Os Preços dos combustíveis em Portugal : Quando a guerra alimenta o Estado
📷 “Sobe como um foguete, desce como uma pena” — a economia de casino que rouba o consumidor todos os dias.
Gasolina: o foguete e a pena
Ensaio sobre a assimetria escandalosa dos preços dos combustíveis em Portugal — e os governos que fingem não ver
Todos culpam a guerra. Todos culpam a inflação. Todos culpam o mercado. Mas há um facto grosseiramente criminoso que os governos, as gasolineiras e a comunicação social se recusam a escrutinar: quando o barril de petróleo sobe, o preço na bomba dispara no mesmo dia; quando o barril desce, o consumidor só vê reflexo um mês depois — se vir.
Não é teoria da conspiração. É um fenómeno económico documentado, chamado assimetria de transmissão de preços. Em português corrente: o consumidor é sempre o otário da festa. E o Estado, que arrecada mais de 60% do preço final em impostos (ISP + IVA), também não tem pressa nenhuma em descer.
🎬 Medina Carreira, com a ironia afiada que o tornava único: “Obrigado, António Costa” — um excerto do canal O Denunciante. A lógica da censura aplica-se também à economia de casino.
O mecanismo criminoso em três pontos
📈 A subida é um relâmpago
O petróleo sobe 2% num dia. No dia seguinte, a gasolina sobe 3% ou 4%. As gasolineiras justificam com a “volatilidade dos mercados” e a “antecipação de novas subidas”. O consumidor paga logo. As desculpas são muitas; a factura, uma só.
🐌 A descida é uma lesma
O petróleo desce 10% numa semana. As gasolineiras esperam dias ou semanas. Dizem que estão a queimar “stocks comprados mais caros”. Mas esses stocks, curiosamente, nunca duram tão pouco quando o preço sobe. É sempre um mês de desculpas até o consumidor ver uma redução tímida, raramente proporcional.
💰 As margens nunca choram
Enquanto o consumidor paga e espera, as margens de lucro das empresas de energia e distribuição batem recordes consecutivos. As gasolineiras nunca têm prejuízo. A justiça nunca investiga. Os governos olham para o lado — ou, pior, beneficiam porque o ISP e o IVA também sobem com o preço final.
O papel cúmplice dos governos
Os governos — de todos os quadrantes, porque isto é transversal — refugiam-se atrás de duas desculpas esfarrapadas:
• “É o mercado, não podemos intervir.” → Mas intervêm sempre para aumentar impostos.
• “Os preços são formados em mercado livre.” → Livre para subir, cativo para descer.
E, no meio disto, o Estado arrecada mais de 60% do preço final da gasolina em impostos (ISP + IVA). Ou seja, quando o preço sobe, o Estado também ganha mais. Quando desce, o Estado ganha menos. O governo nunca tem pressa de descer. Pelo contrário: a receita fiscal extra é um bom negócio — para eles, não para nós.
O que devia ser feito (e não é)
O papel do cidadão: boicote, escrutínio e indignação organizada
Não podemos esperar que os governos ou as gasolineiras tenham um ataque de consciência. Enquanto o consumidor pagar sem exigir, o sistema continua. Eis o que cada um pode fazer:
• Boicotar as marcas mais gananciosas — há diferenças reais entre bombas da mesma rua.
• Exigir factura com detalhe — saber quanto pagamos de imposto e quanto é margem.
• Assinar petições públicas — por um mecanismo automático de revisão de preços.
• Votar em quem prometer (e cumprir) a descida dos impostos energéticos — e não em quem aumenta o ISP todos os anos.
• Partilhar informação — aplicações como a “Mais Gasolina” ou “Preços dos Combustíveis” expõem quem está a roubar mais.
Enquanto nos calarmos, enquanto aceitarmos que “é assim mesmo”, enquanto não exigirmos nas redes, nas assembleias de moradores e nas urnas — o sistema continuará a tratar-nos como otários. E não somos.
✍️ Ensaio publicado em Fragmentos do Caos — cidadania, Portugal e o mundo. Texto em português de Portugal (AO 1990). Partilha livre com citação da fonte e do autor.


