Os Fofinhos e hipócritas da Geopolítica
Tema: a hipocrisia dos dirigentes europeus que julgam conflitos existenciais à distância, sem coragem para aplicar a si próprios os critérios que impõem aos outros.
Núcleo: é fácil pregar contenção moral quando o risco, o terror e a ameaça de destruição recaem sempre sobre terceiros.
Tese: a Europa substituiu demasiadas vezes os homens de Estado por actores emocionais, especialistas em pose ética e indigência estratégica.
Os Fofinhos da Geopolítica
Há dias em que quase apetece gritar: preciso avisar toda a gente. Avisar toda a gente de que a Europa entrou, há muito, numa fase de encenação moral permanente. Avisar toda a gente de que muitos dos seus dirigentes já não governam o real: comentam-no. Já não pensam em termos de sobrevivência histórica: improvisam frases para consumo mediático. Já não se confrontam com o peso trágico da decisão: representam a pose da virtude diante das câmaras.
São homens e mulheres de voz compungida, sobrancelha franzida e indignação televisiva sempre pronta a disparar. Falam da guerra como quem comenta uma peça de boulevard. Distribuem culpas, oferecem sentenças, fabricam condenações elegantes e, no fim do dia, regressam ao conforto de capitais seguras, protegidas por estruturas de Estado, por polícias, por exércitos e por toda a musculatura institucional que outros construíram com trabalho duro, visão longa e, por vezes, com sangue.
A moral de almofada
O vício favorito desta classe dirigente é simples: exigir contenção absoluta sempre aos outros, sobretudo aos que vivem sob ameaça permanente. São especialistas em recomendar prudência àqueles que têm filhos a crescer ao som de sirenes, foguetes, atentados, fanatismo e juramentos explícitos de destruição. Do alto da sua almofada civilizacional, condenam a reacção muscular de quem vive cercado, esquecendo convenientemente que os seus próprios países, colocados em situação semelhante, fariam o mesmo — ou talvez pior.
Gostava de ver, por uma semana apenas, esses pedagogos da fragilidade instalados num país pequeno e sob cerco, rodeado por forças hostis e por vizinhos que não querem negociar fronteiras, mas apagar a sua existência. Gostava de ver então a serenidade de salão de tantos Melonis, Sánchezes e outros actores menores do circo europeu. Gostava de os ver a governar não um auditório, mas um vulcão.
A verdade é esta, seca e brutal: é fácil ser humanista integral quando os mortos são sempre dos outros.
A Europa dos actores de gabinete
A política europeia degradou-se em arte performativa. Já não produz, com a frequência necessária, estadistas; produz comentadores com gabinete. Já não forma líderes com nervo histórico; fabrica gestores de imagem, intérpretes de emoções, sacerdotes da frase moralista e da superioridade abstracta. Falam de segurança sem terem sentido o peso real da insegurança. Pregam prudência aos outros porque o custo da imprudência nunca lhes bateu à porta. Exigem proporcionalidade matemática em cenários onde a primeira obrigação de um Estado é impedir que o seu povo seja reduzido a alvo.
Isto não significa absolver tudo o que Israel faz. Não significa santificar governos, exércitos ou operações militares. A força sem freio pode degenerar em cegueira, e a legítima defesa não é um cheque em branco para a brutalidade. Mas uma coisa é discutir os limites morais da resposta. Outra, muito diferente, é o conforto obsceno de quem julga a sobrevivência alheia a partir do sofá geopolítico de Bruxelas, Madrid, Roma ou Paris.
Os amadores sentimentais
O drama europeu é que a política se foi enchendo de amadores sentimentais. Gente que confunde compaixão com estratégia, e superioridade verbal com responsabilidade. Gente que quer parecer virtuosa sem pagar o preço da virtude. Gente que condena a dureza dos outros porque nunca teve de enfrentar a dureza da História.
Esses dirigentes gostariam de viver num mundo onde todas as ameaças se dissolvem com comunicados, onde o fanatismo recua perante apelos à moderação, onde a violência ideológica se rende a mesas redondas e onde a morte respeita protocolos diplomáticos. Mas o mundo real continua a ser um lugar rude, onde por vezes os povos não escolhem entre o bem e o mal: escolhem entre o mau e o pior.
E é precisamente aí que a Europa actual falha. Não por excesso de sensibilidade, que essa existe em litros industriais, mas por falta de seriedade histórica. Falta-lhe a lucidez para compreender que há circunstâncias em que a indulgência pode ser apenas outro nome da irresponsabilidade. Falta-lhe a coragem para admitir que um Estado ameaçado tem o dever de se defender. Falta-lhe, em suma, grandeza para distinguir entre crítica legítima e infantilismo moral.
Preciso avisar toda a gente
Sim, insisto: preciso avisar toda a gente. Avisar toda a gente de que o continente que se apresenta ao espelho como reserva espiritual do mundo está a ser governado, demasiadas vezes, por actores de terceira linha com pose de consciência universal. Avisar toda a gente de que esta Europa já não se leva a sério o suficiente para produzir visão estratégica, apenas reflexos emocionais. Avisar toda a gente de que, quando o real lhes bater à porta, muitos destes líderes descobrirão tarde demais que a História não se impressiona com frases bonitas.
O que me exaspera não é a crítica, quando é séria e informada. O que exaspera é a encenação. O desfile de políticos amadores, fofinhos e inflados de moral descartável, sempre prontos a distribuir lições aos outros, mas incapazes de imaginar o que fariam se o caos lhes caísse em cima da própria mesa de jantar. Há nisto uma cobardia de fundo: a cobardia de quem julga sem risco, de quem condena sem custo, de quem fala da guerra como quem fala do trânsito.
Talvez o maior problema europeu seja este: já não temos líderes moldados pelo peso da tragédia, mas administradores treinados para a aparência. E quando a aparência governa, a realidade cobra a factura. Sem desconto. Sem diplomacia. Sem legendas reconfortantes.
Epílogo
O mundo não é um seminário de relações internacionais. Não é um palco universitário. Não é uma tertúlia para almas sensíveis que nunca sentiram o chão tremer. O mundo continua a ser, em demasiados lugares, uma arena feroz onde povos inteiros lutam para não serem esmagados.
E enquanto a Europa continuar a desfilar de toga moral, mas de joelhos diante da realidade, continuará a produzir exactamente isto: muito verbo, muita lágrima estratégica, muita superioridade para consumo doméstico — e uma incapacidade quase infantil de enfrentar o real como ele é.
Os fofinhos da geopolítica ainda não perceberam uma coisa essencial: a História não protege os ingénuos. Muito menos os hipócritas.
É fácil exigir santidade aos que vivem cercados pelo terror, quando se governa à distância, protegido por muros, escoltas e hipocrisia.
Francisco Gonçalves — co-autoria Editorial de Augustus Veritas
Publicado em Fragmentos do Caos. Uma crónica para os que recusam o teatro moral e exigem lucidez diante da violência do mundo.


