Democracia e Sociedade

Portugal: Um Ensino Que Decora Muito e Forma Pouco

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BOX DE FACTOS
  • A Comissão Europeia reconhece progressos em Portugal no acesso à educação e formação, mas assinala desafios persistentes na aquisição de competências e no alinhamento com as necessidades reais do mercado de trabalho.
  • A OCDE aponta para desajustes relevantes entre área de estudo e trabalho exercido em Portugal, sinal de ligação ainda insuficiente entre ensino e vida profissional.
  • A própria agenda internacional da OCDE sublinha a importância crescente do pensamento criativo, resolução de problemas e avaliação de ideias, competências que não florescem em sistemas demasiado baseados em repetição teórica.
  • Portugal aumentou fortemente a percentagem de jovens adultos com ensino superior, mas mais diplomados não significam automaticamente melhor preparação prática, maior exigência ou cultura de excelência.
  • O problema do ensino português parece menos ser hoje a mera falta de acesso e mais a persistência de um modelo demasiado teórico, pouco aplicado e insuficientemente ligado à empresa, à sociedade e à vida real.

Um Ensino Que Decora Muito e Forma Pouco

Portugal melhorou na escolarização, mas continua demasiado preso a um ensino que certifica o saber decorado e ainda forma mal a inteligência aplicada.

Há países que ensinam a pensar, a construir, a testar, a errar, a corrigir e a voltar a tentar. E há países, como Portugal demasiadas vezes ainda é, que continuam a ensinar sobretudo a reproduzir, a memorizar, a decorar, a cumprir programas e a atravessar exames como quem atravessa uma alfândega. O resultado é conhecido: muitos anos de escola, muitas páginas lidas à pressa, muitos conceitos repetidos, muitos testes resolvidos — e, no fim, uma dificuldade persistente em transformar conhecimento em acção, teoria em prática, ideia em solução, diploma em capacidade real.

A crítica ao ensino português já não pode resumir-se à velha queixa de falta de acesso. Houve progressos evidentes e importantes. Portugal tem hoje muito mais jovens com ensino superior do que tinha há duas ou três décadas, e a Comissão Europeia reconhece avanços na modernização do sistema, no reforço do ensino profissional e na tentativa de aproximar a formação do mercado de trabalho. Mas exactamente por isso a crítica actual tem de ser mais funda: o problema já não é apenas escolarizar. É perguntar que tipo de inteligência estamos realmente a formar.

A escola do século XIX em embalagem digital

Portugal continua demasiado preso a uma concepção de ensino que, apesar das plataformas, dos computadores, dos projectos e do verniz moderno, conserva uma alma antiga. É um modelo em que o saber continua muitas vezes a ser tratado como matéria para armazenar e não como instrumento para operar sobre o real. Aprende-se para responder. Aprende-se para repetir. Aprende-se para acertar no formato esperado. Aprende-se, demasiadas vezes, para sobreviver ao exame e não para compreender a complexidade do mundo.

Este modelo gera uma ilusão perigosa: a de que o aluno sabe porque consegue reproduzir. Mas reproduzir não é compreender. E compreender, por sua vez, ainda não é fazer. O drama do ensino português está precisamente aqui: confunde-se facilmente exposição a conteúdos com formação de inteligência. Confunde-se cobertura programática com robustez mental. Confunde-se sucesso escolar com maturidade intelectual.

Não admira, por isso, que tantos jovens cheguem ao fim do secundário e mesmo da universidade com dificuldade em aplicar conhecimento, organizar pensamento crítico, resolver problemas abertos, escrever com profundidade, argumentar com autonomia ou adaptar-se a contextos profissionais reais que não vêm embrulhados em pergunta de escolha múltipla.

Mais certificados, nem sempre mais preparados

A OCDE mostra que Portugal aumentou fortemente a proporção de jovens adultos com ensino superior, atingindo cerca de 43% em 2024. Isso é um avanço real e não deve ser negado. Mas seria um erro grosseiro confundir expansão de diplomas com excelência formativa. Um país pode produzir mais licenciados e, ao mesmo tempo, continuar a formar mal em áreas essenciais: autonomia, criatividade, exigência, disciplina intelectual, capacidade de execução, ligação ao real e robustez prática.

O problema não está em democratizar o acesso. O problema está em democratizar o acesso sem garantir uma correspondente cultura de rigor e exigência. Quando o percurso do secundário para a universidade se faz muitas vezes numa lógica de continuidade burocrática, com pouca ruptura na dificuldade, pouca selecção pela excelência e muita acomodação a modelos escolares previsíveis, corre-se o risco de transformar o ensino superior numa continuação administrativamente mais sofisticada do mesmo ensino teórico que já vinha de trás.

A ligação fraca entre escola, universidade, empresa e sociedade

A própria OCDE sublinha que Portugal apresenta níveis relevantes de desajuste entre área de estudo e trabalho exercido. Isto significa que uma parte significativa do que se estuda não encaixa bem no que depois se faz. A economia pede umas coisas, o ensino entrega outras, e o país vai vivendo nesta zona de fricção permanente entre qualificação formal e utilidade prática. Não é apenas um problema de mercado de trabalho. É um problema de desenho civilizacional do sistema educativo.

A escola portuguesa continua, em demasiados casos, separada da empresa e da sociedade como se o conhecimento pudesse viver num aquário. A universidade fala muito de saber, mas nem sempre sabe converter esse saber em colaboração concreta com o tecido económico, com a inovação aplicada, com o empreendedorismo exigente ou com a transformação efectiva da realidade. O mundo do trabalho, por seu lado, também nem sempre sabe acolher, exigir e estruturar bem esse talento. Mas a primeira falha continua a ser educativa: formar demasiado para a teoria e de menos para a prática inteligente.

Isto ajuda a explicar por que razão Portugal continua a revelar fraca capacidade de empreendimento em escala, pouca inovação visível fora de nichos limitados e dificuldade em converter formação em criação de valor. Um país pode acumular escolaridade e continuar sem músculo inventivo suficiente. Basta que ensine muito para saber repetir e pouco para saber fazer.

Pensamento crítico não é retórica escolar

Há outra palavra que em Portugal se gasta com facilidade: pensamento crítico. Está em documentos, em programas, em discursos pedagógicos, em conferências e em apresentações de PowerPoint. Mas pensamento crítico real não é um slogan. Exige leitura aturada, confronto de ideias, paciência analítica, capacidade de formular hipóteses, testar soluções, lidar com incerteza, rever posições e construir juízo próprio com base em evidência.

A agenda recente da OCDE sobre creative thinking mostra bem o sentido do mundo contemporâneo: já não basta acumular informação; é preciso saber gerar ideias, avaliá-las, melhorá-las e aplicá-las. Ora, estas competências não florescem num sistema assente sobretudo em repetição, em segurança programática e em avaliação demasiado centrada na conformidade. Florescem em ambientes exigentes, intelectualmente vivos, onde o erro não é apenas punido, mas também trabalhado; onde a leitura não é superficial; onde a discussão é séria; onde se pede produção, não apenas recepção.

Portugal continua demasiado afastado desse ideal. Não por falta de bons professores ou de escolas exemplares — eles existem. Mas porque o desenho geral do sistema ainda não rompeu suficientemente com a pedagogia da reprodução e do formalismo escolar.

Um país que ensina a passar, não a superar-se

Talvez esta seja a formulação mais dura e mais justa: o ensino português está ainda muito vocacionado para fazer passar, e de menos para fazer superar. Passar de ano. Passar de ciclo. Passar para a universidade. Passar nos exames. Passar nas metas. Passar no processo. Mas superar-se? Exigir mais? Cultivar excelência? Estabelecer padrões altos, difíceis, intelectualmente transformadores? Aí já entramos num terreno onde o sistema revela frequentemente desconforto.

Não admira, por isso, que tanta gente saia do percurso educativo com hábitos mentais frágeis: pouco treino de leitura densa, pouca escrita de fôlego, pouca experimentação prática, pouca interdisciplinaridade séria, pouca cultura de projecto robusto e pouca ligação a ambientes reais de produção, ciência aplicada, tecnologia ou empresa. Forma-se o aluno para o dispositivo escolar; adapta-se mal o jovem à vida real.

Portugal precisa de fazer mais e decorar menos

A tua frase vai ao centro da questão: Portugal tem de sensibilizar para fazer mais do que decorar teorias. E isso vale em todos os níveis. No básico, é preciso reforçar leitura profunda, lógica, experimentação, escrita séria e autonomia intelectual. No secundário, é preciso romper com a tirania de programas excessivamente conteudistas e com a obsessão da preparação para exame como horizonte dominante. Na universidade, é preciso elevar exigência, ligação ao mundo real, avaliação por produção relevante, estágio sério, projecto aplicado e cultura de mérito sem medo da palavra excelência.

Não se trata de desprezar teoria. Um país sem teoria é um país intelectualmente mutilado. O problema é outro: teoria sem aplicação, sem experiência, sem ligação ao real e sem trabalho crítico profundo transforma-se em ornamento. E um país que vive de ornamentos educativos acaba por produzir profissionais adaptáveis apenas ao ambiente protegido da escola — não ao choque criativo, competitivo e exigente da vida real.

Epílogo

Portugal não precisa apenas de mais escolaridade. Precisa de melhor formação. Não precisa apenas de mais diplomas. Precisa de mais inteligência aplicada, mais rigor, mais excelência, mais leitura séria, mais prática com sentido, mais relação entre conhecimento e produção, entre universidade e empresa, entre escola e sociedade.

Enquanto persistirmos num ensino ainda demasiado virado para a reprodução teórica, para o exame e para a passagem administrativa entre etapas, continuaremos a certificar muito e a transformar pouco. E um país que certifica sem transformar está, no fundo, apenas a dar ao atraso uma aparência académica.

Portugal já fez muito para escolarizar. Agora tem de ter coragem para educar de verdade.

FRASE A RETER
Portugal continua demasiado preso a um ensino que certifica o saber decorado, mas ainda forma mal a inteligência aplicada.

Referências

1. Comissão Europeia, Education and Training Monitor 2025 – Portugal:
https://op.europa.eu/webpub/eac/education-and-training-monitor/en/country-reports/portugal.html

2. OCDE, OECD Economic Surveys: Portugal 2026, secção sobre competências, desajuste e mercado de trabalho:
https://www.oecd.org/en/publications/oecd-economic-surveys-portugal-2026_025b3445-en/full-report/strengthening-labour-market-resilience-in-the-face-of-skill-shortages-and-ageing_4c3ecd4d.html

3. OCDE, Higher Education in Portugal, evolução recente da participação no ensino superior:
https://www.oecd.org/en/publications/higher-education-in-portugal_49b1c7dc-en/full-report/current-inequities-in-higher-education-participation-in-portugal_019a77ef.html

4. OCDE, PISA 2022 Creative Thinking, enquadramento internacional sobre pensamento criativo, resolução de problemas e melhoria de ideias:
https://www.oecd.org/en/topics/sub-issues/creative-thinking/pisa-2022-creative-thinking.html

Francisco Gonçalves
Co-autoria editorial com Augustus Veritas, no projecto Fragmentos do Caos.
Crónica sobre o atraso pedagógico português e a urgência de passar da memorização escolar para a inteligência aplicada.
🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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