Democracia e Sociedade

Quando a Política Vira Religião Tribal – Licenciados nas Trevas

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BOX DE FACTOS

  • O espaço público digital vive cada vez mais da reacção emocional e da canonização instantânea.
  • Um gesto político circunstancial é frequentemente transformado em epopeia moral nas redes sociais.
  • O século XXI multiplicou diplomas e plataformas, mas não garantiu maturidade intelectual colectiva.
  • A política contemporânea é cada vez mais consumida como religião emocional e menos como objecto de escrutínio.
  • A polarização digital e a lógica algorítmica favorecem claque, simplificação e idolatria transitória.

Licenciados nas Trevas

Nunca houve tanta instrução formal, tanta certificação académica e tanta tecnologia ao alcance da mão. E, ainda assim, basta um gesto político conveniente para milhões regressarem ao velho ritual da adoração, como se a civilização fosse apenas um verniz fino sobre o instinto tribal.

Assistimos, uma vez mais, ao velho espectáculo da humanidade em pleno século XXI: multidões digitalmente “alfabetizadas”, academicamente certificadas, tecnologicamente equipadas, e ainda assim entregues ao reflexo primário da adoração tribal. Bastou que Pedro Sánchez assumisse uma posição de confronto com Donald Trump sobre a guerra com o Irão para que, em muitos sectores, fosse imediatamente erguido à categoria de herói moral, quase santo laico de ocasião.

Houve um facto político concreto. Houve uma posição. Houve uma recusa. E, à volta disso, formou-se de imediato a velha liturgia do aplauso absoluto. O gesto deixou de ser apenas um acto político situado no seu contexto e passou a ser matéria de veneração, bandeira emocional, pretexto para a fabricação de grandeza instantânea. Num instante, a análise cedeu lugar à canonização.

Convém dizer o óbvio, essa espécie hoje tratada como inconveniência: um político pode tomar uma posição certa num momento determinado sem por isso se transformar num grande homem de Estado. Pode ter razão numa conjuntura concreta e continuar a merecer crítica noutras frentes. Pode resistir num episódio e continuar a ser medíocre no conjunto. Mas as redes sociais odeiam a nuance como os fanáticos odeiam o espelho.

A religião instantânea da política

O alimento das redes é o fervor. A política contemporânea já não pede juízo: pede claque. Já não pede discernimento: pede posicionamento emocional. Já não pede escrutínio: pede pertença tribal. E assim, no exacto momento em que um líder produz um gesto susceptível de ser lido como ousadia, multidões inteiras precipitam-se para a adoração, como se a lucidez fosse uma maçada e a prudência crítica uma forma menor de heresia.

Não se avalia a trajectória completa. Não se pesa a coerência ao longo do tempo. Não se medem consequências estruturais. Consome-se o instante, amplifica-se o símbolo e fabrica-se o mito. O espaço público torna-se uma igreja nervosa, acelerada e digital, onde os altares são erguidos à velocidade de uma tendência e demolidos à mesma velocidade, no dia seguinte.

A política deixou de ser, para demasiados, um exercício racional de avaliação do poder. Tornou-se uma sucessão de impulsos emocionais, uma dramaturgia contínua, uma arena onde a identidade da claque vale mais do que a verdade dos factos. Não se procura compreender: procura-se pertencer.

Muita escolaridade, pouca lucidez

É aqui que a tragédia ganha contornos quase grotescos. Porque o fenómeno não se limita a populações desinformadas ou marginais. Não. Envolve licenciados, mestres, doutorados, especialistas, comentadores, profissionais sofisticados, cidadãos munidos de linguagem técnica, acesso a jornais internacionais e convicção profunda de viverem no auge da modernidade racional.

E, no entanto, perante o primeiro ídolo conveniente, regressam às trevas com notável entusiasmo. Mudaram os instrumentos, mas não a estrutura mental. Têm diplomas, mas ajoelham. Têm plataformas, mas obedecem ao reflexo. Têm acesso à informação, mas deixam-se conduzir pela histeria do momento. O problema do nosso tempo não é a falta de instrução formal. É o facto de essa instrução tantas vezes coexistir com uma indigência crítica quase intacta.

Multiplicaram-se congressos, certificações, pós-graduações, escolas de governação, fóruns globais, think tanks, cimeiras e seminários. Mas a capacidade de pensar contra o contágio emocional permanece frágil. A capacidade de separar um facto de uma narrativa continua escassa. A capacidade de resistir ao apelo da tribo continua dramaticamente subdesenvolvida.

Há muita informação e pouca sabedoria. Há muita credencial e pouca estatura. Há muita escolaridade e pouca emancipação do espírito.

O brilho técnico e a persistência das trevas

O grande paradoxo do Ocidente contemporâneo é este: aperfeiçoou instrumentos, mas não purificou o juízo. Criou redes globais, mas não venceu o primitivismo tribal. Encheu o espaço público de dados, gráficos, estudos e acesso instantâneo ao conhecimento, mas continua a produzir massas emocionalmente manipuláveis, sedentas de heróis transitórios e incapazes de sustentar uma análise adulta por mais de alguns minutos, tal com há muitos séculos atrás.
A manipulação das massas continua igual, e os políticos medíocres da actualidade conhecem bem este fenómeno da psicologia humana.

As trevas do nosso tempo já não usam archotes nem grilhões. Usam ecrãs de alta definição, slogans polidos, frases virais, indignações coreografadas e a satisfação narcísica de cada utilizador convencido de estar a participar num momento histórico quando apenas está a repetir, com fervor digital, um reflexo colectivo de submissão narrativa.

A humanidade continua, em larga medida, a viver no interior dessas trevas. Não por falta de meios, mas por défice de interioridade crítica. Não por ausência de conhecimento disponível, mas por incapacidade de o transformar em autonomia mental. O século XXI iluminou as máquinas, mas não iluminou suficientemente a consciência. Pir outras palavras, a humanidade ainda não foi capaz de transcender as Trevas da Tribo.

A claque como substituto do pensamento

O drama não está apenas em Sánchez, Trump ou qualquer outra figura da temporada. Essas são personagens contingentes. O drama está no comportamento civilizacional que se repete sempre que o poder oferece um símbolo fácil de consumir. O drama está nesta multidão de cidadãos formalmente instruídos que já não pensa em termos de verdade, mas de alinhamento emocional.

Hoje, um líder não é julgado pelo conjunto da sua obra: é reduzido à “frame” do dia. Não é analisado: é venerado ou demonizado. Não é escrutinado: é consumido. A esfera pública converte-se assim num mercado litúrgico onde a mercadoria principal é a reacção moral instantânea.

E quando isto sucede em massa, aquilo que se desagrega não é apenas a qualidade do debate. É a própria possibilidade de uma cidadania adulta. Porque uma sociedade incapaz de manter distância crítica em relação aos seus ídolos ocasionais está sempre a um passo de trocar liberdade por fascínio, análise por emoção e pensamento por claque.

Epílogo

No fundo, a tragédia não está em que um homem seja excessivamente aplaudido. A tragédia está em que milhões de pessoas, muitas delas licenciadas, doutoradas e convencidas da sua superioridade esclarecida, continuem a comportar-se como tribos emocionais à procura de ídolos rápidos.

Mudaram os templos. Mudaram os altares. Mudaram os instrumentos. Mas a pulsão de ajoelhar perante narrativas convenientes permanece quase intacta. E isso diz-nos uma verdade desagradável: a humanidade pode ter avançado em técnica, mas continua alarmantemente atrasada em consciência.

O século XXI encheu o mundo de ecrãs, diplomas e vaidades académicas, mas continua a produzir multidões que, perante o primeiro ídolo conveniente, regressam alegremente às trevas com o entusiasmo de quem julga estar a caminhar para a luz.

Referências internacionais

Francisco Gonçalves
Co-autoria editorial por Augustus Veritas — Fragmentos do Caos

O drama do século XXI não é a falta de instrução; é esta abundância de diplomados que continuam a rastejar mentalmente por entre as trevas, trocando pensamento por claque e lucidez por adoração.

Nota editorial: Em Fragmentos do Caos não escrevemos para agradar. Escrevemos para incomodar o conforto dos mentirosos, romper o verniz das narrativas e lembrar que a verdade não nasceu para ser simpática. Num tempo de servidão elegante, opinião domesticada e aplauso coreografado, escolhemos a palavra livre, crua e indócil. Quem vier à procura de sedativos, propaganda ou delicadezas para consumo social, bateu à porta errada. Aqui escreve-se para acordar.

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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