A Ucrânia fez indústria com o fogo na pele — Portugal continua a fazer desculpas com gravata
- Em guerra, a Ucrânia industrializou a urgência: prototipa, testa, falha e corrige a um ritmo que a paz burocrática raramente permite.
- Drones no topo: interceptores e soluções de baixo custo tornaram-se peça central na defesa aérea e na modernização industrial.
- Exportação em horizonte: Kiev começou a abrir a porta a vendas externas e a “centros” de exportação na Europa.
- Europa muda de marcha: capital de risco e fundos ligados à NATO apostam em defesa “escala, rapidez e preço”.
- Portugal: em 50 anos, continua preso a uma economia de licenças, intermediação e “projectos” sem fábrica.
A Ucrânia fez indústria com o fogo na pele — Portugal continua a fazer desculpas com gravata
1. A urgência como engenharia: protótipo, campo, correcção
Na Ucrânia, a inovação deixou de ser conferência e passou a ser sobrevivência. O ciclo é simples e cruel: o que não funciona, morre; o que funciona, replica-se.
Os drones interceptores são o exemplo mais claro: baratos, escaláveis, afinados por tentativa e erro, e colocados rapidamente na linha da frente.
Há relatos de produção diária elevada e de uma eficácia operacional que já representa uma fatia relevante das ameaças aéreas abatidas.
Quando a realidade se mede em minutos, a “aprovação” é substituída por resultados.
2. A indústria como ecossistema: Estado, startups, voluntários e militares
A Ucrânia mostrou que o “segredo” não é um génio isolado, mas sim uma rede: Estado a abrir portas e licenças, startups a iterar depressa, universidades a alimentar talento, voluntários técnicos a suprir falhas, e militares a devolverem feedback sem poesia. A fronteira entre laboratório e terreno dissolveu-se.
O resultado é uma indústria que aprende com o barulho — e, por isso, aprende mais depressa do que quem aprende com relatórios.
3. Exportar em tempo de guerra: o passo que muda tudo
Exportar não é apenas vender: é ganhar escala, financiar capacidade, atrair parceiros e ancorar cadeias de fornecimento.
Há sinais de que Kiev está a institucionalizar essa viragem: primeiras autorizações, discussão fiscal e planos de criar centros de exportação na Europa.
O que ontem era tecnologia improvisada, hoje aparece como produto “testado em combate”.
E aqui está a ironia histórica: a guerra esmagou o tempo — e, ao esmagar o tempo, libertou a indústria.
4. A Europa acorda (tarde), mas acorda: defesa de baixo custo e produção em massa
A guerra dos drones expôs a fragilidade dos modelos clássicos: caros, lentos, insuficientes.
O mercado europeu começou a premiar outra coisa: escala, rapidez e preço.
Vemos rondas de investimento e apoio institucional para sistemas anti-drone e defesa aérea de baixo custo, precisamente porque a nova ameaça é abundante e barata. Quem insistir em soluções raras e douradas ficará sem chão.
5. Portugal: o país que confunde paz com anestesia
E nós? Nós somos a pátria do “não dá”. Um país onde abrir uma linha de produção é uma peregrinação, e onde a economia se habituou a viver de intermediação,rendas milagrosaslicenças e dependências.
Não é uma questão de “genes nacionais” nem de moral abstracta: é uma questão de incentivos e de desenho do sistema.
Se o sistema recompensa a demora, a demora torna-se virtude. Se o sistema premia a aparência, a fábrica fica para “o estrangeiro”.
6. O que Portugal podia fazer amanhã, sem precisar de guerra
Se quisermos deixar de ser um país frágil por hábito, há medidas concretas e imediatas:
- Compras públicas como motor industrial: concursos rápidos, pequenos, iterativos, com metas e validação real (proteção civil, vigilância costeira, fogos, mar).
- Estratégia de duplo-uso: drones e anti-drones, sensores, comunicações resilientes, cibersegurança, robótica marítima.
- Sandbox regulatória: menos labirinto, mais pista de ensaio e certificação acelerada.
- Produzir cá: não basta “ter a ideia”; é preciso fabricar, testar, manter, exportar.
- Canal NATO/UE: preparar empresas para normas, compliance e contratos internacionais, com apoio técnico sério.
Epílogo: o tempo não perdoa países que se demitem de si próprios
A Ucrânia não escolheu este caminho. Foi empurrada. Mas, empurrada, descobriu uma verdade brutal: a inovação floresce quando a realidade cobra a factura todos os dias.
Portugal não precisa de bombas para acordar. Precisa, sim, de coragem administrativa, de ambição industrial e de um Estado que sirva o futuro em vez de servir o costume, como no tempo dos avós.
Um país que não constrói, será sempre construído pelos outros — e depois chama-lhe “destino” e “azar”.?, e vão a Fátima rezar!

Referências internacionais (para leitura e verificação)
- Reuters (20 Fev 2026) — Ucrânia poderá exportar vários milhares de milhões em 2026 (licenças e primeiras vendas externas): https://www.reuters.com/business/aerospace-defense/ukraines-2026-defence-exports-could-hit-several-billion-dollars-official-says-2026-02-20/
- Euronews (9 Fev 2026) — Ucrânia vai abrir centros de exportação de armas na Europa (mudança de política em tempo de guerra): https://www.euronews.com/2026/02/09/ukraine-to-open-battlefield-tested-arms-export-centres-across-europe-zelenskyy-says
- The Kyiv Independent (8 Fev 2026) — 10 centros de exportação na Europa em 2026 (declarações e enquadramento): https://kyivindependent.com/ukraine-to-open-10-weapons-export-centers-in-europe-in-2026-zelensky-says/
- Financial Times (24 Fev 2026) — Investidores apoiam start-ups europeias de defesa aérea de baixo custo (escala e preço como nova regra): https://www.ft.com/content/0aff10e4-0657-4751-9c12-ab41878b3f5e
- Business Insider (24 Fev 2026) — Drones interceptores ucranianos e adaptação acelerada no combate a ameaças aéreas: https://www.businessinsider.com/interceptor-drones-destroy-third-russian-air-threats-shahed-quadcopters-commander-2026-2
- The Guardian (10 Fev 2026) — Cooperação industrial e produção conjunta (dinâmicas europeias e capacidade): https://www.theguardian.com/world/2026/feb/10/ukraine-war-briefing-france-to-start-making-weapons-with-kyiv
Co-autoria editorial para o Fragmentos do Caos.
Texto em registo crítico e prospectivo, para incomodar a inércia e chamar a fábrica de volta ao mapa.
Entre a forja e o sofá, a História não hesita: ou construímos futuro — ou assinamos, em silêncio, a nossa irrelevância.


