Portugal : O País Que Perdoa Sempre ao Mesmo Rosto
- Marcelo cultivou uma imagem pública de proximidade, “selfies” e “afectos”, amplamente explorada mediaticamente.
- O caso das gémeas luso-brasileiras tornou-se uma das maiores sombras políticas da sua presidência.
- A polémica da indemnização de Alexandra Reis mostrou, mais uma vez, um Presidente omnipresente no comentário e na gestão do dano político.
- Parte relevante do jornalismo português preferiu a narrativa afectiva ao escrutínio severo.
- O problema não é apenas um homem: é um país treinado para desculpar o poder quando este se apresenta com simpatia televisiva.
O País Que Perdoa Sempre ao Mesmo Rosto
Portugal tem um dom estranho, quase místico, para transformar a fragilidade institucional em doçura pública. Noutros lugares, uma presidência marcada por excessos de exposição, polémicas familiares, episódios embaraçosos e comentários incessantes seria lembrada com dureza. Entre nós, não. Entre nós, embrulha-se tudo em sorrisos, em folclore de telejornal, em selfies, em afectos, em frases leves para consumo rápido, como se a leveza fosse virtude e a omnipresença uma forma superior de serviço público.
Marcelo Rebelo de Sousa foi vendido ao país como o Presidente próximo, caloroso, humano, desempoeirado. E, durante demasiado tempo, isso bastou. Bastou aos jornalistas, que viram na sua hiperactividade uma mina permanente de títulos, directos e soundbites. Bastou ao regime, que ganhou um rosto simpático para mascarar a pobreza da sua engrenagem. E bastou a um povo cansado, pobre, órfão de exigência cívica, que preferiu confundir empatia teatral com grandeza institucional.
A presidência dos afectos — ou a política transformada em espectáculo doméstico
Marcelo não exerceu apenas a função presidencial: encenou-a diariamente. Comentou quase tudo, apareceu em toda a parte, reagiu a cada sobressalto nacional como se a chefia do Estado fosse uma mistura de comentador residente, animador cívico e figura tutelar omnipresente. Esta fórmula produziu popularidade. Mas também degradou a própria percepção do cargo. Um Presidente que fala de tudo arrisca-se a esvaziar o peso de quase tudo. A palavra, repetida até à exaustão, deixa de ser magistratura e passa a ser ruído de fundo.
O problema é que Portugal, país amante da familiaridade e pouco dado à disciplina institucional, recebeu essa erosão como virtude. A distância que o cargo exige foi sendo substituída por uma falsa intimidade nacional. Belém desceu do pedestal republicano para a sala de estar do país. E muitos acharam isso moderno, terno, quase enternecedor. Na verdade, era apenas o princípio da banalização.
O caso das gémeas: a sombra que devia ter quebrado o encantamento
O caso das gémeas luso-brasileiras tratadas com um dos medicamentos mais caros do mundo foi o momento em que a presidência dos afectos encontrou a parede fria da suspeita. A polémica envolveu contactos próximos do poder, a actuação de estruturas do Estado e a intervenção do filho do Presidente. O episódio foi descrito publicamente como um dos que mais abalou politicamente Marcelo ao longo dos seus dois mandatos.
Numa democracia com nervo moral, isto teria produzido uma ruptura séria entre imagem e legitimidade. Não se exigia histeria; exigia-se apenas severidade. Mas Portugal, esse velho país de indulgências selectivas, preferiu mais uma vez o conforto à lucidez. Houve escândalo, claro. Houve indignação, sim. Mas tudo em doses controladas, sem abalo sísmico, sem verdadeira revolta cívica, sem o tipo de escrutínio que fere e deixa marca.
O mais simbólico nem sequer foi o episódio em si. Foi a reacção do ecossistema mediático e popular: uma espécie de espanto breve, seguido de uma lenta reabsorção do escândalo pela espuma do costume. Em Portugal, até as sombras acabam convidadas para a fotografia de família do regime.
Alexandra Reis, TAP e a república do comentário permanente
A polémica da indemnização da TAP a Alexandra Reis mostrou outro traço da era Marcelo: a incapacidade de resistir ao impulso de comentar, enquadrar, classificar, dramatizar. O Presidente surgia de novo como voz tutelar da interpretação nacional, pairando sobre o episódio com observações, advertências e imagens de efeito. Talvez isso agrade ao país televisivo. Mas não fortalece a República.
Quando o chefe de Estado se converte em presença incessante na administração simbólica de cada crise, o cargo perde altitude. Já não arbitra: narra. Já não representa: acompanha. Já não impõe distância: instala proximidade. E a proximidade, quando se torna vício institucional, acaba por proteger mais o sistema do que o povo.
O jornalismo domesticado e o povo resignado
Mas seria injusto colocar tudo às costas de Marcelo. O seu verdadeiro aliado foi um certo jornalismo de regime — jornalismo de adorno, de corte, de almofada, de reverência sorridente. Em vez de vigiar o poder, acompanhou-o. Em vez de desconstruir a pose, amplificou-a. Em vez de tratar a Presidência como um órgão constitucional submetido a escrutínio rigoroso, ajudou a fixá-la como uma espécie de património sentimental da nação.
E o povo? O povo pobre, cansado, ferido pela precariedade, pela impotência e pela lenta degradação da vida pública, agarrou-se também a esse teatro. Não por maldade. Talvez por hábito. Talvez por carência. Talvez porque, num país onde quase tudo falha, até a simpatia encenada parece uma forma de consolo. O drama é que esse consolo tem um preço: anestesia a exigência, amolece a crítica, infantiliza a democracia.
É assim que o regime se perpetua. Não apenas pela força dos seus aparelhos, mas pela doçura do seu verniz. Não apenas pela captura das instituições, mas pela captura emocional do olhar popular. Portugal não precisa de grandes arquitectos da manipulação; basta-lhe esta velha mistura de paternalismo, comentariado cúmplice e povo habituado a sofrer em silêncio, de quando em quando interrompido por um aplauso.
Conclusão: a ternura nacional ao serviço da decadência
No fundo, a história de Marcelo é apenas a história de um país que continua a premiar a aparência de humanidade acima da densidade do carácter institucional. Um país onde um Presidente pode atravessar polémicas sérias e continuar a ser embalado pela indulgência de redacções amaciadas e pelo afecto automático de uma sociedade domesticada.
Eis a nossa miséria política em forma pura: não odiamos o poder que nos diminui; acariciamo-lo. Não nos revoltamos contra a mediocridade elegante; acolhemo-la. Não exigimos grandeza republicana; contentamo-nos com simpatia de superfície. Assim vai Portugal — de afecto em afecto, de escândalo em escândalo, de absolvição em absolvição — até ao dia em que já não reste da democracia senão o cenário, os figurantes e o velho cheiro a mofo por detrás do pano.
Referências
RTP — Marcelo ensaiou com selfies a presidência dos “afectos”
https://www.rtp.pt/noticias/politica/marcelo-ensaiou-com-selfies-a-presidencia-dos-afetos_n1706495
RTP — Caso das gémeas. A “situação desagradável” que abalou o Presidente Marcelo e o levou a “cortar” relações com o filho
https://www.rtp.pt/noticias/pais/caso-das-gemeas-a-situacao-desagradavel-que-abalou-o-presidente-marcelo-e-o-levou-a-cortar-relacoes-com-o-filho_n1723088
RTP — Marcelo pede esclarecimentos sobre critério da indemnização de Alexandra Reis
https://www.rtp.pt/noticias/politica/marcelo-pede-esclarecimentos-sobre-criterio-da-indemnizacao-de-alexandra-reis_v1456105
Citador / Eça de Queirós — Política de Interesse
https://www.citador.pt/textos/politica-de-interesse-eca-de-queiros
“Em Portugal não há sciencia de governar nem há sciencia de organizar opposição.”
— Eça de Queirós, Política de Interesse
Francisco Gonçalves — com coordenacao Editorial de Augustus Veritas
Fragmentos do Caos | Crónica editorial
Nota Editorial
Portugal tornou-se perito numa arte triste: a de confundir simpatia com estatura, presença mediática com grandeza institucional, e verniz humano com responsabilidade pública. Durante demasiado tempo, o país deixou-se embalar por gestos, afectos e encenações de proximidade, enquanto a exigência republicana ia sendo empurrada para o canto escuro onde se arrumam as virtudes incómodas.
O problema nunca foi apenas um Presidente. O problema é um ecossistema inteiro de complacência — jornalistas que adocicam o poder, comentadores que o maquilham, e um povo exausto que, tantas vezes, já nem pede grandeza: contenta-se com o teatro. É assim que a decadência se normaliza. Não com golpes de Estado, não com tanques, não com fanfarras dramáticas — mas com sorrisos, desculpas, afectos e uma espantosa capacidade nacional para absolver o que devia ser julgado com dureza moral e cívica.
Esta crónica não é apenas sobre Marcelo. É sobre um país que continua a acariciar o poder que o diminui. Um país onde o escândalo passa, a imagem fica e a pobreza de escrutínio é reciclada em ternura colectiva. E enquanto assim for, Portugal continuará a afundar-se não na violência da tirania, mas na lama morna da mediocridade consentida.
Há povos que derrubam mitos quando estes falham. Portugal, demasiadas vezes, limita-se a pedir-lhes mais uma fotografia.
Eça de Queirós: um espelho cruel de Portugal
Há textos que envelhecem. E há textos que apodrecem connosco, porque o país insiste em não sair do mesmo pântano moral e político. Este trecho de Eça de Queirós não é apenas literatura: é um raio X demolidor de Portugal, ontem como hoje. Nele está tudo — a desconfiança do povo, a mediocridade dos governantes, a esterilidade das discussões, a circulação viciada do poder entre os mesmos, e a exaustão de uma pátria cansada de promessas, de retórica e de decadência.
O que Eça percebeu com lucidez feroz foi isto: o maior veneno de um país não é apenas a pobreza material, mas a lenta corrosão da confiança pública. Quando ninguém confia em ninguém, quando o poder serve sobretudo para se proteger a si mesmo, quando as medidas que poderiam melhorar a vida dos cidadãos dormem em gavetas eternas e só avança com fulgor aquilo que os empobrece, a política deixa de ser caminho de salvação colectiva e torna-se simples administração do desgaste nacional.

Esta é talvez a frase invisível que atravessa todo o excerto: em Portugal, há sempre energia para cobrar, controlar, tributar e conservar privilégios; mas falta quase sempre coragem para reformar, cortar o inútil, exigir honra, premiar o mérito e servir verdadeiramente o país. É por isso que Eça continua a queimar. Porque não descreve apenas um tempo passado — descreve a permanência quase obscena da nossa miséria cívica.
“O que verdadeiramente nos mata, o que torna esta conjuntura inquietadora, cheia de angústia, estrelada de luzes negras, quase lutuosa, é a desconfiança.”
E talvez seja essa a mais terrível continuidade portuguesa: um país onde os nomes mudam, os partidos trocam cadeiras, os discursos reciclados regressam com nova maquilhagem, mas a estrutura profunda permanece — fraca, viciada, teatral, auto-protectora. Eça não escreveu apenas sobre o seu século. Escreveu, com uma crueldade luminosa, sobre a longa fadiga de Portugal.
Ler Eça hoje não é revisitar o passado. É ouvir, com um século de atraso, a sentença que continuamos a merecer.


