A IA não tira empregos — tira desculpas
- A IA não rouba só tarefas: rouba o teatro e encurta o caminho entre “parecer” e “ser”.
- O medo da IA é real: uma fatia relevante de trabalhadores declara-se preocupada e/ou esmagada pela mudança.
- O mercado pede mais “humano”: pensamento analítico, criatividade, resiliência, liderança e aprendizagem contínua sobem de valor.
- Há um risco perverso: a “miragem de falsa mestria” — produzir sem compreender, decidir sem saber porquê.
- O futuro decide-se numa frase: ou a IA serve a dignidade do trabalho… ou serve a economia do disfarce.
A IA Não Rouba Lugares: Rouba Disfarces — e Expõe a Mediocridade
Há frases que parecem inofensivas até se tornarem uma pedrada na vitrina da auto-ilusão. “A IA não rouba lugares. Revela é cada vez mais incompetências.”
E, sim, isto dói. Dói porque a dor não vem de um algoritmo: vem do espelho.
Durante décadas, uma parte considerável do mundo do trabalho viveu de rituais: reuniões para dizer nada, relatórios para esconder o óbvio, “alinhamentos” para adiar decisões, e um vocabulário tão gordo que já não cabia na realidade. A IA chega e faz, em minutos, o que essa liturgia fazia em semanas. E, quando o ruído desaparece, a pergunta fica nua: quem pensa… e quem apenas ocupa?
A luz fria da máquina: não cria mediocridade — só a torna visível
A verdade inconveniente é esta: a IA não inventou os medíocres. Eles sempre estiveram aí — apenas tinham sombra suficiente para parecerem “competentes”.
A IA é um holofote: acelera, simplifica, compara. E quando compara, expõe.
Isto não significa que todos os receios sejam fantasias. Pelo contrário: o medo da IA é mensurável e transversal.
Há trabalhadores que se declaram preocupados com o impacto futuro da IA no emprego; outros sentem-se esmagados pela velocidade da mudança; e uma parte relevante acredita que haverá menos oportunidades a prazo. Não é pânico gratuito: é a intuição de que o mundo está a mudar
mais depressa do que as instituições e as carreiras conseguem acompanhar.
O que a IA não entrega (e por isso vale mais)
Quanto mais a IA automatiza tarefas, mais sobe o preço daquilo que ela não consegue entregar com integridade por defeito: pensamento crítico, ética, decisão sob ambiguidade, responsabilidade moral, coragem estratégica, visão. É aqui que o humano se separa do “operador de procedimentos”.
Curiosamente, os relatórios internacionais começam a convergir nesse ponto: as competências em alta incluem pensamento analítico,
criatividade, resiliência, curiosidade e aprendizagem contínua — e, em paralelo, cresce a importância de literacia tecnológica
(incluindo IA e dados). Ou seja: não basta temer a máquina; é preciso aprender a conduzi-la sem perder a alma.
O perigo silencioso: a “miragem de falsa mestria”
Mas há um risco novo, mais subtil do que o desemprego e mais corrosivo do que a ansiedade: a ilusão de competência.
A IA pode produzir textos, resumos, planos e respostas com brilho superficial, criando a sensação de “domínio” sem aprendizagem real.
É o triunfo do atalho: fazer sem compreender. E isto, a prazo, não cria elites de pensamento — cria dependência.
Uma sociedade que terceiriza o pensamento perde soberania interior. E um trabalhador que terceiriza a análise perde, pouco a pouco, a sua própria musculatura cognitiva. O resultado é uma geração capaz de gerar “outputs”… mas incapaz de sustentar a decisão quando o mundo deixa de ser um formulário.
E então, a IA rouba lugares?
A IA rouba alguns lugares, sim — sobretudo onde o trabalho foi reduzido a repetição, triagem, cópia e colagem.
Mas o golpe maior é outro: a IA rouba o conforto da mediocridade disfarçada. E isso explica a fúria, o sarcasmo e o medo: não é apenas o emprego que está em jogo; é a máscara.
Se queremos um futuro digno, a escolha é simples e brutal: ou usamos a IA para elevar o trabalho humano (mais tempo para pensar, cuidar, criar, decidir com ética), ou usamos a IA para multiplicar o velho vício: um exército de incompetentes com ferramentas de luxo.
Frase final (curta e cortante): A IA não cria mediocridade — acende a luz e obriga-a a aparecer.
Referências (fonte e publicações internacionais)
- Fonte do tema (título/citação): partilha do Observador sobre o artigo “A IA não rouba lugares. Revela é cada vez mais incompetências”, atribuído a José Crespo de Carvalho (pré-visualização em publicação do Observador nas redes sociais). 0
- Medo/ansiedade no trabalho: Pew Research Center (2025) — trabalhadores mais preocupados do que esperançosos sobre o futuro uso de IA no local de trabalho. 1
- Percepção pública e receio de substituição: Stanford HAI, AI Index Report 2025 — expectativas de mudança no trabalho e percentagem que teme substituição. 2
- Europa e emprego: Eurobarómetro / Parlamento Europeu (2024) — percepção sobre criação vs eliminação de empregos com IA. 3
- Competências em ascensão: World Economic Forum, Future of Jobs Report 2025 — destaque para pensamento analítico, criatividade, resiliência, literacia tecnológica e IA/dados. 4
- Educação e “falsa mestria”: OECD Digital Education Outlook 2026 — riscos de dependência e aprendizagem superficial com GenAI. 5
- Políticas e transição no trabalho: OECD/GPAI — relatório sobre GenAI e futuro do trabalho, com orientação para reconstrução de tarefas e funções. 6
- IA e competências: OECD — Artificial Intelligence and the Future of Skills (projecto e publicações associadas). 7
Crónica para Fragmentos do Caos — co-autoria editorial com Augustus Veritas.
A IA não vem para roubar lugares; vem para arrancar o verniz — e, quando a luz acende, quem só vivia do “parecer” descobre que já não há sombras onde esconder a incompetência.


