Quando a Presidência corre o risco de se tornar um postal ambulante
BOX DE FACTOS
- A primeira Presidência Aberta de António José Seguro foi orientada para a Zona Centro afectada pelas intempéries.
- O gesto foi apresentado como proximidade institucional e acompanhamento no terreno.
- Mas em Portugal o risco é antigo: confundir presença com acção, escuta com consequência, e simbolismo com força reformadora.
- Uma peça do jornal Observador, amplamente citada, resumiu esse risco com sarcasmo devastador.
Quando a Presidência corre o risco de se tornar um postal ambulante
Uma peça recente do Observador, amplamente partilhada e citada, lançou uma frase que vale por meia radiografia da República: “Ser Presidente é o emprego mais fácil do mundo”. E, logo a seguir, rematou que António José Seguro parecia exercer o cargo como um misto de Isabel II, estafeta da DHL e Américo Thomaz. A imagem é feroz. E, justamente por isso, merece ser levada a sério.
Não por dizer mais do que sabe, mas por condensar numa linha aquilo que tantos portugueses pressentem há anos: a Presidência da República, em Portugal, corre sempre o perigo de se dissolver numa mistura de liturgia, deslocações, afectos públicos e comentários prudentes, como se a função suprema do cargo fosse percorrer o território com ar grave, ouvir o sofrimento conhecido, prometer atenção e regressar a Belém embrulhado numa névoa de respeitabilidade institucional.
O país já conhece os seus problemas
Convém dizê-lo sem rodeios: Portugal não sofre por falta de diagnósticos. O interior abandonado, a lentidão do Estado, a desertificação demográfica, os serviços públicos exaustos, a dependência de remendos administrativos, a economia coxa e a impotência reformista não são mistérios arqueológicos escondidos numa gruta de difícil acesso. São realidades antigas, repetidas até à exaustão, conhecidas por autarcas, técnicos, jornalistas, cidadãos e até por aqueles profissionais da prudência que orbitam em redor do regime como satélites bem alimentados.
Por isso, quando um Presidente vai ao terreno “ouvir”, há sempre uma pergunta que fica a pairar no ar como poeira depois da romaria mediática: ouvir para quê? Para arquivar o drama em linguagem institucional? Para produzir uma sequência de imagens de proximidade? Para somar capital simbólico? Ou para transformar a palavra presidencial numa força de exigência sobre um sistema político cada vez mais habituado a sobreviver sem consequências?
A tentação cerimonial da Presidência
A graça cruel da frase do Observador reside precisamente aí. A comparação com Isabel II aponta para a solenidade ornamental. A do estafeta da DHL caricatura a circulação incessante, a entrega protocolar de presença, a logística das boas intenções. E a evocação de Américo Thomaz traz à superfície a pior suspeita de todas: a domesticação de um cargo que, em vez de perturbar o poder, se limita a decorar a fachada da normalidade.
Não se trata, note-se, de negar a importância simbólica do Presidente da República. O símbolo conta. Conta até muito. Num país gasto, por vezes cínico, tantas vezes desencantado, a palavra presidencial ainda pode abrir espaço moral, produzir vigilância, travar abusos, lançar alertas, obrigar o Governo a responder, forçar a agenda pública a sair do adormecimento habitual. Mas isso só acontece quando o símbolo deixa de ser almofada e passa a ser lâmina.
Entre o gesto e a consequência
A primeira Presidência Aberta de António José Seguro foi apresentada como resposta às regiões da Zona Centro afectadas pelas intempéries. O tema é sério. O sofrimento é real. O acompanhamento institucional é legítimo. Nada disso está em causa. O que está em causa é outra coisa: saber se a Presidência será apenas um espelho sensível da dor nacional ou uma instância activa de pressão política sobre a incapacidade crónica do aparelho do Estado.
Porque o verdadeiro teste de um Presidente não está no número de quilómetros percorridos, nem no número de mãos apertadas, nem no tom de voz com que enuncia solidariedade. Está na capacidade de criar desconforto produtivo. Está na coragem de dizer ao poder que o país não aguenta mais retórica de acompanhamento. Está na disposição para usar o cargo contra a inércia e não apenas para a polir.
Visitar é fácil. Ouvir é fácil. Declarar preocupação é facílimo. Difícil é romper a paz podre das instituições que aprenderam a sobreviver entre diagnósticos, relatórios, grupos de trabalho, promessas para breve e urgências que acabam sempre remetidas para o calendário litúrgico do adiamento.
O risco de mais um Presidente de paisagem
Portugal tem longa experiência em converter funções altas em coreografias de baixa intensidade. Há sempre um cuidado extremo com os gestos, com as formas, com a dignidade da representação, com a delicadeza protocolar, com a necessidade de não ferir susceptibilidades do ecossistema político. E assim se fabrica, com paciência de relojoeiro decadente, uma Presidência irrepreensível no estilo e inofensiva no conteúdo.
É exactamente aqui que a frase do Observador deixa de ser apenas uma boutade engraçada e passa a ser um aviso político. Um aviso talvez prematuro, mas ainda assim pertinente. Se António José Seguro transformar a Presidência numa peregrinação de escuta e benevolência, então o país terá apenas mudado de tom, não de substância. Terá trocado um perfil por outro, uma estética por outra, um registo por outro — mas manterá intacta a velha mecânica de uma magistratura incapaz de provocar sobressalto onde o regime prefere sonolência.
O que o país precisa
A República não precisa de mais um Presidente que percorra o mapa como quem valida a existência do território. Precisa de alguém que compreenda que a função presidencial, embora não governe directamente, pode governar o clima moral do país. Pode elevar a exigência. Pode recusar a normalização da incompetência. Pode transformar a palavra numa forma de pressão. Pode lembrar, com insistência cirúrgica, que o Estado não existe para organizar desculpas.
Se António José Seguro quiser escapar à caricatura, terá de fazer mais do que ouvir. Terá de incomodar. Terá de escolher entre a placidez institucional e a fricção útil. Entre a fotografia e a marca. Entre o postal e o pulso.
Porque, no fim, a Presidência só parece o emprego mais fácil do mundo quando o seu ocupante aceita reduzi-la àquilo que o regime mais aprecia: uma figura impecável, presente, sensível, viajante — e absolutamente incapaz de desarrumar a casa.
Epílogo
Há cargos que morrem não por abuso de poder, mas por falta de ousadia. E uma República em declínio adora esse tipo de morte discreta: sem escândalo, sem ruptura, sem grandeza — apenas com aplausos, itinerários, declarações brandas e a elegante administração do vazio.
REFERÊNCIAS
Observador — peça amplamente citada com o título “Ser Presidente é o emprego mais fácil do mundo”, da autoria de Miguel Pinheiro, divulgada nas redes sociais do jornal.
Presidência da República Portuguesa — anúncio da primeira Presidência Aberta de António José Seguro, dedicada à Zona Centro afectada pelas intempéries.
RTP — cobertura da Presidência Aberta e da pressão colocada ao Governo relativamente aos efeitos das tempestades e à resposta pública.
Para o Fragmentos do Caos
Texto de reflexão crítica sobre a Presidência, a linguagem do poder e a estética da irrelevância institucional.


