Democracia e Sociedade

O Pós-Abril Visto por Quem Não Foi Ingénuo desde muito cedo

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Escrevo este texto, em modo autobiográfico, não para me justificar, nem para reclamar qualquer superioridade moral, mas para deixar claro ao leitor que a minha crítica ao país, à sua democracia e à sua longa deriva de mediocridade não nasce de ouvido, nem de azedume tardio. Nasce de uma juventude vivida com estudo, inquietação, militância, observação directa e desencanto precoce. Estas linhas são, por isso, uma breve nota autobiográfica: o contexto humano e intelectual de onde brota a minha voz em Fragmentos do Caos.

BOX DE FACTOS

  • Texto autobiográfico sobre a formação intelectual e política do autor antes e depois do 25 de Abril.
  • Inclui referências à leitura precoce de filosofia, história das civilizações e revistas de pensamento crítico.
  • Descreve a militância política juvenil, o desencanto com os partidos e o afastamento para o mundo da informática.
  • Apresenta uma visão crítica da captura do Estado e da ascensão do oportunismo e da mediocridade.
  • Assume a escrita como acto de memória, denúncia e lucidez cívica.

Eu Não Falo de Cor

Há quem descubra o mundo tarde, por empréstimo, por moda ou por conveniência. Eu comecei cedo demais a lê-lo, a desconfiar dele e a perceber que por trás dos regimes, das bandeiras e dos discursos, quase sempre se escondia a mesma velha luta entre a inteligência e a mediocridade, entre a verdade e a máscara.

Eu não falo de cor. Nunca falei. Quando denuncio a ignorância, a mediocridade organizada ou a canalhice disfarçada de normalidade democrática, sei do que estou a falar. Não falo por imitação, nem por moda, nem por azedume tardio. Falo porque estudei, observei, vivi e comparei. Falo porque comecei cedo a pensar e cedo demais a perceber o país em que vivia.

Concluí o antigo 7.º ano dos liceus em 1974. Mas, muito antes dessa data, a minha formação interior já tinha começado a abrir caminhos próprios. Aos quinze anos lia os grandes filósofos, desde a Antiguidade até ao pensamento moderno. Estudava a história das civilizações, da Suméria ao mundo contemporâneo, não como passatempo escolar, mas como quem procura entender as forças profundas da condição humana, as ascensões e quedas dos impérios, as promessas luminosas e as suas frequentes degenerações.

Lia história mundial com espírito crítico. Não me interessava decorar glórias oficiais, nem aceitar versões cómodas do passado. Queria perceber as estruturas de poder, a fabricação dos mitos, a natureza da servidão, a fragilidade da liberdade. Já nessa altura compreendia bem o regime em que vivia. Sabia o que era o salazarismo, o seu cinzentismo moral, a sua opressão sem grandeza, a sua arquitectura de silêncio e obediência. Mas sabia também que o outro lado não era automaticamente virtuoso. Percebia já, com a intuição e a razão a caminharem juntas, que as ditaduras travestidas de comunismo, os socialismos dogmáticos e os vários “ismos” que reclamavam redenção para a humanidade podiam esconder a mesma fome de domínio, apenas com vocabulário diferente.

A inquietação precoce

Aos quinze anos lia mensalmente, por assinatura, clandestinamente claro, a revista O Tempo e o Modo. Num país abafado, aquela leitura era uma janela aberta para um ar mais denso, mais livre, mais exigente. Ao mesmo tempo, participava já em reuniões discretas de conspiração contra o regime, primeiro na Covilhã, depois em Lisboa. Não era ainda homem feito, mas já não era habitante obediente da cerca mental que o regime queria impor. A minha juventude não foi a da passividade. Foi a da inquietação.

Ainda antes do 25 de Abril, com dezasseis anos, aderi ao MRPP. Naquele tempo, para mim, isso representava a aproximação a um meio onde circulavam intelectuais, activistas e energias de confronto real com a ditadura. Aderi porque recusava o conformismo e porque queria agir. Queria estar onde a recusa fosse activa e não apenas murmurada. Depois aconteceu o 25 de Abril. Eu tinha dezassete anos e participei com activismo em assembleias, debates e na vibração intensa desse período em que o país parecia, por instantes, acreditar que podia reinventar-se.

Mas mesmo nessa altura eu sabia, ou pelo menos intuía de forma muito clara, o que era Portugal. Sabia o que era o espírito português quando se fecha sobre si próprio. Sabia o que era o cinzentanismo nacional, o provincianismo militante, a suspeita perante a inteligência, a hostilidade velada à diferença, a tendência para reduzir tudo ao nível da mediania administrável. Isso causava-me já incómodo na época. Ainda assim, acreditei. Acreditei porque a juventude também precisa de acreditar que as rupturas históricas podem abrir caminho a um país mais digno.

O desencanto com os partidos

A esperança, porém, não demorou muito a embater na observação concreta do real. À medida que o pós-25 de Abril se ia organizando, comecei a ver com nitidez crescente o tipo humano que os partidos estavam a atrair. PCP, PS e PSD, cada um à sua maneira, pareciam reunir não o melhor do país, mas frequentemente o pior: oportunistas, carreiristas, vaidosos sem profundidade, burocratas em gestação, democratas súbitos de convicção conveniente, sobreviventes morais especializados em mudar de pele sem mudar de vício.

Fui militante político e activista durante três anos. Vi por dentro. Vivi por dentro. E isso basta para destruir muitas ilusões. Vi o aparelho partidário começar a cercar o Estado. Primeiro os gabinetes, os ministérios, os lugares de influência. Depois as empresas públicas, os organismos intermédios, os espaços de nomeação e controlo. Mais tarde, a mesma lógica estendeu-se também ao sector privado. O oportunismo crescia. A mediocridade crescia com ele. E a inteligência independente era, pouco a pouco, afastada dos lugares onde poderia fazer diferença.

Não era difícil adivinhar o que viria a seguir. Bastava olhar com atenção. Bastava reconhecer o material humano em ascensão. Bastava ver como os pequenos gestores da conveniência iam tomando conta da democracia nascente. O grande drama não era apenas político; era moral e civilizacional. O país trocava a possibilidade de uma renovação profunda por uma nova distribuição de lugares, favores e máscaras.

A fuga para a lógica

Aos dezoito anos fascinei-me pelas tecnologias de informação e pela programação pura e dura. Esse fascínio não foi uma simples escolha profissional. Foi também uma forma de afastamento. Saí da política partidária porque não queria estar ligado ao lodo do oportunismo, aos ditadores de ontem transformados em democratas de conveniência, aos especialistas em adaptar a consciência ao vento dominante.

A informática abriu-me um outro território. Ali havia, pelo menos durante muito tempo, uma ordem diferente: lógica, construção, estrutura, mérito, criação concreta. As máquinas não mentiam por ambição, nem fingiam convicções para subir na vida. Havia nelas uma espécie de honestidade funcional que eu já encontrava menos nos homens e muito menos nos aparelhos políticos. Mergulhei nesse mundo com paixão. E foi ele que me levou depois para Inglaterra, para os Estados Unidos, para a Holanda e para outros contextos onde pude trabalhar, aprender e alargar ainda mais a minha visão.

Mas nunca deixei de acompanhar a política. Mesmo muito ocupado profissionalmente, seguia-a com atenção crescente, sobretudo aos fins-de-semana, entre leituras, observações e um desconforto que se tornava mais fundo com o passar dos anos. Li Jorge de Sena, Agostinho da Silva, entre muitas outras mentes verdadeiramente livres em Portugal. Conhecia a história dos militares envolvidos no 25 de Abril. Conhecia os políticos oportunistas que se juntaram aos partidos de poder. Via como cercavam o aparelho do Estado, como se estendiam depois às empresas públicas e privadas, como ocupavam posições, distribuíam favores, consolidavam redes, neutralizavam a inteligência incómoda.

Ver por dentro

Nada disso me era abstracto. Eu conhecia muitos desses homens. Conhecia-lhes os percursos, as ambições, as limitações, o modo como se moviam. José Sócrates, por exemplo, foi colega, embora de outra turma no antigo 7.º ano, na Covilhã. Vi o seu crescimento e o de muitos outros, até porque os nomes agora já nem importam (são apenas história). Não os via como figuras remotas de um teatro político televisivo. Conhecia-lhes a matéria humana. E talvez por isso nunca me tenham impressionado as poses públicas, os tiques de grandeza, as narrativas de self-made men da democracia. O país, tantas vezes, confunde brilho superficial com substância, e ambição teatral com mérito verdadeiro.

Ao longo de décadas fui vendo crescer aquilo que hoje tantos fingem descobrir com espanto: o oportunismo como método, a mediocridade como sistema, a promoção do obediente sobre o competente, do dócil sobre o livre, do funcional sobre o brilhante. Vi o país afunilar-se, a exigência perder espaço, a cultura pública empobrecer, a economia arrastar-se, o Estado social degradar-se, a pobreza persistir e a retórica democrática servir demasiadas vezes de verniz a uma estrutura moralmente exausta.

A ruptura final

Continuei na minha profissão até aos cinquenta e sete anos. Trabalhei intensamente, construí, programei, viajei, aprendi, fiz obra. Mas a certa altura a mediocridade que eu observara na política começava já a subir também até ao pescoço nas empresas privadas. A mesma pobreza de visão, a mesma hostilidade à inteligência livre, a mesma promoção do manejável, a mesma burocratização do vazio. Cheguei então a um limite.

Pedi a reforma antecipada, apesar do corte enorme. Foi uma decisão dura, materialmente pesada, mas moralmente necessária. Preferi pagar caro pela minha independência do que continuar a vender tempo de vida a ambientes onde o ar se tornara irrespirável. E foi a partir daí que compreendi, de forma definitiva, qual seria o meu papel: não participar no circo, mas observá-lo, criticá-lo e denunciá-lo.

Não quis integrar a farsa. Quis preservar a liberdade de a desmontar. Quis ser cidadão activo, não actor de conveniência. Quis continuar a olhar para este país com lucidez, mesmo quando a lucidez dói. E o que vi, e continuo a ver, é uma democracia canalha, um país que ao fim de cinquenta anos permanece economicamente frágil, com uma economia débil, um Estado social em afundamento e uma cultura pública frequentemente dominada por pequenos administradores da mediocridade.

Epílogo

Tudo o que hoje escrevo, critico e denuncio vem desse percurso. Não nasce de azedume tardio nem de radicalismo decorativo. Nasce de uma juventude em que li cedo, pensei cedo, participei cedo e percebi cedo demais a facilidade com que uma esperança colectiva pode ser capturada pelos profissionais da conveniência. Nasce do olhar de quem viu por dentro e não esqueceu.

Por isso insisto: eu não falo de cor. Falo com a memória de quem viveu, com a razão de quem estudou e com a mágoa lúcida de quem viu um país falhar demasiadas vezes a grandeza que poderia ter escolhido.

Francisco Gonçalves
Texto autobiográfico enquanto actual responsável e autor do Projecto Editorial de Fragmentos do Caos
Co-autoria Editorial de Augustus Veritas

“Os fracos vieram só para cair, mas os fortes vieram para esse tremendo exercício: cair e levantar-se; sorrindo.”
– in Agostinho da Silva

Sobre o projecto editorial Fragmentos do Caos

O projecto editorial Fragmentos do Caos é mais do que um simples espaço de publicação.
Pretende ser memória, registo, consciência crítica e arquivo vivo do nosso tempo.
Cada artigo é publicado na Internet não apenas como texto de circunstância, mas como testemunho, interrogação e marca deixada contra o esquecimento.
Num mundo saturado de ruído instantâneo, Fragmentos do Caos quer preservar pensamento, inquietação e lucidez — como quem acende pequenas luzes no meio da névoa.

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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