Democracia e Sociedade

A Ignorância Que Volta de Seringa na Mão

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BOX DE FACTOS
  • A OMS, a UNICEF e a Gavi alertaram em Abril de 2025 que os esforços de imunização estão sob ameaça devido à desinformação, crises humanitárias, crescimento populacional e cortes no financiamento.
  • O ECDC advertiu em 2025 que persistem lacunas de vacinação perigosas na Europa, incluindo níveis insuficientes para conter surtos de sarampo.
  • A OMS afirmou em 2025 que a desinformação vacinal tem consequências reais e trágicas, incluindo mortes evitáveis por sarampo.
  • O próprio ECDC mantém orientação específica para contrariar a desinformação online sobre vacinas e melhorar a aceitação vacinal.
  • A campanha antivacinas continua a apresentar-se como espírito crítico, quando demasiadas vezes assenta em medo, má informação e desprezo pelos factos.

A Ignorância Que Volta de Seringa na Mão

A campanha antivacinas vende-se como lucidez, mas vive da mesma matéria-prima de sempre: ignorância amplificada, desconfiança sem método e desprezo pelos factos.

Há regressos que revelam mais decadência do que novidade. Um deles é o reaparecimento cíclico da campanha antivacinas, agora de novo amplificada nas redes, nas bolhas ideológicas, nos circuitos de pseudo-esclarecimento e nesse submundo cada vez mais activo onde a ignorância gosta de se mascarar de coragem intelectual.

O mais perturbador não é apenas o erro. O erro sempre existiu. O mais perturbador é a confiança com que o erro hoje se exibe. Há pessoas que já não duvidam com humildade; proclamam com arrogância. Já não perguntam para compreender; atacam para se sentirem lúcidas. Já não confrontam a ciência com método; confrontam-na com ressentimento, desinformação e um narcisismo cognitivo que trata a opinião mal informada como se fosse rebeldia superior.

O aviso já foi dado pelas autoridades de saúde

Não estamos perante uma sensação vaga. A OMS, a UNICEF e a Gavi alertaram em Abril de 2025 que os esforços de imunização estão sob ameaça crescente por causa da desinformação, dos conflitos, do crescimento populacional e dos cortes de financiamento. O comunicado fala claramente no risco de milhões de crianças, adolescentes e adultos ficarem expostos a doenças evitáveis. Não é uma hipótese filosófica. É um aviso de saúde pública.

Na Europa, o ECDC voltou a sublinhar em 2025 que persistem lacunas de vacinação perigosas e que muitos países continuam abaixo do limiar recomendado de 95% para conter surtos de sarampo. Também por isso a agência europeia publicou ferramentas específicas para ajudar as autoridades a promover a aceitação vacinal e combater a desinformação online.

A ignorância organizada e a estética do “pensamento crítico”

A campanha antivacinas tem uma particularidade venenosa: gosta de vestir a roupa do espírito crítico. Apresenta-se como dissidência esclarecida, liberdade de pensamento, coragem perante o sistema, resistência à propaganda oficial. Mas, demasiadas vezes, não passa de uma colagem entre medo, ansiedade social, algoritmos, vídeos manipuladores, influencers sem competência técnica e uma disposição emocional para suspeitar de tudo excepto da própria ignorância.

O que se vende como rebeldia é, muitas vezes, apenas preguiça intelectual com marketing agressivo. Porque o verdadeiro espírito crítico exige estudo, comparação de dados, compreensão de contexto, avaliação de risco, escrutínio de fontes e capacidade de rever posições. Já a ignorância organizada faz o contrário: escolhe primeiro a emoção e procura depois fragmentos de informação que a confirmem.

Há aqui uma doença do nosso tempo: a substituição da prova pelo sentimento de autenticidade. Muita gente já não quer saber se uma afirmação é verdadeira; basta-lhe que pareça corajosa, anti-sistema ou “não domesticada”. E é assim que se monta um caldo cultural onde uma mentira partilhada mil vezes passa a ter mais força social do que décadas de evidência acumulada.

Vacinas: uma das grandes vitórias da saúde pública

Convém regressar ao básico, porque o ruído contemporâneo parece exigir a repetição do óbvio. As vacinas estão entre as ferramentas de saúde pública mais estudadas e mais eficazes da história moderna. Evitaram milhões de mortes, reduziram surtos, travaram sequelas gravíssimas, protegeram crianças, idosos e imunodeprimidos e permitiram que doenças outrora devastadoras fossem controladas ou quase eliminadas em muitas regiões.

A OMS tem insistido, inclusive em mensagens de 2025, que é necessário reforçar a confiança pública, combater activamente a desinformação e reconstruir a ponte entre a ciência e as comunidades. Numa mensagem de Setembro de 2025, o director do departamento de imunização da OMS foi particularmente claro: as consequências da desinformação vacinal “não são hipotéticas”, são reais e trágicas, e incluem mortes evitáveis de crianças por sarampo.

Quando isto acontece, a discussão deixa de ser abstracta. Já não estamos no domínio da opinião livre sobre um tema discutível. Estamos no domínio da irresponsabilidade com custo humano directo.

Quem paga a factura da estupidez?

Os gurus da internet não. Os influenciadores da suspeita crónica não. Os vendedores de medo higienizado em vídeo curto não. Quem paga a factura são as pessoas concretas: as crianças que ficam desprotegidas, os doentes vulneráveis, as comunidades onde a imunidade colectiva quebra, os serviços de saúde que voltam a enfrentar surtos evitáveis, os pais confrontados com tragédias que uma sociedade minimamente lúcida teria evitado.

Há algo de especialmente cruel nesta forma de ignorância: ela raramente recai sobre quem a propaga. Como tantas irresponsabilidades modernas, é socialmente distribuída mas biologicamente seletiva. O custo maior cai sobre quem depende mais do bom funcionamento da saúde pública e menos pode proteger-se sozinho.

O sarampo como aviso

O regresso do sarampo em vários contextos foi um dos sinais mais eloquentes desta erosão. O ECDC e a OMS têm repetido que a cobertura vacinal insuficiente reabre espaço para o reaparecimento de doenças que muitos julgavam controladas. Em Fevereiro de 2026, a UNICEF e a OMS avisaram que, embora os casos de sarampo na Europa e Ásia Central tenham descido em 2025 face ao ano anterior, o risco continua elevado e o progresso é frágil. Isto significa que a complacência é uma estupidez particularmente perigosa.

Em linguagem nua: basta uma quebra sustentada de confiança, uma campanha bem montada de desinformação, umas quantas bolhas digitais e uma erosão lenta da adesão vacinal para a História regressar pela porta da frente com doenças que já deviam estar muito mais longe.

Não é liberdade. É regressão mascarada

Os militantes antivacinas gostam de apresentar a sua posição como liberdade individual. Mas há liberdades que, quando arrancadas ao contexto da responsabilidade colectiva, deixam de ser liberdade e passam a ser regressão. Uma vacina não é apenas uma decisão privada em vazio; tem efeitos comunitários. A saúde pública não se constrói com heroísmos de ego inflamado, mas com confiança racional, responsabilidade partilhada e adesão a práticas validadas.

Por isso a campanha antivacinas é mais do que um erro científico. É um sintoma cultural. Revela o crescimento de uma sociedade onde a autoridade do conhecimento é corroída, a confiança institucional se degrada, os algoritmos recompensam a indignação e a ignorância aprende a falar com o tom da certeza moral.

Epílogo

Talvez esta seja a tragédia mais subtil do nosso tempo: vivemos numa época em que o conhecimento nunca esteve tão disponível e, ainda assim, a estupidez consegue amplificar-se com meios industriais. A campanha antivacinas é um dos rostos mais perigosos desse fenómeno. Não porque represente uma maioria, mas porque basta uma minoria suficientemente ruidosa para abrir brechas na muralha da imunização.

E quando a ignorância começa a falar com o tom da virtude, a saúde pública entra em perigo.

No fim, a ciência continuará a ter razão. O problema é que, até lá, pode haver demasiadas vítimas evitáveis pelo caminho.

FRASE A RETER
“Quando a ignorância começa a falar com o tom da certeza moral, a saúde pública entra em perigo.”

Referências

1. OMS / UNICEF / Gavi, Increases in vaccine-preventable disease outbreaks threaten years of progress, 24 de Abril de 2025:
https://www.who.int/news/item/24-04-2025-increases-in-vaccine-preventable-disease-outbreaks-threaten-years-of-progress–warn-who–unicef–gavi

2. UNICEF, comunicado paralelo sobre o mesmo alerta global, Abril de 2025:
https://www.unicef.org/press-releases/increases-vaccine-preventable-disease-outbreaks-threaten-years-progress-warn-who

3. ECDC, European Immunization Week 2025: Closing vaccination gaps, reaching every community, 25 de Abril de 2025:
https://www.ecdc.europa.eu/en/news-events/european-immunization-week-2025-closing-vaccination-gaps-reaching-every-community

4. ECDC, Promoting vaccination acceptance and uptake, incluindo orientação sobre desinformação online:
https://www.ecdc.europa.eu/en/immunisation-and-vaccines/communication

5. OMS, mensagem do Director do Departamento de Imunização, Maio de 2025:
https://www.who.int/news/item/21-05-2025-message-by-the-director-of-the-department-of-immunization–vaccines-and-biologicals-at-who—may-2025

6. OMS, mensagem do Director do Departamento de Imunização, Setembro de 2025:
https://www.who.int/news/item/22-09-2025-message-by-the-director-of-the-department-of-immunization–vaccines-and-biologicals-at-who—september-2025

7. UNICEF / OMS Europa, alerta sobre sarampo e fragilidade do progresso, 11 de Fevereiro de 2026:
https://www.unicef.org/moldova/en/press-releases/measles-cases-dropped-europe-and-central-asia-2025-compared-previous-year-risk

Artigo da Autoria de : Aletheia Veritas
Co-autoria editorial com Augustus, no projecto Fragmentos do Caos.
Crónica sobre a ignorância organizada, a erosão da confiança pública e o regresso perigoso da superstição em tempo de ciência.
🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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