O Código dos Mortos: um alerta nacional contra o conformismo
BOX DE FACTOS
- Portugal cita a mudança nos discursos, mas mantém rotinas institucionais de baixa aprendizagem.
- Frases culturais como “sempre foi assim” e “equipa que ganha não se muda” são usadas mesmo quando os resultados são medíocres.
- Tradição pode ser força civilizacional; quando vira dogma, torna-se travão histórico.
- A inovação não falha só por falta de tecnologia; falha por excesso de medo e conformismo.
- Sem ruptura cultural, o país repete ciclos de atraso com linguagem moderna.
O Código dos Mortos
Recitamos o verso. Depois voltamos ao mesmo guião.
Há um país que se emociona com os seus poetas e, no entanto, recusa o essencial do que eles ensinaram: que a vida é movimento, risco, reinvenção.
Em Portugal, a frase “sempre foi assim” funciona como senha de entrada para a mediocridade organizada.
Não é tradição. É inércia com boa reputação.
Invocamos Camões em cerimónias, mas na prática obedecemos a um manual mais antigo: evitar a diferença, punir a ruptura, desconfiar do mérito e adiar decisões até à próxima comissão.
O país não está parado por falta de talento.
Está travado por excesso de medo socialmente legitimado.
O vírus do “sempre foi assim”
O conformismo nacional não se apresenta como fraqueza.
Apresenta-se como prudência.
Diz-se “não vale a pena”, “não arrisques”, “deixa andar”, “já o meu avô fazia assim”.
É um código cultural que se transmite como herança invisível.
E cada geração, sem dar conta, instala no seu tempo o software do século anterior, no seu cérebro.
O problema não está em honrar os antigos.
Está em confundir respeito com cópia.
Honrar os mortos é continuar a coragem deles, não reproduzir-lhes as limitações.
“Equipa que ganha não se muda” — e se não estiver a ganhar?
Esta frase, usada sem contexto, tornou-se um escudo para incompetência persistente.
Faz sentido preservar o que funciona.
Não faz sentido preservar o que apenas sobrevive.
Quando se aplica o lema a estruturas sem resultados robustos, ele deixa de ser prudência e passa a ser sabotagem.
Países avançam quando fazem uma pergunta simples e incómoda:
“o que estamos a fazer que já não serve?”
Países atrasam quando fazem a pergunta inversa: “como manter isto igual por mais uma década?”
O teatro moderno do atraso
Hoje, o atraso não vem vestido de atraso.
Vem vestido de modernidade: dashboards, plataformas, slogans, eventos, relatórios coloridos.
A aparência mudou; o núcleo mental, não.
É o velho país em interface nova.
Temos inovação de linguagem e conservadorismo de método.
Falamos de futuro com procedimentos de arquivo morto.
E enquanto isso, os mais capazes gastam energia a lutar contra paredes internas em vez de construir valor externo.
ALERTA: o custo de continuar igual
O preço do conformismo não é abstracto.
Mede-se em salários estagnados, produtividade frágil, jovens desmotivados, talento emigrado, serviços lentos e confiança cívica corroída.
Um país que não aprende com os seus próprios erros acaba a terceirizar o seu destino.
Não basta indignação.
É preciso substituição de código cultural:
- trocar o “sempre foi assim” por “o que podemos melhorar já”;
- trocar o “não arrisques” por “testa, mede, corrige”;
- trocar o culto da hierarquia pelo culto da competência;
- trocar a retórica da mudança pela execução com responsabilidade.
Conclusão
Portugal não precisa de rasgar a sua memória.
Precisa de impedir que a memória se torne prisão.
Um povo que não lê criticamente o passado acaba por o repetir com novos adereços.
O verdadeiro patriotismo não é decorar frases históricas.
É recusar que elas virem epitáfio.
Se “todo o mundo é composto de mudança”, então mudar não é ameaça.
É dever.
Frase-lâmina: “Quando um país executa o código dos mortos sem o actualizar, transforma tradição em atraso e prudência em rendição.”
· Co-autoria editorial com Augustus Veritas
Fragmentos do Caos — pensamento crítico contra o conformismo programado e o “codigo dos mortos”.


