Somos Fragmentos do Caos- Faz um ano que publicamos textos incómodos, livres e frontalmente críticos
- Faz um ano que publicamos textos incómodos, livres e frontalmente críticos.
- Portugal responde com a sua elegância habitual: boceja, desvia os olhos e volta ao prato requentado dos comentadores de serviço.
- Os leitores estrangeiros chegam com mais curiosidade do que muitos compatriotas anestesiados.
- Eça de Queirós continua, como sempre, a escrever editoriais póstumos sobre este país.
Um anno a escrever para acordados num país que prefere a sesta
Faz um ano que aqui publicamos textos de verdade, de combate e de coragem — esse tríptico pouco recomendável num país que aprecia, acima de tudo, a moderação da nulidade e a boa educação da mentira bem penteada. Durante doze meses escrevemos contra a maré morna, contra a cartilha dos domesticados, contra o perfume rançoso dos profissionais da opinião obediente. E seria de esperar, num país minimamente desperto, que houvesse algum alvoroço. Nem pedíamos romarias. Bastava curiosidade. Bastava um sobressalto. Bastava que uma parte decente de Portugal mostrasse sinais vitais acima do nível de planta de interior.
Mas não. Portugal, fiel à sua tradição de condecorar a pasmaceira, preferiu manter a compostura. Umas dezenas de visitas aqui, mais umas quantas ali, e depois o regresso ordeiro ao noticiário de plástico, ao comentário higienizado, à indignação de cinco minutos e ao futebol como último refúgio da transcendência nacional. O país lê pouco, pensa menos e desconfia profundamente de tudo o que não venha embalado pela televisão, pelo algoritmo ou pelo funcionário do regime com ar de especialista em coisa nenhuma.
A pátria narcotizada e os seus zelosos distribuidores de soníferos
Sem ironia, convém reconhecer o mérito de quem mantém este país em estado de sedação funcional. Não é fácil. Exige persistência, coordenação e um certo talento litúrgico. Todos os dias, jornalistas de reverência pronta, comentadores de aluguer e moralistas de estúdio entram em cena para garantir que nada perturba em excesso o sossego bovino da paisagem. Há sempre um tom adequado, uma prudência engomada, uma falsa complexidade para dissolver o que é simples, e uma simplicidade insultuosa para reduzir o que é grave. Em suma: a verdade chega, mas vem logo uma brigada de socorro retórico colocar-lhe um cobertor em cima.
E o público? O público português, esse velho herói da resignação, recebe tudo com a placidez de quem espera há séculos por uma mudança, mas não ao ponto de se levantar da cadeira. Gosta de queixar-se, o que já é quase um desporto nacional, mas sem o desconforto maçador de pensar até ao fim. Prefere a opinião mastigada, a explicação inofensiva, o escândalo com intervalo para publicidade. O pensamento livre, quando aparece, é tratado como visita inconveniente: tolera-se por instantes, sorri-se por educação, e depois deseja-se secretamente que se vá embora.
Eça, naturalmente, já cá tinha estado
Tudo isto, claro, teria divertido Eça de Queirós com aquele sorriso de bisturi que reservava para as nossas pompas de província. Porque este é, de facto, o país descrito por Eça: o país da pose sem densidade, da eloquência sem consequência, da vida pública transformada em cerimónia de aparências. Mudaram os fatos, as câmaras, os grafismos televisivos e as plataformas digitais. Mas a matéria-prima continua intacta: um país onde a lucidez incomoda, a frontalidade assusta e a inteligência livre só é celebrada quando já está morta, canonizada ou suficientemente distante para não causar embaraço.
A grande ironia é esta: enquanto muitos em Portugal seguem entretidos com a habitual sopa rala de narrativas domésticas, leitores de fora chegam com mais atenção, mais interesse e, por vezes, mais respeito pelo que aqui se escreve do que os próprios naturais da casa. Eis a velha tragicomédia portuguesa em nova encenação: exportamos o que há de vivo porque o mercado interno prefere produto sonífero. Não deixa de ser uma forma de globalização. Lastima-se apenas que a mais necessária mercadoria — a verdade — tenha mais procura no estrangeiro do que na terra onde foi escrita.
Não escrevemos para a sonolência — escrevemos contra ela
Ainda assim, não há aqui motivo para rendição. Pelo contrário. Se um ano de textos livres atrai mais leitores estrangeiros do que portugueses, talvez isso diga menos sobre o fracasso de quem escreve e mais sobre a anemia espiritual de quem não lê. Há países que reconhecem cedo os seus inconformados. Portugal, mais cerimonioso, prefere ignorá-los primeiro, ridicularizá-los depois e, por fim, citá-los tardiamente em alguma conferência sobre pensamento crítico, com café e bolachas.
Por isso continuamos. Não para agradar à multidão adormecida, nem para disputar audiência com os distribuidores de soníferos do regime, mas para manter acesa uma pequena fogueira de lucidez num país que, demasiadas vezes, parece ter transformado a sesta em modelo de civilização. Escrevemos para os poucos que ainda recusam ajoelhar diante da pasmaceira; para os que não confundem moderação com servidão; para os que ainda sentem vergonha desta mediocridade cerimonial que tomou conta da paisagem.
Se Portugal nos lê pouco, paciência. A verdade nunca foi produto de consumo rápido. E talvez seja mesmo essa a nossa melhor medalha: num país viciado em ruído domesticado, continuar a escrever com liberdade já é, por si só, uma forma de insubmissão.
Portugal continua a ser o país onde a verdade chega sem escolta, mas o sono colectivo já vem protegido por comentadores, telejornais e toda uma indústria nacional de almofadas morais.
Artigo da Autoria de :
Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos | Nota editorial


