Democracia e Sociedade

Os Políticos Plastificados e a Arte de Lamentar o Incêndio que Ajudaram a Atear

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BOX DE FACTOS

  • António Costa afirmou, enquanto presidente do Conselho Europeu, que considera inaceitável que jovens gastem todo o salário em habitação.
  • A declaração surge depois de anos em que Portugal enfrentou uma forte degradação no acesso à casa.
  • A crise da habitação agravou-se durante os anos em que Costa foi primeiro-ministro, incluindo com maioria absoluta.
  • O texto reflecte criticamente sobre a ausência de responsabilidade moral das elites políticas portuguesas.
  • A crítica central não é apenas ao erro político, mas à capacidade de certos governantes falharem internamente e depois se apresentarem como observadores indignados em palco internacional.

Os Políticos Plastificados e a Arte de Lamentar o Incêndio que Ajudaram a Ateiar

Há políticos que não governam: atravessam o poder como quem atravessa uma passadeira vermelha. Deixam problemas, sobem na carreira, e depois regressam ao palco para lamentar, com voz grave, as ruínas que ajudaram a construir.

Há uma espécie política que se tornou dominante nas democracias modernas: o político plastificado.

Não é exactamente o político corrupto clássico, de charuto, cofre escondido e envelope pardo. Esse, pelo menos, tinha uma certa rusticidade criminosa, quase artesanal. O político plastificado é diferente. É polido, treinado, maquilhado pela comunicação, protegido por assessores, embalado em frases neutras, envolto em valores universais e permanentemente disponível para lamentar, em palcos internacionais, os problemas que ajudou a criar em casa.

É o governante que passa anos no poder, assiste ao país tornar-se socialmente insustentável, deixa os jovens encurralados entre salários baixos e rendas obscenas, permite que a habitação se transforme num casino imobiliário, e depois, já instalado numa tribuna europeia, declara com ar compungido que é “inaceitável” os jovens gastarem todo o salário para comprar casa.

Inaceitável?

A palavra é correcta. O emissor é que estraga a solenidade.

A solenidade do descaramento

António Costa afirmou, enquanto presidente do Conselho Europeu, que considera inaceitável que jovens em países como Portugal tenham de gastar “100% do salário” durante décadas para comprar casa. A declaração seria justa se viesse de um cidadão comum, de um jovem encurralado, de uma família esmagada por prestações, ou de alguém que há anos denunciasse a degradação do mercado habitacional. Mas vinda de quem governou Portugal durante quase oito anos, incluindo com maioria absoluta, a frase soa menos a lucidez e mais a descaramento institucional.

Porque a realidade não apareceu por geração espontânea. As casas não subiram por feitiçaria. As rendas não enlouqueceram por capricho dos astros. A especulação imobiliária, o turismo sem travões suficientes, os vistos dourados, a pressão externa sobre os centros urbanos, a incapacidade de construir habitação pública relevante, a lentidão administrativa, a pobreza salarial e a ausência de uma estratégia séria de ordenamento foram peças de uma mesma engrenagem.

Uma engrenagem que esmagou uma geração inteira enquanto muitos governantes faziam conferências, programas, anúncios e powerpoints com aquele brilho falso das coisas que parecem existir apenas no projector.

A habitação como sentença social

Entre 2015 e o quarto trimestre de 2025, os preços da habitação na União Europeia subiram fortemente; em Portugal, a subida acumulada foi apresentada na imprensa como uma das maiores da União Europeia. Isto não é apenas uma estatística. É uma sentença social.

É o retrato de um país onde trabalhar deixou de garantir futuro, onde poupar se tornou uma anedota cruel, onde sair de casa dos pais passou a ser um acto quase heróico, e onde a classe média foi lentamente empurrada para a condição de inquilina permanente da sua própria esperança.

O Banco de Portugal também tem mostrado a degradação da acessibilidade à habitação: o esforço financeiro necessário para comprar casa subiu de forma brutal a partir de 2022, com valores que colocam muitas famílias acima dos limiares razoáveis de sustentabilidade. Em Lisboa, há estimativas que apontam para uma prestação teórica superior ao rendimento mediano de uma família para uma casa mediana.

Isto já não é mercado. É expulsão social com fachada legal.

A anatomia do político plastificado

O político plastificado nunca falha: apenas “herda contextos”. Nunca é responsável: apenas “gere complexidades”. Nunca admite erro: “reconhece desafios”. Nunca deixa ruínas: deixa “processos em curso”. Nunca empobrece o país: “enfrenta constrangimentos externos”. Nunca governa mal: “foi surpreendido por conjunturas”.

É uma criatura imune ao peso moral dos seus actos, sempre pronta a transformar a responsabilidade em discurso e o fracasso em currículo.

Quando está no governo, pede paciência.

Quando sai do governo, dá lições.

Quando chega à Europa, descobre as vítimas.

Quando fala do povo, parece estar a falar de uma espécie distante, observada de binóculos a partir de uma varanda climatizada.

O drama português não é apenas ter políticos incompetentes. Isso seria grave, mas talvez corrigível. O drama é ter uma elite política que demasiadas vezes se move entre cargos nacionais, europeus, fundações, consultorias, organismos internacionais e tribunas mediáticas sem jamais prestar verdadeira conta moral pelo país que deixou para trás.

O cargo tornou-se escada.

O país tornou-se cenário.

O povo tornou-se figurante.

A responsabilidade tornou-se nevoeiro.

E depois admiram-se que cresça a revolta

Não é populismo exigir decência. Não é radicalismo perguntar quem beneficiou de décadas de más opções. Não é extremismo dizer que uma democracia onde os governantes falham para cima está moralmente doente.

Extremismo é aceitar como normal que os mesmos que produziram ou toleraram o desastre apareçam depois como comentadores autorizados da tragédia.

Portugal habituou-se a este ritual grotesco: o político passa pelo governo, administra a mediocridade, distribui promessas, alimenta clientelas, falha na execução, sai pela porta dourada e reaparece com ar grave a diagnosticar o país. É como se o cirurgião que deixou o paciente em estado crítico fosse depois convidado para uma conferência internacional sobre ética médica.

Há qualquer coisa de profundamente ofensiva nesta coreografia.

Ofensiva para os jovens que não conseguem comprar casa.

Ofensiva para os casais que adiam filhos porque não conseguem pagar uma renda.

Ofensiva para os trabalhadores qualificados que emigram porque Portugal lhes oferece salário de sobrevivência e custo de vida europeu.

Ofensiva para os idosos que vêem os filhos e netos partir.

Ofensiva para todos os que cumpriram regras, pagaram impostos, trabalharam décadas e assistiram à transformação do país numa montra turística para uns e numa cela económica para outros.

Quando a política perde a vergonha

A política, quando perde vergonha, transforma-se num espectáculo indecente. E muitos destes políticos plastificados já não parecem sentir sequer o desconforto da contradição. Dizem uma coisa hoje, o contrário amanhã, lamentam aquilo que ontem normalizaram, e fazem-no com uma serenidade quase clínica.

Talvez seja essa a grande vantagem do plástico: não enruga, não cora, não sente.

Mas os povos sentem.

Sentem quando o salário acaba antes do mês.

Sentem quando a casa é impossível.

Sentem quando a escola pública tropeça.

Sentem quando o hospital não responde.

Sentem quando a justiça demora anos.

Sentem quando a promessa democrática se transforma numa longa sala de espera.

E talvez seja essa a pergunta essencial: quantas gerações pode um país sacrificar antes de deixar de ser apenas mal governado e passar a ser moralmente expropriado?

Uma cultura política de impunidade

António Costa não está sozinho neste retrato. Ele é apenas uma das figuras mais visíveis de uma cultura política mais vasta: uma cultura onde a carreira sobrevive sempre ao desastre, onde a eloquência substitui a reparação, onde a imagem vence a substância, onde a máquina partidária protege mais do que a consciência exige.

São os políticos plastificados do nosso tempo: tecnicamente impecáveis, moralmente ocos, comunicacionalmente brilhantes e humanamente distantes.

Falam do povo como quem cita um relatório.

Falam da pobreza como quem comenta uma variável macroeconómica.

Falam da habitação como quem nunca teve de escolher entre renda, comida e dignidade.

Falam da juventude como se a juventude fosse uma plateia, não uma geração encurralada.

Epílogo: a máscara também estala

A democracia não precisa de santos. Mas precisa de vergonha. Precisa de responsáveis que saibam dizer: falhámos. Precisa de gente que, antes de subir aos palcos internacionais, olhe para o país que deixou e tenha a decência de não fazer sermões sobre as ruínas que ajudou a edificar.

Porque o povo pode ser paciente, pode ser sereno, pode até ser distraído durante algum tempo. Mas não é infinitamente parvo.

E quando os governantes transformam a política numa carreira de plástico, polida por fora e vazia por dentro, mais cedo ou mais tarde chega o momento em que a máscara estala.

E por baixo dela, quase sempre, não está a grandeza.

Está apenas o velho rosto da impunidade.

Referências

  • ECO — “António Costa considera inaceitável que em Portugal os jovens gastem todo o salário em habitação”.
  • Eurostat — Dados sobre evolução dos preços da habitação na União Europeia.
  • Banco de Portugal — Indicadores sobre acessibilidade à habitação e taxa de esforço das famílias.
  • Diário Imobiliário — Análise sobre compra de casa em Portugal e taxa de esforço acima do rendimento mediano em várias regiões.

Crónica de opinião

Por Francisco Gonçalves, com assistência editorial de Augustus Veritas, para Fragmentos do Caos.

Nota Editorial

António Costa não se limitou a empurrar os problemas do país para as calendas gregas, como tantos outros governantes antes dele. A sua governação deixou marcas profundas na habitação, nos serviços públicos, na degradação institucional e na transformação da política numa máquina de sobrevivência e promoção pessoal.

Mais grave ainda: o seu percurso político continua envolvido numa sombra de suspeições, escutas, processos, ex-colaboradores investigados e episódios públicos que, mesmo sem constituírem condenação judicial, feriram a confiança de muitos portugueses na transparência do poder. Num Estado de Direito, ninguém deve ser condenado sem prova. Mas também numa democracia madura ninguém deve esconder-se eternamente atrás da lentidão dos tribunais para escapar ao julgamento político e moral dos cidadãos.

A responsabilidade pública não termina quando falta uma sentença. Há uma ética anterior ao código penal: a ética da verdade, da explicação, do decoro e da prestação de contas. E quando um antigo primeiro-ministro, hoje promovido a palco europeu, aparece a lamentar os problemas sociais que se agravaram durante a sua governação, o país tem o direito de perguntar se estamos perante consciência tardia ou apenas mais uma representação da velha escola política portuguesa: falhar cá dentro, discursar lá fora, e nunca pedir verdadeiramente desculpa a ninguém.

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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