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O Anti-Fascista Imune: quando a etiqueta vira licença para a canalhice

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BOX DE FACTOS
  • Etiqueta não é ética: declarar-se “anti” não prova virtude; apenas anuncia pertença.
  • Imunidade moral: quando alguém se julga “do lado certo”, começa a perdoar-se a si próprio.
  • O fim justifica os meios: nasce o direito imaginário de humilhar, silenciar e punir.
  • O espelho: combate-se o autoritarismo copiando-lhe os reflexos.
  • A régua simples: se os direitos só valem para “os nossos”, não são direitos — são privilégios.

O Anti-Fascista Imune: quando a etiqueta vira licença para a canalhice

Há quem use a palavra “anti-fascista” como amuleto: pendura-a ao peito e acredita, com a serenidade dos iluminados, que a partir daí pode ferir o próximo sem pecado. E ainda por cima com aplauso.

A nova indulgência plenária

Portugal (e o mundo, esse palco com cortinas rotas) descobriu um artefacto moderno: a etiqueta que absolve.
Não é preciso pensar, nem duvidar, nem refrear o impulso — basta proclamar-se “anti-fascista” e, como por milagre, a consciência recebe um certificado de isenção: “isento de canalhice, válido por tempo indeterminado”.

Antigamente, para se vestir de virtude, era preciso ao menos fingir modéstia. Hoje, a moda é outra: o bem proclama-se em voz alta, com punho erguido e olhar de juiz. E o mal, malandro como sempre, aprende rápido a falar a língua do bem.

O truque: trocar princípios por pertença

Quando a pessoa diz “sou anti-fascista”, pode estar a afirmar algo decente. Mas há um ponto exacto em que a frase se converte numa senha de grupo. E aí, em vez de valores, surge o clube; em vez de argumentos, surge o apito; em vez de ética, surge o crachá.

E o crachá tem um superpoder: transforma o adversário em categoria. O outro deixa de ser pessoa; passa a ser “fascista”, “reaccionário”, “inimigo do povo”, “ameaça”. Depois disso, tudo fica simples. E o simples é perigosamente sedutor.

Manual satírico do Anti-Fascista Imune (edição de bolso)

1) Começa por dizer: “Eu sou do lado do Bem.” Não é preciso provar. É uma revelação.
2) A seguir, declara: “Com o Mal não se dialoga.” Assim poupas trabalho ao pensamento.
3) Se alguém discorda, aplica o carimbo: “Fascista.” Resolve-se em duas sílabas.
4) Depois, escolhe o método: humilhação pública, silêncio imposto, punição administrativa, exclusão social.
5) No fim, celebra: “Estamos a defender a democracia.” E dorme com a paz de quem nunca se olha ao espelho.

É aqui que a sátira dói: esta sequência, com pequenas variações, é o esqueleto de qualquer autoritarismo.
O fascismo não começa com botas — começa com certezas absolutas e com a doce ideia de que o outro não merece direitos.

A régua que não mente

Há uma forma simples de medir a autenticidade moral, e ela não está na etiqueta nem no cartaz: defendes direitos quando é o teu adversário a precisar deles?Condenas abusos quando são “os teus” a cometê-los? Ou calas-te com um sorriso de conveniência?

Porque a ética verdadeira tem um detalhe muito inconveniente: aplica-se mesmo quando dá prejuízo.
Dá prejuízo ao ego. Dá prejuízo ao aplauso. Dá prejuízo ao conforto de pertencer a uma tribo, e hoje cada vez mais o mundo é tribal. E numa tribo o tebanho so obedece ao dono. E isto é que é perigoso. Pertença Tribal.

O fascismo que se combate com fascismo

Há um ponto em que o “anti” se transforma numa máscara. Por fora, a palavra brilha; por dentro, o método apodrece, sobretudo em Portugal decorridos 50 anos de suposta democracia.
E então acontece o espectáculo mais triste: combatem o fascismo imitando-o — no desprezo, na intimidação, na alegria de esmagar, na crença de que “o nosso” abuso é pedagógico.

E o país, que já tem tão pouco tempo para pensar, perde mais um pedaço de lucidez em cada linchamento moral.
Fica uma sociedade de juízes sem toga e de réus sem defesa — uma democracia a tossir, enquanto proclama saúde.

Epílogo: a palavra não salva ninguém

O bem não se declara: pratica-se. E quase sempre em silêncio, com decência, com limites, com dúvida, com humanidade, com modéstia, especialmente em política.
Quem precisa de gritar “sou virtuoso” é porque, no fundo, já está a negociar com a própria sombra.

O combate ao fascismo é demasiado sério para ser entregue a imunidades morais.
Se a tua causa te autoriza a desumanizar, então não tens uma causa: tens um pretexto.

Artigo da Autoria de :

Francisco Gonçalves
Com co-autoria editorial de Augustus Veritas — onde a sátira é bisturi e a lucidez, resistência.

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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