à sociedade civil competente, aos profissionais que conhecem a realidade produtiva, aos cientistas, engenheiros, médicos, professores, pequenos empresários, trabalhadores qualificados, autarcas sérios e cidadãos independentes que não devem nada a ninguém excepto à sua consciência.
Teriam também de adoptar regras duras de transparência interna, limitação de mandatos, concursos públicos reais para cargos de direcção no Estado, avaliação independente de políticas públicas, proibição efectiva de certas portas giratórias, financiamento partidário claro, auditorias externas e responsabilização política por objectivos falhados.
E, acima de tudo, teriam de abandonar a cultura da promessa vaga. Governar no século XXI exige métricas, execução, tecnologia, ciência de dados, simplificação administrativa, descentralização inteligente, combate à pobreza infantil, produtividade, habitação acessível, reindustrialização selectiva, soberania digital e serviços públicos desenhados a partir das pessoas, não a partir dos gabinetes.
A extinção não será jurídica: será moral e eleitoral
Quando se fala na possível extinção do PS ou do PSD, não se fala necessariamente de desaparecimento formal. Os partidos podem continuar registados, com sede, estatutos, congressos, bandeiras, presidentes de mesa e comunicados à imprensa. A extinção mais perigosa é outra: a irrelevância moral.
Um partido extingue-se por dentro quando deixa de representar esperança. Quando passa a ser visto apenas como máquina de poder. Quando os seus melhores militantes se calam, quando os seus críticos internos desistem, quando os jovens entram para subir e não para transformar, quando os cidadãos olham para o símbolo e já não vêem futuro, apenas administração do passado.
É isso que ameaça PS e PSD. Não é um adversário específico. Não é apenas o Chega, nem a Iniciativa Liberal, nem o Livre, nem qualquer outra força emergente. O grande adversário dos partidos tradicionais é o seu próprio esgotamento. É a sua incapacidade de perceber que o mundo mudou e que o eleitor já não se ajoelha perante siglas históricas.
O país precisa de partidos, mas não de máquinas fechadas
Uma democracia precisa de partidos. A alternativa à organização política não é a pureza cidadã; é muitas vezes o caos, a manipulação ou o domínio dos mais ruidosos. Mas partidos saudáveis são instrumentos da sociedade, não proprietários do Estado. Devem seleccionar talento, organizar ideias, representar interesses legítimos, construir programas, formar equipas e prestar contas.
O que Portugal não pode continuar a aceitar são partidos transformados em sistemas fechados de reprodução de elites pequenas, previsíveis e protegidas. O país precisa de uma democracia mais aberta, mais exigente, mais meritocrática e mais transparente. Precisa de partidos que tenham medo de falhar, vergonha de mentir e coragem de reformar.
O PS e o PSD ainda podem escolher. Podem continuar a administrar a decadência, esperando que o medo do desconhecido os salve. Ou podem reformar-se com brutal honestidade, cortando nos seus próprios vícios, abrindo portas, chamando gente competente e assumindo que o Estado não é uma herdade partidária.
Conclusão: a História não espera pelos aparelhos
Os partidos tradicionais ainda têm uma oportunidade. Mas é uma oportunidade curta. A confiança pública é como vidro antigo: pode durar séculos se for bem cuidado, mas quando cai ao chão não volta a ser o mesmo.
Se PS e PSD continuarem a actuar como actuaram em grande parte das últimas cinco décadas — alternando no poder, protegendo aparelhos, adiando reformas, distribuindo promessas e confundindo governação com gestão de clientelas — acabarão por perder a confiança que ainda lhes resta. Não serão necessariamente abolidos. Serão ultrapassados. E em política, ser ultrapassado pela História é uma forma lenta de desaparecer.
Portugal precisa de partidos vivos, não de museus com boletim de voto. Precisa de instituições fortes, não de máquinas cansadas. Precisa de governos que sirvam o povo, não de aparelhos que se sirvam do Estado. Porque a democracia não morre apenas quando chegam os seus inimigos declarados. Morre também quando os seus defensores oficiais deixam de merecer defesa.
Fontes de referência:
Lusa / SGMAI-AE — Resultados Globais das Eleições Legislativas de 2025:
https://www.lusa.pt/Files/lusamaterial/eleicoes/ar2025/el_ar2025.htm
Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna — Eleições Legislativas 2025:
https://www.eleicoes.mai.gov.pt/legislativas2025
RTP / Pordata — Estudo sobre falta de confiança na Assembleia da República:
https://www.rtp.pt/noticias/politica/estudo-mostra-que-mais-de-60-dos-portugueses-nao-confiam-no-parlamento_n1554933
RTP / Pordata — Oito em cada dez portugueses não confiam nos partidos políticos:
https://www.rtp.pt/noticias/politica/80-dos-portugueses-nao-confiam-nos-partidos-politicos_a1554940
Pordata — Dados sobre a Assembleia da República e participação eleitoral:
https://www.pordata.pt/subtema/portugal/assembleia+da+republica-186
Transparency International — Portugal no Corruption Perceptions Index:
https://www.transparency.org/en/countries/portugal
OCDE — Economic Surveys: Portugal 2026:
https://www.oecd.org/en/publications/oecd-economic-surveys-portugal-2026_025b3445-en.html
Francisco Gonçalves
Autor de Fragmentos do Caos
Em colaboração editorial com Augustus Veritas


