Democracia e Sociedade

Portugal: A República da Graxa

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BOX DE FACTOS
  • Em demasiados meios, subir na hierarquia depende menos de competência do que de conformismo, lealdade tribal e utilidade para o pequeno poder.
  • A frontalidade continua a ser confundida com insolência; a independência, com ingovernabilidade; o carácter, com inconveniência.
  • As democracias desgastadas tornam-se terreno fértil para elites sem grandeza, mais hábeis a proteger-se do que a servir o bem comum.
  • Quando o servilismo passa por inteligência e a espinha dorsal por defeito de feitio, o regime já começou a apodrecer por dentro.

A República da Graxa

Há países onde o mérito abre portas. Em Portugal, demasiadas vezes, basta saber quem lustrar, quando calar e onde ajoelhar.

Portugal tornou-se, em demasiados sectores da sua vida pública e institucional, uma feira de vaidades medíocres. Não uma feira brilhante, criativa, ambiciosa, cheia de talento e risco. Não. Uma feira triste, de corredor mal iluminado, onde circulam os mesmos rostos untados de prudência, os mesmos especialistas em sorrir para cima e pisar para baixo, os mesmos profissionais da reverência que fizeram da flexão da espinha uma forma de ascensão social.

Entre nós, o sucesso não raras vezes deixou de ser a recompensa do mérito para se tornar o prémio da acomodação. Não sobe quem vê mais longe. Sobe quem incomoda menos. Não prospera quem pensa melhor. Prosperam os que sabem adaptar a consciência ao mobiliário do gabinete. Não vence o mais íntegro, o mais competente ou o mais ousado. Vence o mais viscoso, o mais maleável, o mais treinado na arte nacional de agradar sem deixar impressões digitais.

Eis a grande tragédia portuguesa: uma parte substancial do país habituou-se a admirar aquilo que devia envergonhá-lo. A bajulação passou por diplomacia. A cobardia vestiu-se de prudência. A ausência de princípios foi reembalada como inteligência prática. E a indigência moral, desde que bem penteada e embrulhada em linguagem institucional, passou a circular entre conselhos de administração, gabinetes ministeriais, consultorias, observatórios, fundações, comentariados e toda essa fauna subsidiada que fala muito em responsabilidade enquanto vive de favores recíprocos.

Criou-se assim uma cultura de promoção invertida. O carácter torna-se obstáculo. A frontalidade é vista como arrogância. A independência é lida como ameaça. A competência autêntica, quando existe, perturba. Perturba porque expõe a inanidade instalada. Perturba porque obriga à comparação. Perturba porque faz soar, no silêncio das salas climatizadas, a pergunta maldita: “Se este homem tem valor real, o que sobra da nossa encenação?”

E como a mediocridade organizada é cobarde, faz o que sempre faz: fecha-se, protege-se, distribui entre si os lugares, as avenças, as comissões, as presidências, os pareceres, os convites, os júris e as sinecuras. Não para construir o país, mas para gerir a sua própria sobrevivência. A pátria, no fundo, tornou-se muitas vezes uma espécie de condomínio murado da irrelevância bem remunerada.

É neste ponto que Nietzsche regressa, não como bibelot intelectual de café tardio, mas como martelo. Ele foi um crítico feroz da moral de rebanho, da submissão mental, da obediência tornada virtude e da pequenez disfarçada de bondade. A sua filosofia não era uma licença para a ausência de carácter; era, pelo contrário, uma exigência de elevação, de criação de si, de recusa do conformismo domesticado. Lê-lo como patrono do oportunismo seria tão grotesco como usar uma espada para mexer o café. 1

Mas Portugal, com o seu génio paroquial para estragar tudo o que toca, fez algo ainda mais triste: transformou a suspeita nietzschiana contra os moralismos hipócritas numa desculpa para o carreirismo sem espinha. Como quem dissesse: já que os princípios podem atrapalhar, eliminemos então não os moralismos podres, mas o próprio carácter. E assim se ergueu uma geração vasta de gente sem eixo, sem verticalidade e sem vergonha, mas com excelente rede de contactos.

Sartre ajuda a compreender este teatro. A sua ideia de má-fé descreve precisamente o gesto de quem foge à liberdade e se esconde atrás de papéis, funções, máscaras e desculpas sociais. O homem em má-fé já não vive como sujeito responsável; vive como personagem. Em vez de agir, representa. Em vez de escolher, adapta-se. Em vez de responder por si, dissolve-se na etiqueta, no cargo, no protocolo, no sistema. Ora, que melhor definição para uma parte das nossas elites do que esta? São homens e mulheres que já não existem por dentro; apenas circulam por fora. 2

Daqui nasce uma paisagem moral devastadora. O jovem aprende cedo que estudar não basta. Trabalhar não basta. Ser sério não basta. Ter mérito não basta. É preciso saber a quem ligar, a quem sorrir, a quem não contrariar, a que festim comparecer, que indignação fingir e que silêncio comprar. O país ensina, com meticulosa pedagogia subterrânea, que a ascensão depende menos do valor do que da utilidade servil.

Depois, admiramo-nos com a pobreza de ideias, a fraqueza das instituições, a esterilidade da administração, a vulgaridade do debate público e a exaustão da confiança cívica. Mas como haveria de ser diferente? Quando o sistema recompensa a flexão e pune a coluna, o resultado só pode ser este: muita obediência, pouca grandeza; muita gestão de carreira, pouca obra; muita pose, pouco país.

Mesmo em democracias mais estáveis, os indicadores de confiança institucional revelam desgaste. A OCDE mostrou que, em média, apenas 39% das pessoas nos países analisados declaravam confiança alta ou moderadamente alta no governo nacional em 2023. Esse dado não explica tudo, mas serve de aviso: quando as instituições parecem servir-se mais do que servir, a confiança retira-se em silêncio — e quando a confiança morre, o regime fica de pé apenas por hábito. 3

Portugal não precisa apenas de reformas técnicas. Precisa de uma refundação moral. Precisa de reaprender a admirar a verticalidade em vez da graxa, a coragem em vez do cálculo, a competência em vez da pertença tribal, a franqueza em vez da diplomacia viscosa. Precisa, sobretudo, de deixar de confundir civilidade com servidão e pragmatismo com podridão.

Porque um país não morre apenas de pobreza material. Morre também quando a sua cultura de promoção passa a seleccionar os mais úteis ao lodo. Morre quando os melhores se calam, se cansam ou partem. Morre quando o cidadão honesto se torna figura ridícula e o arrivista passa por homem hábil. Morre quando a falta de carácter deixa de ser defeito para se tornar método.

Nietzsche desconfiava do rebanho. Sartre desconfiava da máscara. Portugal conseguiu o prodígio de construir uma ordem social onde o rebanho usa máscara e chama a isso sucesso.

Eis a nudez do problema: não estamos apenas cercados por medíocres. Estamos cercados por um sistema que recompensa a mediocridade sempre que ela venha bem engraxada, bem ligada e bem ajoelhada.

Artigo da Autoria de : Francisco Gonçalves
com co-autoria editorial de Augustus Veritas, para Fragmentos do Caos

Frase final:

Num país onde a graxa sobe mais depressa do que o mérito, o poder deixa de seleccionar os melhores e passa apenas a premiar os mais rastejantes.

Nota do autor

Ao longo de toda uma vida profissional, em empresas, instituições e estruturas de poder muito diversas, pude constatar vezes sem conta este mal e esta perversidade: não são raramente os mais capazes, os mais sérios ou os mais íntegros que sobem, mas antes os mais dóceis, os mais acomodatícios e os mais hábeis na arte da subserviência. Vi demasiadas vezes o carácter ser punido, a competência ser temida e a mediocridade ser recompensada. Não escrevo, por isso, a partir de abstrações teóricas, mas da observação directa, longa e amarga de um país onde, demasiadas vezes, a graxa vale mais do que a coluna vertebral.
Ha muitos anos dizia-se ‘trabalho é trabalho e conhaque é conhaque’; hoje o conhaque refinou-se em consultorias, sinecuras e rendas douradas para os mesmos de sempre.

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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