Democracia e Sociedade

Quando o Mundo Escolhe Gerir o Terror

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BOX DE FACTOS
  • Negociar tréguas, reféns ou pausas tácticas não é o mesmo que derrotar o terrorismo.
  • Sem desarmamento efectivo, controlo territorial e desmantelamento político-financeiro, a ameaça tende apenas a sobreviver sob outra forma.
  • O Hamas e o Hezbollah não deram sinais credíveis de que pretendam abdicar voluntariamente da sua natureza armada.
  • Muitas diplomacias parecem querer gerir o impacto do terrorismo, não eliminá-lo pela raiz.

Negociar com o terror não é paz: é, muitas vezes, apenas administrar a sua sobrevivência

O mundo civilizado continua a falar como se toda a mesa de negociações fosse um altar da paz. Mas há mesas onde não se assina paz nenhuma: apenas se compra tempo, se adia o confronto e se permite ao terror respirar mais um pouco.

O mundo contemporâneo parece dominado não apenas por ditadores declarados, mas também por uma impressionante escassez de liderança estratégica séria. Há excesso de retórica, excesso de diplomacia teatral e excesso de incapacidade para distinguir entre prudência táctica e cedência estrutural. E, nesse vazio, continua a prosperar a ilusão de que se pode conciliar o inconciliável, civilizar o fanatismo armado ou converter terrorismo militante em interlocutor respeitável apenas porque alguém lhe abriu uma sala, serviu café e convocou câmaras de televisão.

Sempre houve quem defendesse que não se negoceia com terroristas. O princípio é duro, mas contém uma verdade civilizacional elementar: movimentos que fazem do massacre de civis, do medo, do rapto, da chantagem e do fanatismo um método de acção não podem ser tratados como parceiros políticos normais sem que se corrompa, logo à partida, a própria linguagem da ordem internacional.

O problema é que o mundo actual parece preferir administrar o terrorismo em vez de o desarmar. Fala-se de tréguas, corredores, pausas, acalmias, entendimentos provisórios, janelas de oportunidade, mecanismos de monitorização e fórmulas de equilíbrio. Tudo isso pode, em certos momentos, salvar vidas e ganhar tempo. Mas quase nunca resolve o essencial. E o essencial é simples: um movimento terrorista só deixa de ser ameaça quando perde capacidade operacional, capacidade política, capacidade financeira e legitimidade social para continuar armado.

Foi esse erro de fundo que se cometeu quando, após o ataque criminoso do Hamas contra Israel, se abriu espaço para sucessivas lógicas de negociação que tinham como horizonte imediato a gestão da crise, mas não o desmantelamento definitivo do movimento. Como se viu, essas conversações serviram para trocar reféns, criar pausas, aliviar pressão internacional e gerir danos colaterais. Mas não serviram para assegurar o fim estrutural do Hamas enquanto actor armado. Pelo contrário: permitiram a sua continuidade política e simbólica, mesmo quando severamente atingido.

O mesmo padrão reaparece agora perante o Hezbollah e perante o eixo de influência do Irão. Multiplicam-se as vozes que pedem negociações, cessar-fogo, contenção, mediação, canais discretos e iniciativas diplomáticas. Mas a pergunta decisiva permanece quase sempre por responder: o que se espera exactamente dessas negociações? O desarmamento real do terrorismo internacional? A dissolução voluntária das suas milícias? A abdicação do seu projecto ideológico? A renúncia espontânea à violência como instrumento? Nada disso parece plausível à luz da experiência.

Na verdade, o mais provável é que muitos negociadores actuem como quem alimenta um crocodilo na esperança de que ele escolha devorar outro primeiro. A história da diplomacia está cheia desse tipo de auto-engano: chamar realismo ao adiamento, chamar prudência à cedência, chamar paz a uma mera interrupção táctica entre duas vagas de violência.

Trégua não é vitória. Conversação não é desarmamento.

É importante distinguir duas coisas que a retórica internacional mistura com demasiada frequência. Uma é a negociação táctica para libertar reféns, suspender fogo ou aliviar uma emergência humanitária. Outra, muito diferente, é a ilusão de que uma organização terrorista ideológica deixará de o ser porque foi admitida, ainda que indirectamente, na arquitectura da negociação. O primeiro pode ser uma necessidade dolorosa. O segundo é quase sempre uma ficção perigosa.

Não há sinais sérios de que o Hezbollah queira voluntariamente desarmar-se porque lhe acenam com mais uma ronda diplomática. Não há sinais sérios de que o Hamas veja a mesa de negociações como caminho para a sua dissolução. O que se observa é outra coisa: uso instrumental da negociação para sobreviver, preservar influência, recompor legitimidade, reorganizar fileiras e regressar, quando possível, sob nova configuração.

É por isso que tantas iniciativas internacionais parecem fracassar no essencial. Porque tratam o terrorismo como problema de gestão de crise e não como ecossistema que exige derrota política, militar, financeira e territorial. Sem esse entendimento, a diplomacia transforma-se numa mecânica de suspensão temporária do desastre, e não numa estratégia de saneamento duradouro.

O erro europeu e a fadiga moral do Ocidente

Parte significativa da responsabilidade por este impasse recai sobre a Europa política e sobre uma certa cultura diplomática ocidental que confunde moderação com tibieza e prudência com incapacidade de nomear o mal. Fala-se muito em escalada, muito em contenção, muito em proporcionalidade, muito em “ambas as partes”, mas demasiado pouco em desarmamento obrigatório de organizações terroristas, em responsabilização dos patrocinadores estatais e em destruição efectiva dos mecanismos que alimentam essas redes.

O resultado desta fadiga moral é previsível: o terrorismo adapta-se, sobrevive, renasce e volta a impor-se como actor que todos dizem condenar, mas com o qual muitos acabam por aprender a coexistir. E coexistir com o terrorismo não é vencê-lo. É apenas aceitá-lo como parte permanente da paisagem estratégica.

Nenhuma civilização digna desse nome pode aceitar isso como normal. Pode, em momentos extremos, falar com o inimigo para salvar vidas imediatas. Mas não deve perder jamais a clareza de que o objectivo final não é acomodar o terrorismo, não é estabilizar a sua existência, não é integrá-lo simbolicamente como se fosse apenas mais um actor duro entre outros. O objectivo final deve ser sempre o seu desarmamento, o seu isolamento e a sua neutralização.

A pergunta ao mundo civilizado

Perante cada nova ronda de negociações, a pergunta deve ser brutalmente simples: isto serve para acabar com a ameaça ou apenas para a gerir? Serve para desmontar a máquina do terror ou apenas para lhe oferecer oxigénio táctico? Serve para libertar o futuro ou apenas para comprar dias de falsa tranquilidade?

Se a resposta for a segunda, então não estamos a falar de paz. Estamos a falar de administração diplomática da sobrevivência do terror.

Notas Finais

Uma coisa é negociar sob coacção para salvar vidas imediatas. Outra, muito diferente, é transformar o terrorismo num interlocutor tolerável, como se a sua permanência armada fosse um dado inevitável da ordem internacional. Toda a diplomacia que perde esta distinção começa a trocar a lucidez pela anestesia.

Referências internacionais e históricas

Francisco Gonçalves
Artigo de reflexão política e estratégica sobre terrorismo, negociação e a ilusão diplomática de chamar paz à simples sobrevivência do mal armado.
Nota editorial

Quando uma civilização começa a normalizar o terrorismo como ruído de fundo da História, já não está apenas a falhar militarmente ou diplomaticamente — está a falhar moralmente. Está a habituar-se ao intolerável. E quando o intolerável se torna rotina, a consciência colectiva vai-se corroendo em silêncio.


O mais inquietante é que essa aceitação raramente aparece com esse nome. Surge mascarada de realismo, de prudência, de equilíbrio, de diplomacia paciente, de gestão da complexidade. Mas, no fundo, muitas vezes significa isto: já não acreditamos ser possível erradicar o mal, por isso passamos a administrá-lo.


E isso é um empobrecimento civilizacional tremendo.


Porque uma coisa é reconhecer que o mundo é imperfeito e perigoso. Outra, muito diferente, é resignar-se a que o terror tenha assento permanente na arquitectura do presente, como se fosse uma força da natureza, uma inevitabilidade climatérica, ou uma espécie de actor legítimo com o qual apenas temos de aprender a conviver.


Uma sociedade saudável não pode pensar assim. Pode ser prudente, pode agir com cálculo, pode até negociar circunstancialmente para salvar vidas. Mas nunca deve perder a clareza de que o terrorismo é uma forma de barbárie organizada e não uma variante dura da política.


Quando o terrorismo passa a ser tratado como parte normal da paisagem, já não é apenas a segurança que está em risco — é a própria ideia de civilização.
O direito internacional ainda existe como consciência escrita da civilização; o que se perdeu foi a vontade comum de o fazer respeitar.
Hoje falar de “direito internacional” é quase idilico.

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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