Democracia e Sociedade

A Tríade Negra e o Fim da Inocência Ocidental

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BOX DE FACTOS

  • A cooperação entre Rússia, Irão e Coreia do Norte intensificou-se desde a invasão russa da Ucrânia em 2022.
  • A China tem funcionado como grande protector estratégico, económico e diplomático deste bloco autoritário, ainda que procurando preservar a sua imagem internacional.
  • A Rússia recebe apoio militar, munições, tecnologia e mão-de-obra de guerra dos seus aliados autoritários.
  • O Irão continua a ser apontado por governos ocidentais como patrocinador central de redes armadas e milícias alinhadas com Teerão.
  • A Coreia do Norte enviou tropas para apoiar a Rússia, num exemplo brutal de servidão militar até à morte.
  • A Ucrânia demonstrou que a liberdade não se defende com comunicados burocráticos, mas com resistência, armas, inteligência e vontade política.

A Tríade Negra e o Fim da Inocência Ocidental

O Ocidente continua a fingir que está perante interlocutores difíceis, quando está perante regimes que fizeram da mentira, da repressão, da guerra e da morte instrumentos normais de governo. A História já cobrou caro esta espécie de ingenuidade elegante. Voltará a cobrar.

Há momentos em que a linguagem diplomática se transforma numa espécie de anestesia moral. As palavras passam a servir menos para descrever a realidade e mais para a disfarçar. Fala-se de “tensões”, “preocupações”, “divergências”, “interlocutores difíceis”, “complexidade geopolítica” e outros panos de renda verbal com que se cobre a brutalidade nua dos factos.

Mas os factos continuam lá. Teimosos. Pesados. Ensanguentados.

Hoje existe uma convergência autoritária cada vez mais evidente entre Rússia, Irão e Coreia do Norte, com a China a funcionar como grande eixo de sustentação diplomática, económica e estratégica. Não se trata de uma fantasia de comentadores exaltados. Trata-se de uma realidade observada, documentada e analisada em relatórios de segurança internacional, centros de estudo e serviços de intelligence.

A avaliação anual da comunidade de intelligence dos Estados Unidos assinala que a cooperação crescente entre China, Rússia, Irão e Coreia do Norte aumenta o risco de que uma crise com um destes actores arraste os outros para a confrontação. O CSIS, por sua vez, tem analisado este agrupamento como um eixo CRINK — China, Rússia, Irão e Coreia do Norte — centrado na aprendizagem estratégica retirada da guerra da Ucrânia e dos conflitos no Médio Oriente.

A Rússia: o império que voltou a vestir a pele do cadáver soviético

A Rússia de Vladimir Putin já não é apenas um Estado agressor. É uma máquina de guerra política, militar, energética, informativa e psicológica. Invadiu a Ucrânia, destruiu cidades, deportou populações, bombardeou infra-estruturas civis e transformou a guerra numa liturgia imperial.

Moscovo não procura apenas território. Procura restaurar o direito imperial de decidir quem pode existir como nação livre. A Ucrânia é, por isso, mais do que uma frente militar. É uma fronteira moral. De um lado está a ideia de que os povos têm direito à sua soberania. Do outro está a velha crença imperial de que os povos pequenos existem para obedecer aos grandes.

E quando a Rússia percebeu que não conseguia vencer sozinha com rapidez, mergulhou mais fundo no pântano autoritário: munições, drones, apoio tecnológico, tropas estrangeiras, circuitos paralelos de sanções, propaganda global e alianças de conveniência com regimes que partilham o mesmo desprezo pela liberdade humana.

O Irão: a teocracia que exporta incêndios

O regime iraniano é uma das grandes centrais de instabilidade do mundo contemporâneo. Apresenta-se como Estado, mas age demasiadas vezes como oficina de guerra indirecta. Financia, arma, treina e inspira redes de milícias e grupos armados que actuam por procuração, permitindo a Teerão incendiar regiões inteiras enquanto conserva a teatralidade cínica da negação diplomática.

O Departamento de Estado dos Estados Unidos voltou a classificar o Irão como o principal patrocinador estatal do terrorismo e tem anunciado designações contra milícias alinhadas com Teerão. Esta acusação não é uma nota de rodapé. É o centro do problema: um Estado que usa actores armados não-estatais para projectar poder, intimidar adversários e corroer sociedades inteiras.

O resultado é conhecido: povos sequestrados, sociedades militarizadas, mulheres reprimidas, opositores perseguidos, jovens enforcados, minorias esmagadas, e uma teocracia que fala em dignidade enquanto transforma os seus cidadãos em súbditos e os seus vizinhos em campo de batalha.

A Coreia do Norte: a servidão organizada até à morte

A Coreia do Norte é talvez a imagem mais pura do totalitarismo em estado mineral: um país transformado em prisão hereditária, uma população mantida sob fome, vigilância e culto dinástico, um Estado onde a vida individual vale menos do que a fotografia do líder.

A recente notícia da Reuters sobre Kim Jong-un a elogiar soldados norte-coreanos que se terão suicidado para evitar captura na guerra da Ucrânia é de uma brutalidade quase medieval. Não estamos perante heroísmo livre. Estamos perante a pedagogia da morte ao serviço do regime. A pessoa desaparece. Fica apenas a obediência. Fica apenas o corpo como munição.

Quando um regime transforma os seus jovens em carne de guerra para servir outro império agressor, já não estamos no domínio da diplomacia normal. Estamos no domínio da monstruosidade política.

A China: o grande pilar silencioso da ordem anti-ocidental

A China é mais prudente, mais sofisticada e mais paciente. Não se comporta com a rudeza teatral de Moscovo, nem com a demência dinástica de Pyongyang, nem com o messianismo repressivo de Teerão. Pequim prefere a ambiguidade calibrada, o sorriso protocolar, a assinatura de memorandos, o comércio, a pressão tecnológica, a penetração económica e a diplomacia de longo curso.

Mas a sua função estratégica é clara: enfraquecer a ordem internacional liderada pelo Ocidente, reduzir a influência americana e europeia, proteger regimes alinhados contra sanções e pressões externas, e preparar um mundo onde a liberdade política deixe de ser critério civilizacional para passar a ser vista como excentricidade regional.

A China não precisa de invadir todos os dias para ser perigosa. Basta-lhe sustentar, comprar, absorver, condicionar, esperar e sorrir. Há venenos que não entram pela ferida. Entram pela dependência.

A hipocrisia ocidental: conversar com lobos como se fossem vegetarianos

O maior problema do Ocidente não é apenas a existência destes regimes. É a sua própria incapacidade de os encarar sem tremores, sem eufemismos e sem a velha tentação suicida do apaziguamento.

As democracias continuam a receber representantes destes regimes em fóruns internacionais como se todos partilhassem a mesma gramática moral. Continuam a falar de “diálogo construtivo” com aparelhos de Estado que prendem opositores, envenenam dissidentes, invadem países, financiam milícias, perseguem mulheres, censuram pensamento, manipulam informação e tratam os próprios povos como propriedade administrativa.

A ONU, que deveria ser templo mínimo da dignidade humana, tornou-se demasiadas vezes palco de equivalências grotescas. Ditaduras discursam sobre paz. Estados agressores falam de soberania. Regimes terroristas invocam direitos humanos. Carrascos usam microfones de mogno. A burocracia mundial aplaude, traduz e arquiva.

É a liturgia perfeita da impotência civilizada.

A Ucrânia mostrou o que significa resistir

A Ucrânia desfez a ilusão de que a liberdade sobrevive apenas com declarações de princípios. A liberdade precisa de escolas, sim. Precisa de cultura, sim. Precisa de imprensa livre, sim. Mas quando o tanque atravessa a fronteira, a liberdade também precisa de artilharia, drones, defesa anti-aérea, logística, inteligência militar e coragem colectiva.

A Ucrânia demonstrou uma verdade que muita Europa preferia esquecer: o mal político não recua perante discursos bonitos. Recua perante resistência organizada. Recua quando o custo da agressão se torna insuportável. Recua quando percebe que a vítima não ajoelha.

E aqui importa ser rigoroso: combater estes regimes não significa odiar os seus povos. Pelo contrário. Os primeiros reféns da Rússia imperial, da teocracia iraniana, da dinastia norte-coreana e do autoritarismo chinês são precisamente os cidadãos que vivem debaixo deles. O alvo das democracias não deve ser a destruição de povos. Deve ser a derrota estratégica dos aparelhos repressivos e expansionistas que os esmagam por dentro e ameaçam o mundo por fora.

O que o Ocidente tem de fazer

O Ocidente precisa de abandonar a infância diplomática. Não se combate uma aliança autoritária global com comunicados mornos, sanções tímidas e cimeiras onde todos fingem que ainda estamos em 1995.

É necessário reforçar a defesa europeia, apoiar militarmente a Ucrânia sem hesitações burocráticas, cortar dependências críticas de regimes hostis, proteger infra-estruturas digitais, punir redes financeiras de oligarcas e intermediários, combater propaganda e desinformação, expulsar agentes de influência infiltrados em universidades, media, empresas estratégicas e partidos políticos, e reconstruir uma cultura de defesa da liberdade.

As democracias têm também de recuperar a coragem moral de dizer que nem todos os sistemas políticos são equivalentes. Uma democracia imperfeita é corrigível. Uma ditadura perfeita é uma máquina fechada de servidão.

A neutralidade perante esta diferença não é sofisticação. É cobardia com gravata.

O aviso

A História não se repete como fotocópia. Repete-se como padrão. Antes das grandes tragédias, há sempre sinais. Há sempre discursos de normalização. Há sempre diplomatas a garantir que “a situação está controlada”. Há sempre empresários a defender que “não devemos cortar pontes”. Há sempre intelectuais a explicar que “o problema é complexo”. Há sempre governos a preferir mais uma reunião a uma decisão.

Depois chegam os tanques. Depois chegam os mísseis. Depois chegam os campos de refugiados. Depois chegam os órfãos, os hospitais destruídos, as cidades sem luz, os arquivos queimados, as valas comuns e os relatórios tardios.

O mundo livre está novamente perante essa escolha. Pode acordar agora, com lucidez, firmeza e unidade. Ou pode continuar a embalar-se na música de salão do apaziguamento, enquanto lá fora se afiam as lâminas.

A tríade negra — Rússia, Irão e Coreia do Norte — com a protecção calculista da China, não é apenas uma ameaça militar. É uma ameaça civilizacional. Representa a ideia de que o indivíduo nada vale, que a verdade é propriedade do Estado, que a força substitui o direito, que a mentira é instrumento legítimo de governo e que a liberdade é uma doença ocidental a ser erradicada.

Pois bem: se a liberdade é uma doença, então que o Ocidente volte a ser contagioso.

Não com ódio aos povos. Não com brutalidade cega. Não com a linguagem dos tiranos. Mas com a firmeza clara de quem sabe que há momentos em que a paz só sobrevive quando deixa de pedir desculpa por se defender.

Referências internacionais

Fragmentos do Caos
Por Francisco Gonçalves
Com a colaboração editorial de Augustus Veritas.

Nota editorial —
Enquanto se embala o presente com discursos de apaziguamento e linguagem diplomática, o futuro vai sendo silenciosamente hipotecado aos mesmos velhos fantasmas que a História já julgava enterrados. Há uma estranha cobardia nas sociedades livres quando, perante regimes que prendem, invadem, torturam, censuram e exportam guerra, insistem em tratá-los como parceiros difíceis, mas legítimos.

A diplomacia é necessária. Mas quando se transforma em teatro para adiar decisões, deixa de ser prudência e passa a ser rendição decorada. O mundo ocidental não precisa de mais comunicados elegantes. Precisa de lucidez, coragem e memória histórica. Porque o mal político raramente chega vestido de monstro; chega muitas vezes com protocolo, bandeira, intérprete oficial e sorriso de conferência internacional.

Continuar a fingir que todos jogam segundo as mesmas regras é talvez a mais perigosa das ilusões. As democracias podem tolerar diferenças, mas não podem normalizar a barbárie. Quando a liberdade pede licença para se defender, já começou a perder.

Se o Ocidente continuar a confundir prudência com medo, e diplomacia com rendição, não perderá apenas influência: perderá a alma. E quando as democracias perdem a alma, o mundo que nasce depois delas costuma ter botas, muros, silêncios e carrascos.

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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