Banalidade do mal extremo,  Elites patéticas,  Manipulação da verdade,  Mediocridade,  Nepotismo

Os Imãs do Século XXI: Formação Medieval para Governar o Mundo Moderno

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BOX DE FACTOS
  • Formação-base: seminários xiitas (hawza), sobretudo em Qom e Najaf.
  • Núcleo do currículo: jurisprudência religiosa (fiqh) e metodologia jurídica (usul al-fiqh).
  • Topo académico: dars al-kharij, treino avançado de argumentação e dedução jurídica.
  • Estatuto decisivo: ijtihad (competência reconhecida para derivar normas a partir das fontes).
  • Ponte para o poder: doutrina do Velayat-e Faqih, que legitima tutela política por juristas.
  • Mecanismo de fecho: filtros institucionais que seleccionam quem pode concorrer a órgãos-chave.

Os Imãs do Século XXI: Formação Medieval para Governar o Mundo Moderno

Um Estado com ambição planetária pode ter satélites no céu, mas se a sua bússola política estiver presa a comentários do século XII, quem paga a navegação às cegas é sempre o povo.

Há um paradoxo silencioso — e brutal — no coração da República Islâmica: querer governar um país moderno (e influenciar o mundo) com líderes cuja engenharia mental foi forjada, sobretudo, numa oficina de textos antigos. Não é apenas uma questão de fé; é uma questão de método.

Porque estes homens, e a estrutura que os eleva, não são formados como estadistas no sentido contemporâneo. São formados, antes de tudo, como juristas do sagrado. A lógica que os sustenta nasce menos da praça pública e mais do laboratório textual: o texto como origem, o texto como limite, o texto como tribunal.

1) A oficina: a hawza e a disciplina da obediência intelectual

Nas hawza — os seminários xiitas, com centros maiores em Qom e Najaf — o aluno aprende a entrar no texto como quem entra numa mina: lanterna na mão, séculos às costas, e a convicção de que ali em baixo está a lei. O percurso é longo, com patamares, culminando no célebre dars al-kharij, onde o professor já não segue um manual e o aluno aprende a deduzir regras por raciocínio jurídico.

O coração do treino é este: fiqh (jurisprudência) e usul al-fiqh (fundamentos/metodologia). Aprendem-se hierarquias, princípios, excepções, cadeias de autoridade, e a arte da inferência dentro de um universo normativo fechado. É um rigor real — mas é um rigor voltado para dentro.

2) O degrau decisivo: ijtihad e a ascensão por reputação

E então surge o degrau mágico, decisivo e nebuloso: ijtihad — a capacidade reconhecida de emitir juízos jurídicos a partir das fontes. Não é uma licenciatura civil. Não é um diploma com carimbo universal. É um estatuto: mistura de competência, validação de pares e autoridade acumulada.

A partir daqui, surgem títulos e, com eles, gravidade social: ayatollah, grande ayatollah, e, em certos casos, a figura do marjaʿ — a autoridade de referência, a “fonte” a partir da qual outros passam a beber normas e sentido.

3) A ponte para o poder: quando o jurista se torna tutor do Estado

Até aqui, poder-se-ia dizer: cada civilização tem os seus mosteiros, as suas escolas, as suas formas de preservar uma tradição. O ponto de ruptura não é a tradição. O ponto de ruptura é quando a tradição reclama soberania total sobre o Estado.

A doutrina que transforma o jurista em guardião político — Velayat-e Faqih — é a ponte que leva o seminário ao trono. A ideia é simples, e por isso perigosamente eficaz: na ausência do Imã oculto, um jurista deve tutelar a sociedade e o Estado. O resultado é uma arquitectura de poder onde o religioso não é conselheiro; é árbitro final.

4) O círculo fechado: selecção, filtros e a política como extensão do texto

Quando essa ponte se torna auto-estrada, o sistema fecha o círculo: órgãos decisivos passam a ser compostos por clérigos, e a elegibilidade é filtrada por instituições com poder de veto. Assim, um poder escolhe quem pode concorrer para escolher o poder. A teologia vira engenharia institucional.

E é aqui que o século XII entra, de capa e espada, no século XXI. Porque muitos destes líderes são treinados para responder com brilhantismo a perguntas do tipo: “Que regra se aplica?”, “Que autoridade textual pesa mais?”, “Qual é a obrigação do crente?” — mas governar um país moderno exige outras perguntas, com outras ferramentas: liberdade, dignidade, ciência, economia, pluralidade, direitos e responsabilidade pública.

5) O choque do século XXI: tecnologia na máquina, Idade Média no Estado

O resultado é uma tensão permanente: um regime que quer satélites e mísseis, mas teme livros; que quer tecnologia, mas desconfia do pensamento livre; que quer modernidade na máquina, mantendo a Idade Média na alma do Estado.

Não convém cair numa caricatura fácil: a formação na hawza pode ser intelectualmente exigente no seu campo. O problema é outro: um método feito para interpretar o sagrado não é automaticamente apto para governar a pluralidade e a velocidade moral do mundo moderno. A tradição pode iluminar — mas quando se torna algema, escurece.

Epílogo

No fim, a pergunta não é “eles estudam textos antigos?” — quase toda a humanidade estudou textos antigos para se entender. A pergunta é outra: quando a lei do Estado se ajoelha perante a letra do século XII, quem é que fica de pé no século XXI?

Referências (seleccionadas)

Francisco Gonçalves
Crónica para Fragmentos do Caos — co-autoria editorial com Augustus Veritas.

Se o século XXI corre à velocidade da luz, não se pode governá-lo com lamparinas do século XII — porque, nesse escuro, quem tropeça primeiro é sempre o povo.

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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