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Mário Zambujal: partiu um mestre da ironia, da imprensa e da literatura portuguesa

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BOX DE FACTOS
  • Mário Zambujal morreu a 12 de Março de 2026, aos 90 anos.
  • Nasceu em Moura, no Alentejo, a 5 de Março de 1936.
  • Foi uma figura maior do jornalismo português, da rádio, da televisão e da literatura.
  • Passou por títulos como A Bola, Record, O Século, Diário de Notícias, Se7e e Tal & Qual.
  • Na RTP, ficou especialmente associado ao jornalismo desportivo e ao programa Grande Encontro.
  • Na literatura, fica para sempre ligado a Crónica dos Bons Malandros.

Mário Zambujal: partiu um mestre da ironia, da imprensa e da literatura portuguesa

Há mortos que deixam apenas ausência. E há outros que deixam voz. Mário Zambujal pertence a essa linhagem rara: a dos homens que continuam a falar connosco mesmo depois de se calarem.

Portugal perdeu hoje uma das suas figuras mais singulares da escrita e do jornalismo. Mário Zambujal não era apenas um nome conhecido: era um timbre, uma maneira de olhar, uma espécie de elegância irónica num país tantas vezes dado ao excesso, ao ruído, à solenidade postiça e à pose de papelão. Com a sua morte, desaparece não apenas um jornalista e um escritor, mas também um certo modo português de contar o mundo com inteligência, humor e aquela malícia fina que não precisava de gritar para ferir.

Num tempo em que tantos escrevem para impressionar e tantos falam para ocupar espaço, Zambujal escrevia como quem sabe que a verdadeira arte da palavra está menos no artifício do que no ritmo, na observação e na precisão. Havia nele qualquer coisa de relojoeiro e de malandro benigno: desmontava a vida em pequenas peças e voltava a montá-la com um sorriso enviesado, como se nos dissesse que o absurdo humano é uma tragédia, sim, mas uma tragédia que às vezes merece ser contada com um copo na mão e uma sobrancelha levantada.

O jornalista que soube olhar para o país

A sua carreira atravessou jornais, rádio e televisão com uma naturalidade rara. Passou por algumas das redacções mais emblemáticas do país, ocupando lugares de destaque em títulos que marcaram gerações. Foi jornalista desportivo, subdirector, chefe de redacção, director, cronista — mas reduzir Mário Zambujal ao currículo seria como tentar resumir o mar com um copo de água. O importante não era apenas por onde passou; era a forma como passou.

Na RTP e no jornalismo desportivo, muitos conheceram-no como um rosto e uma voz familiares. Mas havia nele mais do que o profissional competente e respeitado. Havia o observador da alma portuguesa, esse repórter invisível que não se limitava ao acontecimento, antes escutava o eco humano do acontecimento. E isso é raro. Raríssimo. Sobretudo num país onde, demasiadas vezes, o comentário se faz de espuma e a análise de reflexo condicionado.

O escritor que transformou a malandragem em arte

Se no jornalismo foi grande, na literatura tornou-se inesquecível. Crónica dos Bons Malandros não é apenas uma obra conhecida: é uma peça já incrustada na memória cultural portuguesa. Ali vive uma galeria de personagens e de situações em que o humor, o desencanto e o génio narrativo se misturam como poucas vezes aconteceu entre nós. É um livro que confirma uma verdade simples: às vezes, para retratar profundamente um país, não é preciso fazer um sermão — basta contar bem os seus malandros.

Zambujal percebeu cedo aquilo que muitos intelectuais pomposos nunca entenderam: a literatura não tem de subir ao pedestal para ser grande. Pode andar na rua, falar com a cadência do povo, cheirar a taberna, escutar o ridículo dos homens e, mesmo assim — ou precisamente por isso — tocar em zonas fundas da condição humana. O seu humor nunca foi leveza vazia; foi bisturi com luva de veludo.

Uma voz com subtileza num país de estridências

Num Portugal frequentemente dominado pela gravidade performativa, pela indignação de ocasião e pelos profissionais da opinião instantânea, Mário Zambujal representava uma espécie de escola antiga — mas no melhor sentido da expressão. Não antiga por ser envelhecida; antiga por ser sólida. Por vir de um tempo em que se escrevia melhor porque se lia mais, em que se observava antes de opinar, em que a ironia era um sinal de inteligência e não apenas um tiquesinho de redes sociais.

Era um homem que sabia que o estilo não é verniz: é carácter. E o seu carácter literário e jornalístico ficará como exemplo para quem ainda acredite que a língua portuguesa pode ser tratada com finura, música e precisão, sem perder contacto com a vida concreta, com os pequenos gestos, com os ridículos e as grandezas mínimas que fazem um povo.

O desaparecimento de uma elegância

Há mortes que encerram carreiras. Esta encerra uma presença. E isso é mais grave. Porque o que parte com Mário Zambujal é também uma forma de estar no espaço público: menos histérica, menos vaidosa, menos inchada de si mesma. Parte um homem capaz de unir jornalismo e literatura sem cair no academismo estéril nem na vulgaridade fácil. Parte alguém que sabia que a inteligência, quando é mesmo inteligência, não precisa de trombeta.

Talvez por isso a notícia da sua morte tenha este sabor estranho: não o da celebridade que se apaga, mas o do farol discreto que deixa de iluminar. Continuará a haver comentadores, cronistas, apresentadores, articulistas e romancistas. Claro que continuará. O mundo fabrica nomes em série. Mas vozes com esta textura, com esta ironia limpa, com este equilíbrio entre cultura e humanidade, essas surgem pouco. E quando desaparecem, o país fica ligeiramente mais pobre — ainda que muitos não saibam medir essa pobreza.

Epílogo: o silêncio depois da frase

Mário Zambujal pertence agora ao território onde vivem os autores que já não precisam de se defender do tempo. Ficou escrito. Ficou dito. Ficou visto. E isso, para um homem da palavra, é uma forma superior de permanência.

Hoje, Portugal despede-se dele. Mas talvez a despedida mais justa não seja o lamento convencional nem o obituário burocrático. Talvez seja voltar a lê-lo. Voltar a escutá-lo. Voltar a aprender com a sua ironia sem ruído, com a sua lucidez sem arrogância, com a sua escrita sem gordura.

Num país tantas vezes atolado em vozes ocas, Mário Zambujal foi uma voz com conteúdo. E isso, convenhamos, já era uma forma de heroísmo.

Francisco Gonçalves
para Fragmentos do Caos

Texto desenvolvido em co-autoria editorial com Augustus Veritas, com reverência pela memória de Mário Zambujal — homem de imprensa, de literatura e de fina ironia portuguesa.

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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