No País Real, Comédia Oficial
BOX DE FACTOS
- No país real, a burocracia não desapareceu com a digitalização — apenas mudou de formato.
- Multiplicam-se plataformas e procedimentos; escasseiam resultados simples e mensuráveis para o cidadão.
- A linguagem oficial privilegia “processo” e “articulação”, raramente “decisão” e “responsabilidade”.
- O cidadão continua a suportar custos de tempo, ansiedade e incerteza administrativa.
- A máquina não colapsa porque há pessoas que resolvem, todos os dias, o que o sistema não resolve.
País Real, Comédia Oficial
Há países onde a realidade inspira arte.
Aqui, a realidade já vem em género cómico, com produção pública e reposição diária.
Chamam-lhe modernização.
O cidadão chama-lhe fila digital.
Entrámos na era dos portais únicos, dos balcões inteligentes e dos processos desmaterializados.
E foi um sucesso: o papel desapareceu da secretária e reapareceu no ecrã, em formato obrigatório, com limite de megabytes e erro inesperado.
I. A arquitectura do encaminhamento eterno
No País Real, nada se perde: tudo é encaminhado.
Encaminha-se para análise, da análise para validação, da validação para parecer, do parecer para despacho, do despacho para harmonização, da harmonização para esclarecimento, e do esclarecimento para novo pedido por “incongruência no campo observações”.
Se perguntares quando resolve, respondem com serenidade administrativa: “A sua situação está a ser acompanhada.”
Tradução livre: está a ganhar raízes.
II. O cidadão como ficheiro vivo
Na teoria, o sistema serve pessoas.
Na prática, as pessoas servem o sistema.
Deixas de ser cidadão: passas a ser “registo com pendências”.
A tua vida cabe em separadores, anexos e comprovativos com validade de 30 dias.
Antes pediam três fotocópias.
Hoje pedem três uploads, dois comprovativos, um anexo facultativo obrigatório e validação por SMS que chega depois de expirar.
Progresso, dizem eles.
III. A língua oficial da não-decisão
Neste país, o verbo preferido não é “resolver”.
É “proceder”.
Procede-se à avaliação, procede-se ao apuramento, procede-se à articulação.
No fim do dia, nada aconteceu — mas houve acta.
A acta é o monumento nacional ao adiamento elegante.
Certifica presença, regista intenções e absolve resultados.
IV. O culto do anúncio
Temos uma indústria poderosa: produção de anúncios.
Quando há problema, anuncia-se plano.
Se o plano falha, anuncia-se pacote.
Se o pacote emperra, anuncia-se nova governação integrada da medida anterior.
E quando a realidade insiste em não colaborar, cria-se uma comissão de acompanhamento da implementação da monitorização.
O país aplaude.
A impressora institucional aquece.
V. Justiça com relógio decorativo
A justiça, por cá, não falha sempre.
Mas atrasa-se com uma disciplina olímpica.
Chega muitas vezes quando o dano já sedimentou, quando o ruído já venceu a prova e quando o cidadão já desistiu de perguntar.
O resultado é um vírus cívico perigoso: “é assim mesmo”.
No dia em que isto vira normal, a comédia deixa de ser estilo e passa a administração corrente.
VI. O povo que mantém o país ligado à tomada
Apesar de tudo, isto não cai.
Não por milagre institucional — por esforço humano.
Caiu uma plataforma? alguém resolve por fora.
Falhou um circuito? alguém improvisa.
Faltou resposta? alguém assume o turno extra.
Este país é sustentado por uma maioria silenciosa que trabalha sem slogan: profissionais de saúde, professores, técnicos, pequenos empresários, trabalhadores anónimos.
São eles a infraestrutura moral da República.
VII. Diagnóstico sem maquilhagem
- Não falta talento nacional — sobra atrito institucional.
- Não falta vontade cívica — sobra desgaste burocrático.
- Não falta diagnóstico — falta execução com responsabilidade nominal.
- Não falta democracia formal — falta eficácia ética no quotidiano.
Conclusão
Rimo-nos, sim.
Mas não por leveza.
Rimo-nos porque o humor é a última defesa contra a normalização do absurdo.
Neste país, a comédia já não é interlúdio.
É acta.
E enquanto o formulário mandar mais do que o bom senso,
continuaremos modernos por fora e emperrados por dentro.
Frase final: “No País Real, a comédia é oficial: muda o governo, mantém-se o formulário.”
Fragmentos do Caos — Crónica satírica para um país que já ri com recibo, porque a factura, essa já pagou o IVA.


