Democracia e Sociedade

A Imprensa Domesticada e o Culto do Regime

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BOX DE FACTOS

  • A comunicação social deveria fiscalizar o poder, não servir de capela mediática ao regime.
  • Em Portugal, grande parte do comentário político repete os mesmos nomes, os mesmos vícios e a mesma linguagem domesticada.
  • A corrupção, a incompetência e a captura partidária do Estado são frequentemente tratadas como ruído passageiro, e não como doença estrutural.
  • A repetição incessante de narrativas produz conformismo social e desactiva o pensamento crítico.
  • Sem imprensa livre e corajosa, a democracia transforma-se numa encenação com iluminação profissional.

A Imprensa Domesticada e o Culto do Regime

Houve um tempo em que a comunicação social se apresentava como sentinela da democracia. Hoje, demasiadas vezes, surge como evangelizadora de um sistema apodrecido, recitando a missa diária do regime com ar grave, tom institucional e uma respeitabilidade de estúdio que mascara a miséria moral do País.

A grande tragédia portuguesa não é apenas a corrupção. Nem sequer é só a mediocridade política, que já se tornou entre nós uma espécie de paisagem natural, como a serra, o mar ou a resignação. A tragédia maior é esta: muitos dos que deviam denunciar a podridão passaram a perfumá-la. Muitos dos que deviam confrontar o poder passaram a embalá-lo. Muitos dos que deviam rasgar o véu tornaram-se costureiros do disfarce.

A comunicação social, em demasiados casos, deixou de ser guardiã da democracia para se tornar evangelizadora do regime estabelecido. Não informa: catequiza. Não investiga: gere danos. Não fiscaliza: enquadra. Não questiona o sistema: administra-lhe a imagem, limpa-lhe a face, compõe-lhe o colarinho e polvilha-lhe a ruína com um pó de respeitabilidade.

Da vigilância ao púlpito

Esta mutação não se fez de um dia para o outro. Não houve um decreto oficial a ordenar a transformação dos jornalistas em diáconos do consenso podre. Foi pior: fez-se pela rotina, pela promiscuidade, pelo medo de romper, pela dependência dos circuitos de influência, pelo carreirismo sem espinha e pela normalização lenta da servidão intelectual.

Convidam-se sempre os mesmos comentadores, os mesmos ex-ministros, os mesmos apparatchiks com sorriso de cera e discurso calibrado. Rodam entre estúdios, jornais, fundações, gabinetes e conselhos de administração como moscas douradas de um ecossistema fechado, sempre prontas a explicar ao povo que a realidade é complexa, que é preciso prudência, que não se podem fazer julgamentos precipitados, que convém aguardar pelas instituições — as mesmas instituições que falham, encobrem, adiam e reciclam os culpados.

E assim se vai fabricando uma liturgia mediática onde o regime aparece como inevitável, os seus partidos como pilares sagrados da estabilidade, e qualquer voz realmente livre como ameaça, desvio, populismo, desordem ou pecado mortal.

A arte de repetir até anestesiar

A manipulação moderna já não precisa, na maioria dos casos, de censura brutal. Basta a selecção dos temas. Basta a hierarquia das notícias. Basta o enquadramento. Basta decidir o que se amplifica e o que se esconde no rodapé. Basta repetir até à náusea a mesma narrativa com voz pausada, cenografia elegante e rodapé em letras sérias.

Uma mentira repetida durante semanas com aparência de sobriedade torna-se uma verdade socialmente administrada. Um escândalo sucessivamente relativizado transforma-se em episódio. Um saque ao erário público, se apresentado com a música certa e os especialistas certos, degrada-se numa mera “controvérsia”. Um político profissional, mesmo quando carrega o cheiro a enxofre de décadas de aparelho, continua a ser tratado como “figura de Estado”.

É aqui que a comunicação social trai a democracia: quando deixa de formar cidadãos e passa a fabricar resignados. Quando troca o esclarecimento pela gestão emocional da opinião pública. Quando oferece ao espectador não a realidade, mas uma versão higienizada da realidade, desenhada para não pôr em causa os alicerces do costume.

O jornalismo de joelhos

Há hoje demasiado jornalismo de joelhos. Jornalismo que ladra para os pequenos e abana a cauda aos grandes. Jornalismo valente com o pobre, cauteloso com o influente e reverente com o poder organizado. Jornalismo que fareja com fúria o deslize periférico, mas fica subitamente filosófico, prudente e amante das nuances quando entra em cena a alta clientela do regime.

A dureza verbal que falta perante a corrupção do topo sobra muitas vezes para os cidadãos comuns, para os indignados, para os que rompem a coreografia do costume. O sistema mediático aprendeu a ser feroz com quem não tem blindagem institucional e subtilmente piedoso com quem pertence ao clube certo.

É um jornalismo com espinha de cera. Com bravura selectiva. Com indignação de aluguer. Um jornalismo que se vende como independente mas vive, em larga medida, mergulhado na ecologia do poder, respirando o mesmo ar, frequentando as mesmas salas, citando os mesmos oráculos, protegendo a mesma ficção.

A lavagem de mentes em horário nobre

Os canais de notícias repetem-se como rosários mecânicos. As mesmas imagens, as mesmas frases, os mesmos especialistas, os mesmos enquadramentos, as mesmas conclusões embrulhadas em aparente neutralidade. Durante horas, dias e semanas, o espectador é submetido a uma espécie de liturgia de saturação, onde a repetição funciona como martelo psicológico. Não para informar melhor, mas para ocupar o espaço mental disponível.

Quando um povo vive cercado por este ruído incessante, deixa de pensar por si. Não porque seja incapaz, mas porque é esmagado por uma sucessão de enquadramentos pré-fabricados que lhe dizem, a cada minuto, o que deve temer, o que deve tolerar, o que deve esquecer e quem deve continuar a governá-lo apesar de tudo.

E assim se instala a grande obra-prima do regime: cidadãos exaustos, distraídos, fragmentados, emocionalmente conduzidos e politicamente domesticados. Um povo que ainda vota, mas já quase não acredita. Que ainda escuta, mas já não ouve. Que ainda olha, mas já vê tudo através da névoa produzida por esta máquina de conformismo.

Partidos corruptos, imprensa obediente

Os partidos do regime precisam desta comunicação social como o altar precisa de velas. Precisam dela para manter a ficção de normalidade. Para transformar vícios antigos em inevitabilidades históricas. Para converter o saque continuado do País numa sucessão de casos sem consequência. Para apresentar a decadência como estabilidade e a submissão como moderação.

Quando um partido é apanhado em mais um lamaçal, entra logo em cena a maquinaria da amortização: comentadores a relativizar, pivôs a suavizar, directores a editorializar sobre prudência e equilíbrio, especialistas a explicar que não se pode generalizar. Mas o que está diante dos olhos de todos é precisamente uma generalização: uma estrutura política viciada, um Estado capturado, uma cultura de impunidade e uma imprensa que, demasiadas vezes, funciona como amortecedor da revolta legítima.

O resultado é indecente: os corruptos continuam a circular, os incompetentes continuam a ascender, os cúmplices continuam a comentar e o povo continua a pagar a factura. E tudo isto acompanhado por painéis de debate onde se discute a espuma da semana para que nunca se toque no esgoto estrutural.

Uma democracia sem imprensa livre é teatro com boletim de voto

Convém dizê-lo sem meias palavras: uma democracia sem imprensa verdadeiramente livre, agressiva perante o poder e intelectualmente honesta não passa de teatro legitimado por eleições. Um palco com iluminação decente, figurinos institucionais e actores treinados para parecer indispensáveis.

Pode haver urnas, debates e campanhas. Pode haver sondagens, gráficos, pivôs de voz treinada e directos em frente a parlamentos. Mas, se a função crítica foi domesticada, se o escrutínio foi amansado e se a informação passou a ser instrumento de acomodação, então o regime já não vive da verdade — vive da encenação.

E Portugal, infelizmente, conhece demasiado bem esta arte da encenação. A arte de parecer democrático sem ter uma cultura democrática robusta. A arte de fingir transparência enquanto se protege a opacidade essencial. A arte de chamar pluralismo à alternância de actores que servem, no fundo, a mesma máquina de captura.

Epílogo: a palavra livre contra o catecismo do costume

Mas nem tudo está perdido. Enquanto houver quem escreva sem pedir licença, quem denuncie sem temer o isolamento, quem pense sem se ajoelhar diante dos altares mediáticos, haverá ainda uma fresta por onde possa entrar ar respirável neste salão abafado de conformismo nacional.

A palavra livre continua a ser uma ameaça para o regime porque desmancha a encenação. Rasga os cenários. Apaga a maquilhagem. Mostra a ferrugem por baixo do verniz. E é precisamente por isso que ela é necessária.

Portugal não precisa de mais comentadores domesticados, mais moderadores obedientes ou mais sacerdotes da inevitabilidade. Precisa de jornalistas com coragem, de cidadãos com memória e de uma cultura pública que volte a chamar podridão à podridão, mentira à mentira e corrupção à corrupção.

Porque um país não morre apenas quando lhe roubam o pão. Morre também quando lhe roubam a lucidez. E poucos roubos são tão devastadores como aquele que se faz em nome da informação, diante das câmaras, sob luz perfeita, com gravata composta e voz de missa laica.

Francisco Gonçalves
com Coordenacao editorial de Augustus Veritas
Publicado em Fragmentos do Caos — contra a anestesia das consciências e o teatro dourado da servidão nacional.

Quando a imprensa se ajoelha diante do regime, a democracia deixa de ter cidadãos — passa a ter fiéis domesticados e amedrontados.

– Francisco Gonçalves (2026)

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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