Democracia e Sociedade

O Inaudito Portugal

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BOX DE FACTOS

  • Portugal continua preso a uma economia de baixo valor acrescentado, demasiado dependente do turismo, serviços e baixos salários.
  • A burocracia permanece como uma das grandes forças de bloqueio à produtividade, à inovação e à liberdade económica.
  • A emigração jovem qualificada continua a revelar a incapacidade do país para reter talento.
  • A modernização do Estado é muitas vezes confundida com portais, formulários e palavras bonitas, quando devia significar eficiência real.
  • A saída exige ciência aplicada, indústria tecnológica, soberania digital, educação exigente, empresas com escala e uma cultura política com vergonha.

O Inaudito Portugal

Portugal é o país onde a decadência não cai: é administrada. Não se afunda com estrondo; afunda-se por despacho, parecer, comissão e conferência de imprensa.

Portugal é um país extraordinário. Não no sentido vulgar da palavra, desses países que constroem indústrias, inventam tecnologias, pagam bons salários, protegem os velhos, retêm os jovens e tratam o futuro com algum respeito. Não. Isso seria demasiado óbvio, quase suíço, e nós nunca fomos povo de copiar soluções fáceis quando podemos criar problemas originais.

Portugal é extraordinário porque conseguiu transformar a decadência numa arte administrativa. Não se afunda de repente, com estrondo, sirenes e discursos dramáticos à varanda. Afunda-se por despacho, com carimbo, parecer jurídico, comissão técnica, grupo de trabalho, consulta pública e uma frase final sobre “resiliência”.

É o naufrágio mais educado da Europa.

Por cá, quando o país empobrece, não se diz que empobrece. Diz-se que “atravessa desafios”. Quando os salários são baixos, não se diz que são baixos. Diz-se que há “moderação salarial”. Quando os jovens emigram, não se diz que o país os expulsou por falta de horizonte. Diz-se que “ganham experiência internacional”. Uma ternura. Até parece que o aeroporto é uma extensão do Erasmus, mas com lágrimas da mãe no embarque e contrato de trabalho em alemão.

A espumante das décimas

Portugal é também o único país onde se consegue celebrar crescimento económico com a solenidade de quem descobriu uma nova galáxia, mesmo quando o crescimento mal chega para pagar o café e a bica já vem com sobretaxa emocional. Crescemos 1 vírgula qualquer coisa e a nação quase abre champanhe. Não do caro, evidentemente. Uma espumante em promoção, porque a prudência orçamental também merece bolhas.

Depois há o turismo, essa nossa grande doutrina económica. O turista chega, fotografa a calçada, come bacalhau, bebe vinho verde, compra um íman de frigorífico e vai embora convencido de que esteve num país encantador. E esteve. Só não viu foi a parte de trás do cenário: os salários apertados, os pensionistas aflitos, os jovens sem casa, os trabalhadores a fazer contas, os serviços públicos cansados e o Estado a tossir pelos cantos como uma impressora velha da repartição.

O turismo é óptimo, naturalmente. Mas um país não pode viver eternamente de servir cafés ao mundo enquanto os seus engenheiros, programadores, médicos, investigadores e técnicos fazem check-in para partir. É como vender as telhas da casa para pagar o jantar e depois chamar a isso “dinamização do património”.

A inovação da complicação

Mas não sejamos injustos. Portugal tem inovação. Muita. Temos inovação na capacidade de criar problemas onde antes havia apenas dificuldades. Temos inovação na arte de transformar obras simples em epopeias arqueológicas. Temos inovação fiscal, sobretudo na imaginação com que se encontra sempre mais uma taxa, mais uma contribuição, mais um selo, mais uma obrigação declarativa. O contribuinte português não paga impostos: participa numa experiência espiritual de submissão financeira.

E depois temos o Estado digital. Essa criatura mitológica. Aparece nos discursos como um unicórnio veloz, brilhante e transparente. Na vida real, surge como um portal que não abre, uma password expirada, um certificado que falha, uma senha que não chega, um formulário que pede o documento que o próprio Estado já tem, mas que exige novamente, porque a máquina pública gosta de confirmar se o cidadão ainda conserva a vontade de viver.

É um sistema admirável. O Estado sabe tudo sobre nós, excepto quando precisamos que saiba. Aí, misteriosamente, nada consta.

A burocracia portuguesa é uma forma de teatro experimental. O cidadão entra com esperança, senta-se numa cadeira de plástico, tira uma senha, ouve números que nunca são o seu, observa um ecrã avariado e, ao fim de duas horas, descobre que lhe falta uma fotocópia de um documento que já entregou em 1998. Reage com tristeza. O funcionário reage com cansaço. A República reage com silêncio. E Deus, se existir, pede escusa e muda de balcão.

Os roteiros para lado nenhum

Entretanto, os nossos políticos continuam a falar de futuro. Falam de futuro com uma convicção comovente, sobretudo porque muitos deles parecem não ter tido uma ideia desde a adolescência partidária. São especialistas em frases redondas, programas vagos, planos estratégicos, pactos, agendas, visões e roteiros. O país está cheio de roteiros. O problema é que ninguém sabe conduzir.

A palavra “estratégia” tornou-se uma espécie de amuleto. Diz-se “estratégia” e pronto, parece que aconteceu alguma coisa. Estratégia para a habitação. Estratégia para a saúde. Estratégia para a inovação. Estratégia para a demografia. Estratégia para a produtividade. Estratégia para o interior. Estratégia para a estratégia, que essa também merece ser estrategicamente acompanhada.

Na prática, continuamos a ser governados como quem gere uma mercearia com pretensões imperiais: apaga-se um incêndio aqui, promete-se uma reforma ali, nomeia-se uma comissão acolá, culpa-se o governo anterior, invoca-se Bruxelas, descobre-se uma cativaçõezinha e segue a banda.

A mediocridade organizada

Portugal é um país onde a mediocridade não se limita a existir. Ela organiza-se, candidata-se, sobe na hierarquia, distribui lugares, dá entrevistas e, por vezes, recebe condecorações. É uma mediocridade de fato escuro, pasta de couro e vocabulário europeu. Não diz disparates. Diz “opções estruturantes”. Não falha. “Reajusta prioridades”. Não se contradiz. “Evolui no quadro das circunstâncias”.

E o povo? O povo observa, trabalha, paga, envelhece, espera, desespera, ri quando pode e resmunga quando deve. O povo português desenvolveu uma espécie de resistência trágico-cómica. Sabe que o país está torto, mas também sabe que dizer isso em voz alta ainda dá menos trabalho do que endireitá-lo. Há nisso uma sabedoria antiga, mas também uma desistência perigosa.

O pensionista sobrevive com uma reforma que faria corar uma pedra. O trabalhador ganha o suficiente para continuar a trabalhar. O jovem qualificado recebe conselhos sobre empreendedorismo de pessoas que nunca arriscaram um tostão próprio. O pequeno empresário é tratado como suspeito permanente. O contribuinte é ordenhado com método. O Estado promete simplificação. E no fim do mês todos olham para a conta bancária como quem observa um animal em vias de extinção.

O talento que incomoda

Mas a coisa mais inaudita em Portugal talvez seja esta: apesar de tudo, ainda há talento. Muito talento. Há gente capaz, criativa, inteligente, trabalhadora, tecnicamente competente, moralmente decente. Há programadores, engenheiros, cientistas, professores, médicos, empresários, técnicos, artistas e artesãos que fariam florescer outro país qualquer. O problema é que, por cá, demasiadas vezes o talento não é irrigado. É podado.

Em Portugal, quem pensa incomoda. Quem exige atrapalha. Quem sabe fazer denuncia, sem querer, os que fingem fazer. Quem trabalha com seriedade acaba muitas vezes a pagar a factura da incompetência alheia. É uma economia moral curiosa: a competência é tolerada enquanto não envergonhar demasiada gente.

O caminho existe

E, no entanto, o caminho existe. Não é místico. Não está escondido numa gruta templária, nem depende de um salvador providencial com outdoor gigante e sorriso de campanha. O caminho é antigo e moderno ao mesmo tempo: educação exigente, ciência aplicada, indústria tecnológica, empresas com escala, soberania digital, energia inteligente, administração pública competente, justiça célere, cultura de mérito e vergonha política.

Sim, vergonha política. Essa tecnologia esquecida.

Portugal não precisa de mais discursos sobre inovação. Precisa de fabricar, programar, investigar, exportar, patentear, construir, automatizar, robotizar, ensinar, formar, arriscar e exigir. Precisa de trocar a economia do quarto alugado pela economia do conhecimento aplicado. Precisa de deixar de ser o país onde se celebra o turismo como destino e começar a ser o país onde se cria tecnologia como futuro.

Mas para isso é preciso interromper a decadência. Não administrá-la melhor. Não lhe pôr um logótipo. Não criar uma comissão para monitorizar a sua trajectória. Interrompê-la.

Epílogo: o espelho sem maquilhagem

O inaudito Portugal ainda pode ser outra coisa. Pode deixar de ser esta jangada simpática, com turistas à proa, pensionistas à popa, jovens a saltar borda fora e políticos no camarote a apontar para gráficos ascendentes enquanto entra água pelo casco.

Pode ser país de criação, de indústria, de ciência, de liberdade inteligente e de dignidade produtiva.

Mas primeiro terá de fazer uma coisa terrível, quase revolucionária: olhar para si próprio sem maquilhagem.

E isso, em Portugal, continua a ser mais raro do que um formulário público que funcione à primeira.

Nota Final

Portugal não precisa de administrar melhor a decadência. Precisa de a interromper. E isso só se faz criando riqueza real, conhecimento aplicado, indústria moderna, soberania tecnológica e uma cultura política que volte a ter vergonha na cara.

Texto:
Francisco Gonçalves
& Augustus Veritas

Publicação: Fragmentos do Caos

Crónica crítica, satírica e ligeiramente desesperada sobre Portugal, esse laboratório atlântico onde a decadência aprendeu a preencher formulários.

Nota Final

Portugal entrega a piada já montada, com instruções, carimbo e recibo verde.

A sátira apenas faz a autópsia com um sorriso de lado. A realidade portuguesa é que insiste em entrar pela porta dentro vestida de tragicomédia, a tropeçar num formulário, a pedir senha e a dizer que está tudo “em fase de implementação”.

O humor, neste caso, é quase legítima defesa.

E quando a sátira bate certo, não é porque exagera. É porque a realidade já perdeu a vergonha de parecer caricatura.

E enquanto a realidade continuar a parecer escrita por um comité de burocratas bêbedos de autopromoção, o humor continuará a ser não apenas possível, mas obrigatório.

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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