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Rússia: não está em colapso, mas está em corrosão estratégica

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BOX DE FACTOS

  • O FMI reviu em baixa o crescimento da Rússia para 0,6% em 2025 e 0,8% em 2026.
  • O Banco da Rússia reduziu a taxa directora para 15,5% (13/02/2026), mantendo condições monetárias restritivas.
  • O Banco Mundial aponta desaceleração e crescimento próximo de 1% no médio prazo.
  • A Rússia mantém capacidade militar e nuclear relevante, mas enfrenta erosão da base económica civil.
  • O cenário dominante não é “implosão súbita”, mas corrosão estratégica por desgaste prolongado.

Rússia: não está em colapso, mas está em corrosão estratégica

Entre a propaganda da invencibilidade e a fantasia do colapso imediato, há uma realidade mais dura: a Rússia resiste no curto prazo, mas desgasta-se por dentro.

O debate público sobre a Rússia oscila entre extremos pouco úteis: uns declaram força inabalável, outros anunciam ruína terminal.
Os dados disponíveis apontam para uma terceira via:
a Rússia continua com peso geopolítico e militar, mas a sua economia civil entra numa fase de pressão estrutural e crescimento fraco.

A própria linha política de Kaja Kallas tem sido clara:
a economia de guerra russa está sob tensão e a estratégia europeia é aumentar essa pressão.
Esta avaliação, por si só, não prova colapso; prova, sim, reconhecimento de fragilidade acumulada.

1) Crescimento: impulso de guerra, travagem na curva

Após um período de crescimento forte associado ao esforço militar, as revisões internacionais mostram desaceleração acentuada.
O FMI projecta 0,6% para 2025 e 0,8% para 2026.
O Banco Mundial aponta uma trajectória semelhante de moderação no médio prazo.

Isto não é “colapso súbito”.
É mais perigoso no longo prazo: estagnação com custo social crescente.

2) Juros e inflação: economia a respirar com dificuldade

O Banco da Rússia cortou a taxa directora para 15,5%, mas o próprio enquadramento oficial mantém a tónica de prudência:
a inflação e as expectativas continuam a exigir política monetária apertada.
Juros altos por muito tempo corroem investimento privado, consumo e previsibilidade empresarial.

Traduzindo: há gestão de emergência macroeconómica, não regresso à normalidade.

3) Estrutura produtiva: mais guerra, menos futuro civil

O crescimento puxado por despesa militar pode sustentar actividade no curto prazo, mas desloca recursos de sectores civis.
No tempo, isto reduz inovação, produtividade e qualidade de vida.
O país mantém músculo coercivo, mas paga com atrofia de desenvolvimento económico civil.

4) Superpotência em quê?

A resposta depende do domínio:

  • Militar/nuclear/geopolítico: continua potência maior.
  • Económico-industrial civil de longo prazo: enfrenta fragilidades, crescimento baixo e maior rigidez estrutural.

Portanto, “já acabou” é exagero.
Mas “está robusta e sustentável” também não corresponde aos indicadores.

5) Capital humano e demografia: o custo silencioso

Há sinais consistentes de saída de quadros qualificados desde 2022, embora com estimativas variáveis entre fontes.
Mesmo sem consenso absoluto nos números, a direcção é relevante:
perda de capital humano tende a penalizar produtividade e inovação em ciclos longos.

6) O que isto exige da Europa

A resposta europeia eficaz não é triunfalismo, nem resignação.
É estratégia de resistência prolongada:

  1. manter pressão económica e tecnológica consistente;
  2. reduzir dependências críticas;
  3. aumentar capacidade industrial e defensiva europeia;
  4. preparar um cenário de desgaste longo, não de desfecho rápido.

Conclusão

A Rússia não está em ruína terminal.
Mas também não está em trajectória saudável.
O diagnóstico mais rigoroso hoje é este:
resiliência militar de curto prazo, com corrosão económica civil de médio/longo prazo.

Em geopolítica, impérios raramente caem de uma vez.
Muitas vezes, enfraquecem por dentro até que o custo de manter a força ultrapassa a capacidade de sustentar o país real.

Ajuda sem alinhamento: o pragmatismo chinês na guerra da Ucrânia

Pequim envia sinais de apoio humanitário à Ucrânia, mas sem romper o seu cálculo estratégico com Moscovo.

Um facto geopolítico relevante emergiu em Munique: após contactos diplomáticos de alto nível entre China e Ucrânia,
foi indicada a preparação de novo apoio humanitário chinês no eixo energético, incluindo assistência para mitigar
os impactos sobre civis e infraestruturas.

O gesto tem valor concreto para a população ucraniana — sobretudo em contexto de pressão continuada sobre a rede de energia —,
mas não deve ser lido como mudança estrutural de alianças.
A China mantém a sua postura de equilíbrio pragmático: ajuda civil pontual a Kyiv, preservando simultaneamente
a relação estratégica com a Rússia.

Em termos políticos, esta é a assinatura clássica de Pequim: reduzir custos reputacionais internacionais,
projectar imagem de actor responsável e manter liberdade de manobra para qualquer desfecho do conflito.
Não é viragem ideológica. É gestão de influência.

A leitura correcta, portanto, é de duas camadas:
alívio humanitário real no curto prazo e
continuidade do cálculo estratégico chinês no longo prazo.

Notas de enquadramento

  • Ajuda reportada em moldes humanitários e energéticos, não como apoio militar.
  • Sinal diplomático útil para Kyiv, sem ruptura de Pequim com Moscovo.
  • Exemplo de “neutralidade activa” com objectivos de reputação e margem negocial.

Referências internacionais desta secção

  • Reuters — declarações sobre novo pacote de ajuda humanitária chinesa à Ucrânia após reunião em Munique.
  • Reuters — contexto diplomático China-Ucrânia e manutenção do equilíbrio estratégico de Pequim.

Referências internacionais

  • EEAS — Remarks by HR/VP Kaja Kallas in Kyiv (economia de guerra russa sob pressão).
  • EU Neighbours East — Kallas em Kyiv: “Russia’s war economy is already weak. We will make it weaker.”
  • Reuters — FMI revê crescimento russo para 0,6% em 2025.
  • Reuters — FMI corta previsão de 2026 para 0,8%.
  • Bank of Russia — Decisão oficial da taxa directora para 15,5% (13/02/2026).
  • Bank of Russia — Declaração da governadora sobre inflação e condições monetárias.
  • World Bank — Country page Russia e actualizações macro (crescimento moderado e riscos estruturais).
  • The Guardian — análise sobre estagnação da economia russa e implicações de guerra prolongada.
Francisco Gonçalves · Co-autoria editorial com Augustus Veritas
Fragmentos do Caos — Geopolítica sem propaganda: factos, estrutura e consequência.
🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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