Jorge de Sena e a profecia amarga de uma democracia que podia falhar
BOX DE FACTOS
- Jorge de Sena foi uma das vozes mais precoces e duras a denunciar o risco de Abril ser domesticado por velhos vícios nacionais.
- No poema de Fevereiro de 1976, recusava “que a pouco e pouco tudo volte ao de antes”.
- Em cinquenta anos de democracia, Portugal consolidou liberdades fundamentais, mas conviveu com abstenção crescente, desconfiança institucional, desigualdade persistente e percepção elevada de corrupção.
- O problema não foi a democracia em si, mas a sua lenta captura por aparelhos, carreiras, clientelas e liturgias vazias.
- A grande pergunta de Sena continua a ecoar: libertámo-nos do regime antigo — ou apenas da sua mobília?
Jorge de Sena e a Profecia Amarga de uma Democracia que Podia Falhar
Dizer que Jorge de Sena foi “o primeiro” a perceber que a democracia instaurada em Portugal podia correr mal talvez seja excesso de exactidão retórica. A História, como as velhas aldeias, costuma ter sempre mais testemunhas do que o registo oficial admite. Mas dizer que foi dos primeiros grandes espíritos portugueses a pressenti-lo com clareza feroz — isso já não é exagero; é justiça.
Sena conhecia o país por dentro. Conhecia-lhe o talento e a pequenez, a fulguração e a baixeza, a capacidade para o heroísmo e a ainda maior capacidade para o arranjo, para o compadrio, para a camuflagem moral sob palavras sonoras. Sabia que derrubar uma ditadura não bastava. Era preciso derrubar também o servilismo, a mentalidade de rebanho sempre presente, a reverência aos pequenos poderes, a gula dos aparelhos, a inclinação quase litúrgica para substituir a substância pela pose.
E foi por isso que, depois da esperança, veio o aviso. No seu poema de Fevereiro de 1976, Jorge de Sena escreveu aqueles versos que ainda hoje soam como marteladas numa porta que o País insiste em manter semicerrada: “Não, não, não subscrevo, não assino / que a pouco e pouco tudo volte ao de antes”. Aí está, em meia dúzia de palavras, uma radiografia completa da ansiedade lúcida: o medo de que a Revolução fosse lentamente esterilizada, administrada, burocratizada, absorvida pelos mecanismos eternos da mediocridade nacional.
E que são esses mecanismos? Não são monstros mitológicos. São coisas muito portuguesas, muito caseiras, muito bem penteadas. São os parlamentos que falam como se governassem o futuro e governam apenas o calendário das conveniências. São os governos que mudam de rosto mas não de reflexos. São as clientelas que trocam de bandeira como quem muda de gravata. São os moralistas ocasionais que condenam hoje o que ontem jantaram. São os revolucionários de cerimónia que, mal chegam ao gabinete, descobrem subitamente a paz confortável do carpete.
A tragédia não foi Abril: foi a sua domesticação
Importa dizê-lo com nitidez de lâmina: Jorge de Sena não desconfiava da liberdade. Desconfiava, isso sim, do modo português de a desperdiçar. A sua “Cantiga de Abril” mostra bem que viu na queda da ditadura um instante alto, necessário, quase sagrado. Mas o poeta, porque era poeta e não funcionário do entusiasmo, percebeu logo que a liberdade podia ser convertida em ritual, em símbolo vazio, em objecto de propaganda, em peça de museu com cravo ao peito e ferrugem na alma.
Aconteceu muitas vezes nestes cinquenta anos. Portugal democratizou o voto, mas nem sempre democratizou a competência. Multiplicou instituições, mas nem sempre lhes deu grandeza. Encheu o espaço público de linguagem cívica, mas deixou muitas vezes o subterrâneo entregue à velha fauna do favor, do ajuste e da cumplicidade. A democracia portuguesa foi-se tornando, em demasiados momentos, uma espécie de teatro respeitável onde se declamam princípios nobres nos palcos da República, enquanto nos bastidores se trata do costume.
Houve progressos? Claro que houve. E imensos. Liberdade de expressão, sufrágio universal consolidado, integração europeia, expansão do ensino, melhorias em infra-estruturas, acesso mais vasto à saúde, redução de formas brutais de atraso estrutural. Negá-lo seria cair na caricatura, que é a versão preguiçosa da crítica. Mas o problema nunca esteve aí. O problema esteve no facto de o regime ter criado também a sua aristocracia burocrática, o seu ecossistema de sobrevivência, a sua religião da irresponsabilidade difusa.
Cinquenta anos depois: o que assusta não é o fracasso total — é a mediocridade administrada
Talvez o mais perturbador seja isto: Portugal não caiu num abismo espectacular. Caiu, demasiadas vezes, numa planície morna. Não colapsou de forma operática; foi-se arrastando. E é precisamente essa lentidão da decadência que torna a intuição de Jorge de Sena tão extraordinária. Ele percebeu que o grande perigo não seria uma nova ditadura de botas ruidosas. Seria algo mais subtil, mais viscoso, mais moderno: uma democracia formalmente intacta, mas corroída por dentro pela baixa exigência, pela captura partidária, pela indigência moral, pela promoção sistemática do mediano.
Veja-se a erosão da confiança. Veja-se a abstenção eleitoral, que se foi tornando uma segunda maioria silenciosa. Veja-se a persistência da pobreza em franjas largas da população, mesmo depois de décadas de fundos, planos, reformas, choques tecnológicos e promessas redentoras servidas com ar grave em conferências de imprensa. Veja-se a percepção generalizada da corrupção, repetidamente altíssima, como uma névoa que se entranha na ideia que o cidadão comum faz da República. E veja-se, sobretudo, o que talvez seja pior do que tudo isso: a normalização.
O País habituou-se. Habituou-se a escândalos que passam e regressam com nomes diferentes. Habituou-se a tribunais tardios, a responsabilidades diluídas, a políticas improvisadas, a serviços públicos sobrecarregados, a reformas anunciadas como epopeias e executadas como remendos. Habituou-se, em suma, a uma forma de cansaço cívico que é o melhor adubo para todas as decadências.
É por isso que Jorge de Sena continua tão actual. Porque ele não escreveu apenas sobre um risco conjuntural do pós-Abril. Escreveu, no fundo, sobre um padrão antropológico nacional: a facilidade com que Portugal troca a profundidade pela encenação, a coragem pela prudência servil, a reforma pela maquilhagem, a liberdade pela sua versão decorativa.
A democracia portuguesa cumpriu metade da promessa
A primeira metade foi real e valiosa: libertou. A segunda ficou incompleta: elevar. Deu-nos direitos, mas não conseguiu criar, com a mesma força, uma cultura de responsabilidade proporcional. Deu-nos pluralismo, mas não impediu a reprodução de castas funcionais. Deu-nos alternância, mas não garantiu renovação profunda. E, em muitos sectores, trocou a ambição nacional por uma gestão rotineira do possível, como se governar fosse apenas evitar o escândalo da semana seguinte.
Sena, com a sua inteligência de aço e a sua repulsa pelo provincianismo mental, teria reconhecido este cenário sem dificuldade. Talvez até esboçasse aquele sorriso oblíquo de quem vê confirmada a suspeita mais amarga. Não porque desejasse estar certo — mas porque conhecia a matéria-prima humana com que se fabricam as decepções colectivas.
O mais terrível é que a sua advertência não perdeu força; ganhou-a. Hoje já não basta perguntar se a democracia “correu bem” ou “correu mal”. É preciso perguntar para quem correu bem, quem beneficiou da sua estrutura real, quem ficou de fora da prosperidade prometida e quantas vezes a palavra povo serviu apenas para legitimar máquinas que do povo vivem, mas para ele raramente trabalham com nobreza.
O aviso de Sena ainda está em cima da mesa
Talvez a maior homenagem que se pode prestar a Jorge de Sena não seja citá-lo em colóquios, nem erguer-lhe estátuas intelectuais entre duas selfies académicas. Talvez seja outra coisa: levar a sério o seu incómodo. Aceitar que a democracia não é automaticamente virtuosa só porque é democrática. Compreender que um regime livre pode produzir conformismo, carreirismo e parasitismo com notável eficiência. E admitir, sem sentimentalismos de cerimónia, que Portugal falhou demasiadas vezes na transformação da liberdade em excelência colectiva.
Ainda assim, nem tudo está perdido. O aviso de Sena não é apenas necrológico; é também um último convite à lucidez. Se a democracia portuguesa ficou aquém de si própria, isso não obriga à nostalgia da treva. Obriga, sim, a uma refundação ética, cultural e institucional. Obriga a exigir mais. Obriga a pensar melhor. Obriga a quebrar a idolatria da mediania. Obriga a recordar que a liberdade não é um sofá constitucional onde a Nação se deita para ressonar entre eleições.
No fundo, Jorge de Sena viu cedo aquilo que muitos só compreenderam tarde: uma democracia pode sobreviver formalmente durante décadas e, no entanto, ir apodrecendo devagar no seu interior. E esse apodrecimento não faz barulho de quartel. Faz barulho de gabinete. De comissão. De parecer. De ajuste. De nomeação. De silêncio.
É por isso que a sua voz ainda nos fere. Porque foi profética? Talvez. Mas sobretudo porque foi honesta. E a honestidade, em certos países, continua a soar como uma blasfémia.
Referências factuais destes 50 anos
1. Jorge de Sena — “Cantiga de Abril”
Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra.
https://www.cd25a.uc.pt/page/798
2. Jorge de Sena — Poema de Fevereiro de 1976 (“Não, não, não subscrevo, não assino…”)
Reprodução amplamente citada em arquivo literário e blogues de divulgação cultural.
https://luardejaneiro.blogs.sapo.pt/45860.html
3. Pordata / Fundação Francisco Manuel dos Santos — Cinco Décadas de Democracia em Portugal
Área temática com dados históricos sobre eleições, participação, governação, evolução social e política.
https://www.pordata.pt/cinco-decadas-democracia-em-portugal
4. Pordata / FFMS — Eleições Legislativas: evolução histórica da democracia portuguesa
Síntese estatística sobre votos, governos e participação eleitoral.
https://ffms.pt/sites/default/files/2025-04/PR%20Elei%C3%A7%C3%B5es%20Legislativas_2025_Pordata_FINAL.pdf
5. Pordata / FFMS — Pobreza em Portugal
Dados sobre risco de pobreza, intensidade da pobreza, rendimentos e desigualdade.
https://www.pordata.pt/estatisticas/pobreza
6. Pordata / FFMS — Retrato da evolução da pobreza em Portugal
Nota estatística com indicadores recentes sobre intensidade e incidência da pobreza.
https://ffms.pt/sites/default/files/2024-10/PR_Dia%20Internacional%20Pobreza_2024_PORDATA_vf.pdf
7. Transparency International Portugal — Índice de Percepção da Corrupção 2025
Análise do posicionamento de Portugal e evolução recente da percepção de corrupção no sector público.
https://transparencia.pt/indice-de-percecao-da-corrupcao-2025/
8. Eurobarómetro / Mecanismo Nacional Anticorrupção — Atitudes dos cidadãos em relação à corrupção na UE em 2024
Dados sobre a percepção da corrupção como fenómeno comum em Portugal.
https://mec-anticorrupcao.pt/eurobarometro-sobre-atitudes-dos-cidadaos-em-relacao-a-corrupcao-na-ue-em-2024/
9. Conselho das Finanças Públicas — Evolução do desempenho do Serviço Nacional de Saúde em 2024
Indicadores sobre utentes sem médico de família e desempenho do SNS.
https://www.cfp.pt/pt/publicacoes/sectores-das-administracoes-publicas/evolucao-do-desempenho-do-servico-nacional-de-saude-em-2024
Epílogo
Passaram cinquenta anos. Mudaram os governos, os slogans, os rostos, os emblemas e as gravatas. Mas a pergunta de fundo continua em pé, teimosa e sem compostura: terá Portugal construído uma democracia viva — ou apenas um mecanismo elegante para que tudo mudasse o suficiente para quase tudo ficar na mesma?
Francisco Gonçalves & Augustus Veritas
Co-autoria para Fragmentos do Caos
Crónica editorial em formato FC-Chronic-News
A democracia portuguesa libertou o povo da mordaça, mas nunca conseguiu libertar o País da mediocridade.
Nota Final
Jorge de Sena não morreu na clandestinidade literal, mas numa forma mais cruel de exílio: a de ter sido mantido à margem por um país onde o oportunismo, a esperteza e os aparelhos já começavam de novo a ocupar o lugar da grandeza.


