Democracia e Sociedade

Os partidos políticos e a imoralidade de ocasião

Spread the love








BOX DE FACTOS
  • José Luís Carneiro acusou a direita de permitir a “imoralidade” de o Estado ganhar com a subida dos preços.
  • A declaração surgiu após o chumbo de uma resolução do PS sobre medidas para o custo de vida.
  • O PS governou durante largos anos e, em momentos anteriores, recusou propostas de alívio fiscal sobre combustíveis.
  • O Parlamento aprovou entretanto uma recomendação para alívio fiscal nos combustíveis e no gás.
  • A crítica central deste texto é a incoerência moral e política de quem ontem governou e hoje finge descobrir o problema.

A imoralidade de ocasião

Há frases que não escandalizam apenas pelo que dizem. Escandalizam, sobretudo, por quem as profere depois de anos a governar como se a memória colectiva fosse um electrodoméstico avariado.

Há frases que não indignam apenas pelo conteúdo. Indignam pelo sujeito que as pronuncia. Quando José Luís Carneiro acusa a direita de permitir a “imoralidade” de o Estado ganhar com a subida dos preços, o problema não está apenas na formulação. Está no lastro histórico de quem fala. E esse lastro pesa como chumbo molhado.

A frase pode impressionar os distraídos. É verdade que, em vários sectores, a subida dos preços gera aumento de receita fiscal. É verdade também que o peso do custo de vida corrói o orçamento das famílias e das empresas. Nada disso é ficção. O problema começa quando esta indignação chega embrulhada pela voz de um partido que passou anos no poder e que, em momentos decisivos, preferiu a comodidade da arrecadação à coragem da reforma.

A moral descoberta na oposição

O Partido Socialista descobriu agora, com ar de espanto litúrgico, que o Estado pode lucrar com os sacrifícios dos cidadãos. Que revelação espantosa. Quase metafísica. Quase um raio caído sobre Damasco. O pequeno problema é que, durante os anos em que governou, não só conhecia essa realidade como conviveu muito bem com ela.

Em 2022, com maioria absoluta e poder bastante para fazer muito mais do que proclamações de bancada, o PS votou contra propostas que visavam reduzir o preço dos combustíveis e aliviar a carga fiscal associada. Não se tratava, portanto, de ignorância. Tratava-se de escolha. E em política, como na vida, as escolhas revelam mais do que os discursos.

É por isso que a indignação actual soa tão mal. Não porque seja ilegítimo denunciar um abuso fiscal. É legítimo. Mas porque o país já viu este filme demasiadas vezes: os mesmos que ontem chamavam responsabilidade à asfixia fiscal surgem hoje, regenerados pela liturgia da oposição, a denunciar a crueldade do sistema que ajudaram a manter.

O velho truque português

Há em Portugal uma habilidade política particularmente refinada: a arte de passar de cúmplice a acusador sem atravessar qualquer purgatório. Governam durante anos, alimentam a máquina, taxam, arrecadam, justificam, empobrecem, e quando saem do poder regressam com ares de virgens ultrajadas pela brutalidade do mundo.

O caso presente é exemplar. O PS quer agora vestir a túnica da consciência moral, como se António Costa e os seus governos não tivessem transformado a fiscalidade num dos instrumentos mais eficazes de extracção contínua de rendimento às classes médias e trabalhadoras. O discurso muda, os rostos renovam-se, as palavras ganham perfume ético. Mas a substância permanece. O bolso do contribuinte continua a ser a coutada preferida do Estado.

E convém não romantizar o presente só porque o passado foi mau. O actual Governo também não merece indulgência automática. Em matérias fiscais e no custo de vida, a direita portuguesa tem demasiadas vezes a tentação burocrática de gerir o sofrimento em vez de o cortar pela raiz. Mas uma coisa é criticar a insuficiência ou a tibieza do actual poder. Outra, bem diferente, é aceitar lições de moral vindas de quem deixou um cadastro político desta natureza.

A política como encenação sem vergonha

O mais exasperante não é apenas a incoerência. É a falta de pudor. Esta desfaçatez tornou-se rotina na República: partidos que passaram anos a agravar problemas reaparecem mais tarde a descrevê-los com expressão compungida, como se os tivessem encontrado por acaso numa esquina húmida do regime.

A declaração de Carneiro inscreve-se precisamente nessa tradição de oportunismo ornamental. Há nela a ambição de ocupar a tribuna moral sem prestar contas à memória. Há nela o cálculo de quem sabe que grande parte do debate mediático vive do instante e já quase nada exige de coerência histórica. Há nela, enfim, aquele tom tão português de severidade selectiva: quando os outros fazem, é escândalo; quando fomos nós, era governar.

Mas um país não se recompõe enquanto aceitar esta ginástica semântica. A democracia deteriora-se quando a linguagem política deixa de servir para esclarecer e passa a servir apenas para recauchutar culpas. E é exactamente isso que aqui se vê: não uma denúncia ética séria, mas um exercício de maquilhagem moral.

O ponto essencial

Sim, é grave que o Estado aumente a receita enquanto os cidadãos se afundam sob o peso da inflação, dos combustíveis, da energia e da erosão do rendimento disponível. Mas a pergunta decisiva não é essa. A pergunta decisiva é outra: quem esteve no poder durante anos com capacidade para enfrentar o problema e preferiu mantê-lo?

A partir do momento em que se responde honestamente a essa pergunta, muito do moralismo partidário desaba como cenário de cartão. E fica exposto o essencial: não estamos perante uma súbita epifania ética do PS, mas perante mais um episódio de indignação instrumental, produzida em laboratório de comunicação e servida ao país com o habitual molho de solenidade.

Portugal está cansado desta política que muda de discurso sem mudar de hábitos. Está cansado de elites que falam de sacrifício sempre do lado de fora, mas governam sempre com a mão pronta a apertar o contribuinte. Está cansado, sobretudo, desta dramaturgia onde os autores da factura aparecem depois a comentar o preço da conta.

FRASE A RETER
Em Portugal, a moral de muitos partidos muda menos com os princípios do que com o lugar que ocupam na bancada.

Referências

1. Partido Socialista, declaração de José Luís Carneiro sobre “imoralidade” do Estado lucrar com a subida dos preços:

https://ps.pt/direita-contribui-para-imoralidade-de-o-estado-aumentar-a-receita-a-custa-dos-sacrificios-dos-portugueses/

2. Correio da Manhã, notícia sobre a acusação de Carneiro à direita:

https://www.cmjornal.pt/politica/detalhe/carneiro-acusa-direita-de-permitir-imoralidade-de-estado-ganhar-com-aumento-dos-precos

3. Assembleia da República, resultados das votações de 10 de Abril de 2026:

Documento PDF da Assembleia da República

4. Renascença, sobre o chumbo do IVA zero e recomendação de alívio fiscal nos combustíveis e gás:

https://rr.pt/noticia/politica/2026/04/10/parlamento-chumba-iva-zero-mas-recomenda-alivio-fiscal-nos-combustiveis-e-no-gas/466395/

5. Polígrafo, verificação sobre o voto do PS contra propostas de descida do preço dos combustíveis em 2022:

https://poligrafo.sapo.pt/fact-check/parlamento-ps-votou-contra-propostas-que-visavam-descida-do-preco-dos-combustiveis/

6. Jornal de Negócios, sobre a aprovação da proposta para baixar limites mínimos do ISP até 30 de Junho:

https://www.jornaldenegocios.pt/empresas/detalhe/parlamento-aprovou-proposta-do-governo-para-baixar-limites-do-isp-ate-30-de-junho

7. Renascença, promulgação presidencial e manutenção do desconto extraordinário no ISP:

https://rr.pt/noticia/politica/2026/04/10/pr-promulga-decreto-que-baixa-limites-minimos-do-isp-ate-30-de-junho/466379/

https://rr.pt/noticia/economia/2026/04/10/combustiveis-governo-mantem-atual-desconto-no-isp/466443/

Francisco Gonçalves — publicado em Fragmentos do Caos

Co-autoria editorial e pesquisa de fontes por Augustus Veritas.

NOTA EDITORIAL

A mentira e o oportunismo dos partidos que governaram Portugal é uma das causas centrais da degradação da democracia e da ruína moral da vida pública. Prometem em campanha o que negam no poder, condenam na oposição aquilo que praticaram no governo, e reciclam-se indefinidamente entre a amnésia conveniente e a indignação encenada. O resultado está à vista: um país exausto, depenado fiscalmente, e uma República onde demasiados actores políticos já não servem a verdade, nem o bem comum, mas apenas a coreografia da sua sobrevivência.
São por isto mesmo insuportáveis e já só fazem parte do problema. Aliás o problema de Portugal são eles. Eles que governaram Portugal durante meio século, e que conduziram o país a beira da estagnação, económica e social.

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Contactos