Bem Prega Frei Tomás: Democracia Capturada e a Reforma do Estado que Nunca Chega
- O “manual” veio antes: Mudar (2010) surge como mapa de reforma do Estado.
- O poder veio depois: 2011–2015 foi o tempo de governar no auge da crise.
- A ironia é estrutural: em Portugal, a reforma do Estado é frequentemente promessa de campanha e ausência de mandato.
- O regresso do pregador: em 2026 reaparecem críticas à “reforma do Estado em PowerPoint” e a “concursos viciados”.
- Moral da história: “bem prega Frei Tomás” continua a ser o partido mais votado no coração do povo.
Bem Prega Frei Tomás: a Reforma do Estado em Portugal, edição eterna
Pedro Passos Coelho teve quatro anos para reformar o Estado. Não quatro tardes. Não quatro “planos estratégicos”.
Quatro anos. E, no entanto, ficou-nos aquela sensação tão portuguesa de déjà-vu institucional: o Estado continuou um labirinto, só que com mais setas e menos saída.
A ironia é que o “guia” existia antes do cargo. Um ano antes (e, na verdade, até mais), apareceu o livro Mudar, recheado de intenções virtuosas e de diagnósticos que, convenhamos, não eram propriamente polémicos: um Estado pesado, uma administração com vícios, uma máquina que, sem disciplina, confunde “serviço público” com “rotina eterna”.
Depois veio o poder, veio a crise, veio a Troika, vieram os relatórios e a matemática do aperto.
E a reforma do Estado — aquela, a estrutural, a que muda incentivos, corta rendas e limpa as engrenagens — ficou adiada para a mesma prateleira onde Portugal guarda o futuro: entre a “promessa” e o “logo se vê”.
O país do “fazer o contrário”
É aqui que entra a velha máxima, com cheiro a sacristia e a verdade: “Bem prega Frei Tomás, faz o que eu digo, não faças o que eu faço.”
Em Portugal, a frase não é apenas provérbio — é um método de governação.
O político escreve sobre reformar. O eleitor acredita. O político chega ao poder e descobre três coisas: o sistema resiste, os interesses mordem, e a coragem tem custos.
A partir daí, a reforma vira “gestão”, e a gestão vira “comunicação”, e a comunicação vira a arte superior de explicar ao povo porque é que desta vez “não dá”.
O regresso do pregador
Agora, Passos Coelho regressa ao espaço público a falar aos portugueses — com aquele tom de quem ainda sabe onde estão as vírgulas do Estado.
Critica reformas feitas “em PowerPoint”, denuncia “concursos viciados”, descreve uma Administração onde “já está tudo decidido” antes do concurso nascer. Tudo muito grave. Tudo muito certeiro. Tudo muito… tardio.
E o povo, que não é ingénuo — só está cansado — ouve e pensa: “Se era assim tão óbvio, porque é que não mudou quando mandava?”
E é aí que a democracia portuguesa revela a sua doença principal: não é falta de ideias; é excesso de sobrevivência.
Os governos passam, o Estado fica, e a reforma fica sempre em estágio curricular.
Palavras para quê? Para isto: em Portugal, a política tende a ser uma liturgia de boas intenções, onde o sermão é sempre muito mais moderno do que o acto.
Frase final (curta e cortante)
Em Portugal, muitos prometem reformar o Estado; quando chegam lá dentro, limitam-se a aprender a viver dele.
Secção Final — O problema de Portugal não é só o político: é a máquina capturada
O problema não está, necessariamente, no político e nas suas intenções — por melhores que sejam. Está no Estado, que foi ficando capturado por redes de interesses e por uma teia de dependências invisíveis que, com o tempo, aprenderam a bloquear qualquer reforma séria. Quando alguém tenta mexer no núcleo duro, a resistência não aparece em palco: aparece nos bastidores, em mil gestos pequenos — um parecer que “não dá”, um regulamento que “sempre foi assim”, um procedimento que “tem de ser”, uma acção judicial, uma notícia plantada, uma comissão que adia, um departamento que emperra por inércia. O sistema não diz “não”; diz “talvez… daqui a dois anos”.
Por isso, não pode ser tarefa de uma só pessoa. Um reformador isolado é facilmente neutralizado: ou é engolido, ou é queimado, ou é domesticado. A reforma do Estado, quando é verdadeira, exige
massa crítica — muitas pessoas, em simultâneo, com coragem, determinação e princípios morais e éticos irrepreensíveis. E sim: isso é difícil de encontrar em Portugal, não por falta de gente decente, mas porque um sistema capturado selecciona e promove quem se adapta ao costume.
O antídoto não é esperar por “um salvador”. É construir regras anti-captura que não dependam de santos: transparência radical, incompatibilidades duras, travão às portas giratórias, auditoria permanente, e punição célere com recuperação efectiva de ganhos ilícitos. Menos fé em heróis; mais engenharia de travões.
Frase final: O problema não é o político — é o Estado que já tem donos.
Referências (publicações internacionais e fontes)
- Pedro Passos Coelho — Mudar, Lisboa, Quetzal, 2010. ISBN 978-972-564-846-9.
- Diário de Notícias — cobertura do discurso e das críticas à “reforma do Estado em PowerPoint” e “concursos viciados” (Fevereiro 2026).
- Jornal de Negócios — notícia sobre críticas às reformas e denúncia de concursos “decididos antes de serem feitos” (Fevereiro 2026).
- Freedom House — Freedom in the World (edições anuais) — tendência de erosão de liberdades e qualidade democrática.
- V-Dem Institute — Democracy Report (edições anuais) — ciclos de autocratização e desgaste institucional.
- World Justice Project — Rule of Law Index (edições anuais) — fragilidade dos controlos ao poder e eficácia institucional.
- Transparency International — Corruption Perceptions Index (edições anuais) — sinais de estagnação/retrocesso no combate à corrupção.
Crónica para Fragmentos do Caos — co’autoria editorial com Augustus Veritas.


