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Diplomas não são competência: o equívoco que custa caro a Portugal

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BOX DE FACTOS
  • Diploma é prova de percurso; competência é prova de entrega.
  • A confusão “credencial = excelência” cria elites de papel e empurra o talento real para a sombra.
  • O custo aparece em baixa inovação, má execução e Estado lento — com “interfaces bonitas” por cima do ferro velho.
  • O mundo move-se para skills-based: contratar pelo que a pessoa sabe fazer, não pelo que diz o diploma.

Diplomas não são competência: o equívoco que custa caro a Portugal

Quando um país confunde o carimbo com a capacidade, o resultado é inevitável: muito “currículo”, pouca obra.
E a realidade — essa engenheira impiedosa — acaba sempre por passar factura.

Portugal tem um problema antigo, mas com uma roupa sempre nova: trata o diploma como se fosse sinónimo de competência e excelência.
E depois estranha que a inovação seja rara, que a execução falhe, e que os grandes sistemas do Estado pareçam museus com ecrãs brilhantes.

1) O culto do “papel” substituiu a prova

O diploma é uma chave. Mas a chave não é a casa.
Uma organização saudável mede competência por sinais que não cabem num canudo: capacidade de resolver problemas reais, clareza mental, autonomia, responsabilidade, pensamento crítico, e — sobretudo — histórico de entrega.

Quando a selecção e a progressão assentam no “tem curso, logo sabe”, o sistema promove uma ilusão: pessoas treinadas para passar — não necessariamente para construir.

2) Criam-se castas e mata-se o artesanato da excelência

O país aprendeu a venerar títulos como brasões.
Resultado: quem tem talento prático, experiência dura, rigor técnico, capacidade autodidacta, ou inteligência operacional — muitas vezes — fica a falar para a parede.

E aqui nasce um paradoxo cruel: a excelência real é tratada como “suspeita” por não vir embrulhada em credenciais — enquanto a mediocridade certificada é promovida com solenidade.

3) A inovação não nasce em organogramas — nasce no impacto

Inovar é experimentar, falhar depressa, corrigir, iterar, voltar a tentar — com o foco na realidade.
Mas quando a liderança é escolhida por credencialismo, instala-se o teatro:
procedimento em vez de decisão, reunião em vez de execução, consultoria em vez de competência interna, e um medo patológico de arriscar.

Assim se constrói o “país vitrine”: apresentação moderna, engrenagens antigas, e uma máquina a ranger
por baixo do verniz.

4) O mundo já percebeu: contratar por competências funciona melhor

Lá fora, cada vez mais se discute a transição para skills-based hiring: avaliar pessoas por competências demonstradas, provas práticas, portfólios, projectos, e resultados — não apenas por requisitos formais.

A razão é simples e devastadora: existem lacunas de competências e mismatches (competências mal alinhadas) que prejudicam produtividade, inovação e adaptação tecnológica.
O diploma pode coexistir com a competência — mas não a garante.

O antídoto: três medidas que mudavam o jogo

  • Prova prática em recrutamento e progressão (casos reais, desafios reais, avaliação por pares).
  • Carreiras por impacto (o que resolveste, o que melhorou, o que ficou de pé ao fim de um ano).
  • Respeito institucional pelo ofício (técnico, operacional, científico): excelência é trabalho, não é carimbo.

Epílogo

Um país que confunde diploma com competência transforma o futuro numa fila de espera.
Porque o futuro — ao contrário dos formulários — não se preenche: constrói-se.

E quando a realidade bate à porta com um problema grave, ela não pergunta pelo teu título.
Pergunta apenas: sabes resolver?

Artigo da Autoria de : Francisco Gonçalves
Co-autoria e curadoria editorial: Augustus Veritas

Portugal em contexto europeu: onde a realidade já não perdoa

No espaço europeu, a conversa tem vindo a mudar de tom: menos reverência por credenciais, mais obsessão por
capacidade efectiva e por Estado que executa.
Não por moralismo, mas por necessidade — porque a transição digital, a pressão demográfica e a competição global
não esperam que os organogramas “ganhem coragem”.

A Comissão Europeia, no pacote State of the Digital Decade 2025, mede a transformação digital dos países em eixos
concretos — competências digitais, digitalização das empresas e serviços públicos digitais
ou seja, mede exactamente aquilo que o credencialismo não garante: pessoas capazes, processos capazes, e instituições capazes.

(ver: EC — Digital Decade 2025)

Do lado da OCDE, o Government at a Glance 2025 insiste na mesma tecla, por outras palavras:
governos resilientes e modernos exigem capacidade administrativa, competências e governação digital que funcione para lá do ecrã — na engrenagem, no bastidor, no “chão de fábrica” do Estado.

(ver: OECD — Government at a Glance 2025)

E, no mercado de trabalho, relatórios internacionais sobre competências mostram um problema estrutural:
desajustes entre formação e necessidades reais, e esse atrito trava produtividade e inovação.
Por isso cresce a aposta em modelos de avaliação por competências (provas práticas, portfólios, projectos, entrega), porque é isso que separa “saber falar” de “saber fazer”.

(ver: OECD — Skills mismatch)

Traduzindo para português simples: Portugal não está sozinho no desafio — mas está demasiado confortável na ilusão.
O futuro europeu não vai premiar “doutoramentos de vaidade”; vai premiar competência demonstrada,execução e responsabilidade.
E isso não se pendura na parede — prova-se no terreno.

Testemunho de bastidor: quando o topo não sabe como a máquina respira, e se desce, ou sobe, ao país real

Ao longo de uma vida inteira em IT — projectos, infraestruturas, crises, milagres improvisados e noites em que a lógica era a única luz acesa — vi o país real por dentro, no ponto exacto onde os discursos deixam de valer e as engrenagens mostram o metal.

Lembro-me, já por volta de 2008, de um Director de Banco: homem de gravata bem ensinada, voz treinada para o “alinhamento” e para a “visão estratégica”… mas que não fazia a mínima ideia de como funcionava o mecanismo do IVA.
Não era uma falha de memória — era um vazio de base. A espécie de vazio que não grita, mas decide.

E nesse instante compreendi, com uma serenidade quase trágica, o verdadeiro drama nacional: não é a falta de diplomas — é a facilidade com que se põe gente no comando sem conhecer o mapa,
como quem entrega um navio a quem nunca viu o mar, mas sabe falar de “rotas” com brilho nos olhos.

Depois admiram-se que o Estado e as empresas pareçam modernos por fora e antigos por dentro.
Porque quando quem manda não percebe os fundamentos, instala-se a liturgia:
o PowerPoint substitui a competência, a reunião substitui a decisão, o procedimento substitui o pensamento, e a “consultoria” torna-se o sacramento oficial para abençoar a ignorância com selo dourado.

E assim se fabrica a ilusão: uma vitrine impecável… e, atrás do pano, a máquina a ranger.
O país não cai por falta de talento — cai porque, demasiadas vezes, a incompetência ocupa o lugar de pilotagem e chama “ruído” a tudo o que é realidade.

Num país que confunde pose com saber, o futuro não é construído — é apenas adiado com boa apresentação.

Referências internacionais (seleção)

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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