Democracia e Sociedade

Budapeste, 1994. E a alegria de um povo que não queria voltar à sombra negra

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BOX DE FACTOS
  • Estive em Budapeste em 1994, numa estadia de uma semana proporcionada pela tecnológica norte-americana Synoptics.
  • A memória dessa viagem ficou associada à alegria de um povo que se sentia livre das garras da ex-URSS.
  • Hoje, em 12 de Abril de 2026, Viktor Orbán foi derrotado nas legislativas húngaras, encerrando um ciclo de 16 anos de poder.
  • A vitória de Péter Magyar foi lida por muitos como sinal de reaproximação à Europa política e ao mundo livre.
  • Este texto cruza memória pessoal com leitura histórica de um povo que volta a escolher a abertura em vez do cerco.

Budapeste, 1994. E a alegria de um povo que não queria voltar à sombra

Há cidades onde a História não dorme. Budapeste é uma delas. Eu vi-a sorrir à liberdade em 1994 — e hoje volto a saudá-la porque há povos que, mesmo quando se desviam, acabam por reencontrar o caminho do mundo livre.

Estive em Budapeste em 1994, durante uma semana, numa estadia proporcionada pela antiga tecnológica norte-americana Synoptics. Não fui ali como simples visitante de ocasião, de olhar distraído e memória curta. Fui com a atenção de quem sempre procurou perceber os povos através da atmosfera que respiram, dos gestos que revelam, do silêncio que carregam. E o que vi nessa cidade ficou em mim como ficam certas imagens essenciais: não apenas guardadas, mas vivas.

A Hungria que encontrei tinha ainda na pele os vestígios da opressão soviética, mas exibia já outra luz. Havia no ar uma alegria funda, serena, quase espantada de existir. Não falo apenas da beleza de Budapeste, que é real e quase teatral, com o Danúbio a cortar a cidade como se a História ali tivesse aprendido a reflectir-se na água. Falo da sensação humana de um povo que se sabia finalmente fora das garras da ex-URSS e começava a reaprender a liberdade.

Sentia-se uma vontade de pertencer ao mundo. Uma fome de abertura. Uma esperança de normalidade democrática. Como se aquela cidade tivesse passado anos a respirar por uma frincha e, de repente, alguém tivesse escancarado as janelas. Havia qualquer coisa de profundamente comovente nessa transição. Não era perfeição. Não era riqueza. Não era euforia ingénua. Era outra coisa, mais nobre e mais rara: a alegria de um povo que voltava a ser senhor do seu próprio destino.

A memória de uma liberdade recém-recuperada

Talvez por isso esta recente mudança política na Hungria me tenha tocado tanto. Não a vejo apenas como episódio eleitoral, como dança previsível de partidos, como sucessão mecânica de nomes. Vejo-a à luz daquela memória. Vejo-a como quem testemunhou, mesmo que por breves dias, um país a emergir de uma longa noite imperial. E por isso não consigo olhar para a derrota de Viktor Orbán apenas como notícia. Para mim, ela ressoa como uma espécie de acerto histórico.

Orbán tornou-se, ao longo dos anos, mais do que um governante húngaro. Transformou-se num símbolo europeu da deriva iliberal: concentração de poder, desgaste dos contrapoderes, hostilidade aos media independentes, nacionalismo de cerco, ambiguidade perante Moscovo e uma forma de capturar o Estado sem abolir formalmente as eleições. O povo húngaro conheceu, assim, uma nova versão da sombra — menos soviética na forma, mas ainda assim sufocante no espírito.

E, no entanto, há povos que não esquecem completamente o sabor do ar livre. Podem cansar-se, podem hesitar, podem deixar-se conduzir durante anos por uma narrativa de medo, orgulho ferido ou soberania teatral. Mas nem por isso perdem para sempre a memória da abertura. Quando essa memória regressa, mesmo difusa, a História pode voltar a mexer-se.

A Hungria que volta a erguer a cabeça

É por isso que hoje dou vivas ao povo húngaro. Não porque adore alternâncias por si mesmas, nem porque imagine que a política resolve milagrosamente os vícios de uma nação. Dou vivas porque um povo decidiu, uma vez mais, não se deixar encerrar numa redoma ideológica. Porque, depois de anos de cerco político, desgaste moral e fechamento institucional, encontrou força para dizer que não queria continuar fechado sobre si mesmo.

Há nesta escolha algo que me parece mais fundo do que o simples voto útil. Parece-me uma vontade de regresso. Regresso à Europa política, à liberdade de espírito, à pertença no mundo democrático, à recusa de uma identidade nacional construída como bunker. E isso, para quem viu Budapeste em 1994, tem um significado quase íntimo. É como rever um velho amigo que se perdera durante anos e que, enfim, volta a reconhecer o caminho de casa.

A cidade que eu vi nessa altura não tinha o sorriso artificial das propagandas nem a rigidez sombria dos regimes fechados. Tinha uma espécie de contentamento vigilante, como quem sabe o preço do que acabou de recuperar. Era essa luz que me impressionava. E é essa mesma luz, ou pelo menos a sua lembrança, que hoje creio ver reacender-se na escolha de tantos húngaros.

Budapeste não esquece

Budapeste é uma cidade onde a História parece continuar a respirar entre pontes, colinas, fachadas, cafés e pedras. Não é uma cidade amnésica. Tem cicatrizes. Tem memória. Tem grandeza e tragédia. Por isso mesmo, talvez seja injusto olhar para a Hungria apenas através dos últimos anos de Orbán. Há ali uma tradição de resistência, de cultura, de pertença europeia e de dignidade nacional que não cabe no molde estreito do iliberalismo.

O que agora aconteceu mostra precisamente isso: um povo pode desviar-se sem se perder para sempre. Pode ceder a líderes que exploram o medo, a identidade e o ressentimento, mas ainda assim conservar, lá no fundo, uma reserva moral de liberdade. E quando essa reserva desperta, a democracia deixa de ser apenas um procedimento; torna-se uma reaparição da alma colectiva.

É essa reaparição que hoje saúdo. E faço-o não como observador frio, mas como alguém que viu, numa semana de 1994, o rosto mais belo da libertação húngara: o rosto simples de pessoas que sentiam, talvez pela primeira vez em muito tempo, que pertenciam outra vez ao mundo aberto e não à jaula de um império.

Há povos que não desistem da liberdade, mesmo quando parecem adormecer dentro dela. O povo húngaro mostrou agora que continua a ter memória. E quando um povo tem memória, a esperança deixa de ser apenas desejo — torna-se possibilidade histórica.

Francisco Gonçalves
Publicado em Fragmentos do Caos
Um testemunho pessoal sobre Budapeste, a memória da libertação pós-soviética e o instante em que um povo decide não voltar à sombra.

– Francisco Gonçalves (2026)

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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