Burocracia,  Elites patéticas,  Manipulação da verdade,  Mediocridade,  Nepotismo,  País de Desigualdades e Injustiça

Portugal- A Crise da Educação Não É Acidente: É Arquitectura Política

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BOX DE FACTOS
  • O problema não é pontual: é estrutural, repetido, previsível.
  • O pensamento crítico é dispendioso: exige tempo, treino, autonomia e coragem.
  • O sistema prefere “funcionários” a cidadãos: gente que cumpra, não gente que compare.
  • O ruído substituiu a razão: indignação episódica, zero arquitectura de mudança.
  • Há saída: uma cultura de leitura, lógica e verificação — e começa em casa.

A Crise da Educação Não É Acidente: É Arquitectura Política

Um povo que não aprende a pensar não é um povo “mal ensinado”. É um povo bem administrado — para obedecer.

1) A escola como oficina de conformismo

Chamam-lhe “falha do pensamento crítico”, como se fosse uma avaria no motor de um carro: hoje falha, amanhã arranja-se.
Mas não. O que existe é um desenho. Uma pedagogia silenciosa onde o essencial não é compreender — é cumprir.
Cumprem-se programas, cumprem-se grelhas, cumprem-se metas, cumprem-se horários. E, no fim, cumpre-se o destino: a cidadania reduzida a papel e fila.

A inteligência, quando nasce livre, faz perguntas. E perguntas são uma forma de poder. Por isso, o sistema adora a criança que repete e teme a criança que compara. O sistema recompensa a resposta certa; desconfia da pergunta certa. E, assim, vai-se
educando uma geração inteira para amar o “correcto” e desconfiar do “verdadeiro”.

2) A avaliação como máquina de domesticação

Avaliar pode ser justiça. Mas também pode ser doma. Quando a escola mede sobretudo memorização, obediência e velocidade, está a dizer ao aluno: “não penses demasiado; não critiques; não te demores.” E quando o tempo é sempre curto, a reflexão torna-se luxo.
E um cidadão sem reflexão é um cidadão que compra slogans como quem compra pão: todos os dias, sem perguntar o que leva lá dentro.

3) O triângulo mortal: política, media e cansaço

A política simplifica para caber em soundbites. Os media dramatizam para caber em atenção. E o cidadão, exausto, escolhe por instinto, tribo, medo ou hábito. O resultado é perfeito para quem manda: uma democracia com gente em “modo avião” — presente no corpo, ausente na análise. E quando a vida é precariedade, o cérebro vira sobrevivência. Sem “RAM” para crítica. Sem energia para resistência.

4) A cidadania começa onde o sistema não manda: na leitura

Há uma coisa que regimes e máquinas burocráticas temem desde sempre: um leitor. Um leitor não é apenas alguém com livros:
é alguém com ferramentas para detectar truques, reconhecer padrões e desmontar narrativas. Ler é aprender a pensar com outros cérebros, de outras épocas, contra a tirania do instante.

Leituras que podem fazer a diferença na cidadania

Não são “livros para parecer culto”. São armas de lucidez. Escolhe um, lê devagar, sublinha, discute, contraria, verifica. A cidadania nasce desse atrito.

  • George Orwell — “1984”
    Uma lição brutal sobre linguagem, manipulação e o poder de reescrever a realidade.
  • Hannah Arendt — “Eichmann em Jerusalém”
    A anatomia da banalidade do mal: quando a obediência substitui a consciência.
  • Jürgen Habermas — “Mudança Estrutural da Esfera Pública”
    Para compreender como o debate público nasce, cresce e pode ser capturado por interesses.
  • Karl Popper — “A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos”
    Um mapa intelectual contra dogmas, profetas e “salvadores” que exigem submissão.
  • Paulo Freire — “Pedagogia do Oprimido”
    Educação como libertação: ensinar não é encher — é despertar.
  • Noam Chomsky & Edward S. Herman — “Manufacturing Consent”
    Um manual para reconhecer filtros mediáticos e propaganda com luvas brancas.
  • Daniel Kahneman — “Pensar, Depressa e Devagar”
    Para perceber como o nosso cérebro nos engana — e como somos fáceis de conduzir por atalhos.
  • Neil Postman — “Amusing Ourselves to Death”
    Quando a política vira entretenimento, a verdade vira figurante.
  • John Stuart Mill — “Sobre a Liberdade”
    A defesa clássica — e ainda necessária — do indivíduo contra a tirania da maioria e do Estado.
  • Agostinho da Silva — ensaios e entrevistas
    Um convite a sair da gaiola mental: liberdade como vocação e não como slogan.

5) O pequeno método que salva uma vida cívica

Antes de acreditares numa frase política, faz três gestos simples: define os termos (o que querem dizer com isso?),
pede o mecanismo (como vai acontecer?), exige o custo (quem paga, como, e com que efeitos colaterais?).
Se não houver respostas claras, não há política: há marketing.

Epílogo: a escola pode falhar, mas tu não és obrigado a falhar com ela

Quando um sistema fabrica gente cansada, a leitura é rebelião. Quando um sistema fabrica obediência, a pergunta é revolução.
O pensamento crítico não nasce de um “workshop”. Nasce de uma vida: de páginas lidas, de dúvidas sustentadas, de conversas sérias, de recusar a facilidade do rebanho.

A frase que muda tudo é esta: “Mostra-me o mecanismo.”

Artigo da Autoria de : Francisco Gonçalves
Co-autoria editorial : Augustus Veritas
Fragmentos do Caos — onde a lucidez ainda tem casa.

A ignorância não é falha: é projecto. E todo o projecto pode ser demolido.

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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