Democracias Moribundas: quando a urna já não chega e o poder se senta à mesa
- O voto não impede captura: sem “anti-captura”, as democracias viram montras com segurança privada.
- O poder organiza-se sempre: muda a liturgia, mantém-se a engenharia (lobby, portas giratórias, influência, impunidade).
- Desigualdade vira política: quando a riqueza concentra, o Estado tende a inclinar-se — como uma árvore ao vento do dinheiro.
- Confiança pública em erosão: a distância entre “governo” e “vida real” já é um fosso habitável.
- Reinventar democracia é criar regras que funcionem mesmo quando os anjos faltam e os predadores aparecem.
Democracias Moribundas: quando a urna já não chega e o poder se senta à mesa
Chamemos-lhe “caso Epstein”, “rede”, “escândalo”, “anomalia”. O nome é um perfume; o mecanismo é o mesmo.
A cada geração, nasce a esperança de que a civilização aprendeu. E a cada geração, descobrimos que os poderosos
continuam a praticar a mais antiga das artes: organizarem-se.
Antigamente chamava-se corte. Depois chamou-se império. Em tempos mais modernos, chamou-se “grandes interesses”.
Hoje chama-se “stakeholders”, “mercados”, “parcerias estratégicas” — expressões tão polidas que até dão vontade de pedir desculpa por desconfiar. Mas o padrão repete-se, com o mesmo humor negro de sempre:
o poder muda de manto, não muda de fome.
A democracia de vitrina e o Estado de joelhos
Há democracias que funcionam como um centro comercial: música ambiente, luzes bonitas, um segurança à porta, e a sensação de liberdade controlada. Pode circular, pode escolher, pode consumir narrativas.
Só não pode tocar nos pilares: fiscalidade, monopólios, rendas, contratos públicos, concentração mediática, captura regulatória.
E aqui entra a ironia fatal: dizem-nos que “o povo decide”, mas a realidade é outra.
O povo decide quem ocupa a cadeira; os interesses decidem o que a cadeira pode fazer.
E quando alguém tenta puxar a cadeira para o lado do povo, descobre que ela tem correntes invisíveis: consultores, escritórios de advocacia, portas giratórias, campanhas, “amigos do costume”, favores com recibo limpo.
Extorsão elegante: a dívida como catecismo
Antigamente a extorsão fazia-se com espada. Hoje faz-se com spread, com “rating”, com “exigências do mercado”, com a liturgia do inevitável. A dívida existe, sim — mas o escândalo não é só a conta; é o modo como ela se transforma em dogma: o povo paga, a elite optimiza.
A versão moderna da penitência é esta: o cidadão perde poder de compra, perde habitação, perde tempo de vida.
E, no fim, agradece por “estabilidade”. É um teatro perfeito: no palco, austeridade permanente; nos bastidores, rendas garantidas, mecanismos sofisticados, e a certeza de que as crises são óptimas para “reformas”.
Forças do mal? Não: incentivos sem travões
Quando me refiro a “forças do mal e da extorsão”, descrevo uma realidade moral. E acrescento a tradução técnica:
incentivos sem travões.
Um sistema que recompensa a captura, que demora anos a punir, e que deixa a opacidade ser rotina, acaba por seleccionar o pior — como um aquário que premia o tubarão e pede ao peixe pequeno para ser “resiliente”. Palavra hoje mágica para dizer ao povo “aguenta, aguenta!”.
E não, isto não se resolve com sermões sobre civismo. Resolve-se com arquitectura institucional: regras que funcionem mesmo quando os virtuosos são raros.
Reinventar a democracia: anti-captura, já
O que falta às democracias ocidentais não são eleições. É imunidade. É uma “constituição prática” contra predadores.
Eis um kit mínimo de sobrevivência (sem poesia, com bisturi):
- Transparência radical: contratos públicos, lobbies, reuniões, patrimónios e interesses — tudo aberto, pesquisável, auditável.
- Portas giratórias travadas: incompatibilidades duras e prazos longos. Quem regula hoje não pode ser premiado amanhã.
- Justiça com prazo e confisco efectivo: corrupção sem recuperação de ganhos é apenas um custo operacional.
- Financiamento político limpo: limites baixos, rastreio total, sanção imediata. Sem “donos” escondidos.
- Media plural e independente: transparência de propriedade e combate à concentração. Sem imprensa, a democracia fica cega.
- Direitos sociais como infraestrutura: habitação, saúde, educação e energia mínima: sem isto, a cidadania vira luxo.
E necessário “Coragem do povo”, Sim. Mas coragem sem ferramentas vira martírio.
A coragem que precisamos é a coragem de exigir mecanismos, não promessas.
É a coragem de trocar a fé no salvador pela fé nas regras.
Epílogo: o fim do sonho ou o fim da ingenuidade?
Talvez o “sonho das democracias ocidentais” esteja a morrer. Mas pode ser apenas isto: está a morrer a versão infantil da democracia — aquela que acreditava que a urna, por si só, domava o dinheiro.
O futuro pede outra maturidade: democracia com travões, com luzes acesas, com fiscalização permanente.
Porque a história é cruel, mas didáctica: quando os bons se cansam, os organizados em teias ocupam tudo.
E os organizados, quase sempre, não estão a trabalhar para o povo — estão a trabalhar para o clube dis interesses privados.
Referências (publicações internacionais)
- The Economist Intelligence Unit — Democracy Index 2024 (tendência de declínio e “flawed democracies”).
- Freedom House — Freedom in the World 2025 (19.º ano consecutivo de declínio da liberdade global).
- V-Dem Institute — Democracy Report 2025: 25 Years of Autocratization (autocratização como tendência dominante).
- World Justice Project — Rule of Law Index 2025 (erosão de controlos ao poder e de liberdades cívicas).
- Transparency International — Corruption Perceptions Index 2025 (sinais de enfraquecimento de esforços anti-corrupção e alerta sobre retrocessos).
- OECD — Recommendation on Transparency and Integrity in Lobbying (rev. 2024) (princípios e boas práticas para travar influência opaca).
- World Inequality Lab — World Inequality Report 2022 (concentração de riqueza e divergência estrutural).
- World Bank — International Debt Report (pressões de serviço da dívida e impacto em orçamentos públicos).
- Gilens & Page (Cambridge) — Testing Theories of American Politics (evidência empírica sobre influência de elites e grupos organizados).
- Oxfam — Resisting the Rule of the Rich (2026) (alerta sobre poder político do ultra-riqueza e desigualdade).
Crónica para Fragmentos do Caos — co-autoria editorial com Augustus Veritas.
Nas actuais democracias a urna serve para escolher o mordomo — o dono da casa, esse, continua invisível.


